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Na linha de frente, Putin visita regiões separatistas de Kherson e Lugansk

Presidente russo recebeu reportes sobre a situação da região e parabenizou tropas e figuras de alto escalão
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Enquanto a anunciada ofensiva ucraniana continua pendente não só da evolução das condições climáticas, mas também da enésima porção de armamento que possam lhe proporcionar Estados Unidos e seus aliados na nova reunião que vão manter na sexta-feira desta semana na base militar de Rammstein, Alemanha, os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Ucrânia, Volodymir Zelensky, visitaram suas tropas em três zonas diferentes da frente de guerra. 

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Na primeira hora de terça-feira (18), o Kremlin difundiu um vídeo que mostra Putin descendo de um helicóptero militar Mi-8. O comunicado que acompanha as imagens diz que o mandatário visitou o quartel general do grupo de exércitos “Dnieper”, na localidade de Guenichesk, na região de Kherson, onde ao descer de um veículo blindado com placa moscovita o recebeu o general Oleg Makarevich, comandante desse setor. 

Putin escutou aí um reporte da situação por parte do general Mijail Teplinsky, comandante das tropas de desembarque aéreo, que mereceu os elogios do presidente: “Sei que por encargo do chefe do Estado Maior (Valeri Guerasimov) e do ministro de Defesa (Serguei Shoigu), ele (Teplinsky) esteve muito tempo na linha de frente e apresentou um informe muito completo que qualificaram como muito valioso o ministério da Defesa e o Estado Maior (aqui inverteu a ordem)”.

Depois se vê o titular do Kremlin entregando a cópia de um ícone – cujo original o Czar Alexandre III regalou ao seu ministro da Defesa, Piotr Vannovsky –, no quartel general. “Este corresponde à guarda nacional na região de Lugansk”, depois de escutar o reporte apresentado por Aleksandr Lapin.

O porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, assegura que estas visitas foram feitas na segunda-feira anterior, mas o setor russo das redes sociais se encheu de comentários que mostraram aspectos incongruentes.

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O jornalista Aleksei Venediktov, diretor da emissora Ejo Moskvy, clausurada pelas autoridades, resumiu as observações mais comuns: ao entregar o ícone, Putin diz “Vamos celebrar a Páscoa, não? Aqui lhe deixo…” o que faz pensar que a viagem se realizou antes do domingo anterior; se foi feita na segunda-feira, como sustenta o Kremlin, pela manhã estava em Kherson, viajou a Moscou para reunir-se com o ministro da Defesa, e de tarde voltou a Lugansk, trocando de roupa nos três lugares; e não há dúvida que esteve em Guenichesk, que está a 150 quilômetros da linha da frente.

Diante dos numerosos comentários nas redes sociais, Peskov ordenou que se tirasse do vídeo o fragmento onde seu chefe menciona a Páscoa ortodoxa e deu esta explicação: “O presidente se referia a que a Páscoa se celebra durante quarenta dias, além disso estamos na semana de Páscoa… Se aferraram de modo equivocado a uma frase e começaram a fabricar hipóteses sobre algo que não aconteceu”. 

À margem de quando viajou Putin a Kherson e Lugansk, o significativo é que, depois de sua aparição em março anterior em Mariupol, região de Donetsk, essa é – nos quase quatorze meses de guerra – a segunda visita do presidente russo a duas novas regiões que, ainda incompletas, a Rússia anexou em setembro passado. 

Ademais, de acordo com a leitura feita pelo canal Rybar no Telegram, que analisa a guerra a partir de posições a favor da Rússia e que às vezes não poupa críticas à cúpula castrense, Putin quis dar um apoio aos generais Teplinsky e Lapin.

Presidente russo recebeu reportes sobre a situação da região e parabenizou tropas e figuras de alto escalão

Kremlin
Putin, durante a visita ao quartel-general do agrupamento de tropas do Dnepr, na direção de Kherson

Eles “haviam sido mandados de ‘férias’, o que equivale a despedidos, por estarem em desacordo com a evolução da operação militar especial e as decisões tomadas”. Ambos regressaram a postos de comando e “tudo indica que contra a vontade do titular do Estado Maior e do ministro da Defesa”, concluiu o canal. 

A resposta de seu colega ucraniano Zelensky na outra guerra, a da imagem, não se fez esperar e nesta terça-feira visitou suas tropas em Avdiivka, onde junto com Bakhmut se concentram os ataques das tropas russas. 

Seu serviço de imprensa se encarregou de destacar que o mandatário ucraniano esteve a 5 quilômetros da linha de frente. A imprensa do vizinho país eslavo costuma enumerar que Zelensky já visitou “Bakhmut e as cidades liberadas de Kherson e Izium”, assim como “lugares de vanguarda de suas tropas em zonas de combate nas regiões de Karkov, Zaporíjia, Dniepropetrovsk, Donetsk e Lugansk”.

Zelensky felicitou seus soldados com motivo da Páscoa ortodoxa e repartiu condecorações. “É uma grande honra estar hoje (terça-feira) aqui, lhes agradeço sinceramente o grande esforço que fazem defendendo nossa terra, Ucrânia, nossas famílias. Lhes desejo só a vitória, que é o que queremos todos os ucranianos”, afirmou.

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Ao comentar a viagem do mandatário ucraniano à assediada cidade de Avdiivka, o chefe do grupo Wagner, Yevgueni Prigozhin, que assevera controlar já 80% da cidade destruída de Bakhmut, admitiu: “Zelensky tem ovos de aço”. 

E propôs com ironia: “Que bom que condecore sua gente em Avdiivka. Que mande agora seus militares a Bakhmut para que possam regressar condecorados post mortem”.


Russo opositor ao Kremlin é condenado a 25 anos de prisão por traição

A corte urbana da capital russa condenou nesta segunda-feira o opositor Vladimir Kara-Murza a 25 anos de reclusão em um centro penitenciário de segurança máxima – a maior pena imposta até agora a um adversário do Kremlin – ao considerá-lo culpado de três delitos: desacreditar o exército, colaborar com uma organização indesejável e cometer alta traição”, o mais grave de todos. 

Historiador e jornalista, Kara-Murza não tinha acesso a nenhum segredo de Estado, segundo seu advogado, Vadim Projorov. No entanto, esgrimindo as emendas à lei de traição que qualificam como tal qualquer atividade, incluso uma simples conferência, em países ou organizações de outros países que o Kremlin considere contrárias a seus interesses, o promotor solicitou 18 anos de prisão contra ele por haver cometido “alta traição ao pôr em risco a segurança e integridade territorial da Rússia”. 

A promotoria, de acordo com a acusação, lhe imputou falar de terror de Estado por motivos políticos; de alterar os resultados nas eleições; de violar direitos humanos; e de chamar a Rússia de país agressor em sua guerra contra a Ucrânia, enumerou a modo de exemplo o advogado. Em essência foi condenado por “expressar sua opinião em intervenções públicas em Lisboa, Helsinki e Washington”, precisou Projorov.

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O juiz Serguei Podoprigorov também considerou Kara-Murza culpado por “difundir notícias falsas sobre a operação militar especial” na Ucrânia e de colaborar com a Fundação Rússia Aberta, proscrita aqui em 2019 como “organização indesejável”, por organizar em Moscou, dois anos mais tarde, uma conferência em apoio aos prisioneiros de consciência no Centro Sájarov, agora já também proibido. 

“Se isto houvesse sido uma mínima paródia de justiça, o juiz devia ele mesmo pedir para ser substituído para evitar o evidente conflito de interesses”, estimou Projorov.

E recordou: Podoprigorov figura entre os primeiro afetados pela chamada “Ley Magnitsky” que, entre outros, foi elaborada por Kara-Murza e que os governos dos Estados Unidos e de vários países europeus utilizam, desde 2012, para sancionar a funcionários, juízes, mafiosos e policiais que, presumidamente, participaram no perseguição e morte no cárcere, três anos antes, do auditor Serguei Magnitsky, por denunciar os fraudulentos esquemas que permitiram o roubo do equivalente a centenas de milhões de dólares. 

Yevgueniya Kara-Murza, esposa do opositor – que antes de ser preso de maneira preventiva em abril de 2022 sobreviveu a duas tentativas de envenenamento em 2015 e 2017 que lhe deixaram graves sequelas – perdeu 22 quilos e sofre de polineuropatia nas extremidades inferiores e sustenta que seu marido é vítima de “uma vingança pessoal”. 

Acredita que “cedo ou tarde, acusariam a Volodia (diminutivo de Vladimir) de alta traição porque as autoridades russas acreditam que são todo o país, e se algo os molesta, como que lhes confisquem suas contas bancárias e propriedades ou lhe proíbam de entrar ao seu território, se indignam e afirmam que estão atentando contra os interesses nacionais da Rússia”.

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Na anterior sessão do julgamento, ao exercer seu direito à última palavra, Kara-Murza, na versão difundida nas redes sociais por seus familiares, disse não ter dúvida de que ia ser condenado por motivos políticos e lançou: 

“Chegará um dia em que se dissiparão as trevas em nosso país. Quando o negro será chamado negro e o branco, branco; quando as autoridades vão reconhecer de modo oficial que dois mais dois sempre serão quatro. Quando a guerra será chamada de guerra, e o usurpador de usurpador. E quando serão chamados de criminosos aqueles que provocaram e desataram esta guerra, e não aqueles que trataram de detê-la”.

E concluiu assim: “Um dia, nossa sociedade abrirá os olhos e se horrorizará pelos terríveis crimes que se cometeram em seu nome. A partir dessa tomada de consciência, dessa reflexão, começaram um longo e difícil caminho para recompor a Rússia, que será o começo de seu regresso à comunidade de países civilizados. Inclusive encerrado nesta jaula, amo meu país e acredito em nossa gente. Estou convencido de que podemos recorrer a este caminho”.

Juan Pablo Duch | La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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