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Na ONU, México vai na contramão de EUA e UE e oferece plano de paz para Rússia e Ucrânia

Segundo chanceler mexicano Marcelo Ebrard, Obrador busca, além de apresentar um planejamento, atuar como mediador entre países em conflito
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O México apresentou, nesta quinta-feira (22) à Organização das Nações Unidas (ONU), a proposta do Presidente Andrés Manuel López Obrador para impulsionar um processo de paz no conflito Rússia-Ucrânia, ante uma Assembleia Geral e um Conselho de Segurança que se dedicaram mais à condenação e à denúncia que à busca de soluções diplomáticas. 

“Com base em sua vocação pacifista, o México considera que a comunidade internacional deve canalizar agora seus melhores esforços para alcançar a paz… fortalecer os esforços do secretário geral, António Guterres, mediante a formação de um comitê para o diálogo e a paz na Ucrânia, com a participação de outros chefes de Estados e de governo, incluindo, se for possível, sua excelência Narendra Modi, primeiro ministro da Índia, e sua santidade, o papa Francisco”, declarou o chanceler mexicano Marcelo Ebrard ao apresentar a proposta pela paz primeiro ante uma sessão do Conselho de Segurança e posteriormente ante a Assembleia Geral da ONU.

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Ebrard explicou que o objetivo é “gerar novos mecanismos para o diálogo e criar espaços complementares para a mediação que fomentem a confiança, reduzam as tensões e abram caminho para uma paz verdadeira”. 

Ante a Assembleia Geral, ampliou os detalhes da proposta assinalando que diante da “paralisia” do Conselho de Segurança em frear a guerra e promover um processo diplomático, o presidente do México busca, com sua proposta, “oferecer um canal diplomático complementar aos existentes, para interagir com as partes em conflito, mirando reduzir as tensões e encaminhar a mediação”. 

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Informou que esta proposta já foi compartilhada com o secretário geral da ONU, António Guterres, as partes em conflito, como com representantes da Índia e do Vaticano, e que o México prosseguirá “com as consultas necessárias, com o único propósito de poder contribuir, como ator imparcial e de boa fé, a gerar o mais amplo respaldo possível às gestões e bons ofícios do secretário geral e do Caucus, cuja conformação esperamos que proceda, com o apoio dos Estados membros da ONU”.

O diplomata recordou que o México age por seus princípios de não intervenção e solução pacífica de conflitos e recordou, em sua apresentação ante o Conselho, que “por experiência própria, o México conhece e entende bem a importância de contar com a garantia básica de poder viver sem a ameaça de ser invadido por outro país. Qualquer ação que violenta esse princípio é ilegal e é ilegítima”. 

Na sessão do Conselho de Segurança, o órgão mais poderoso da ONU, os representantes dos cinco membros permanentes e vários dos dez temporários interviram, embora nenhum tenha feito referência pública à proposta do México por hora. Ebrard está se reunindo com suas contrapartes da Índia, da Rússia e do Vaticano, e também na quinta-fera, informou que sustentou uma conversa com o chanceler ucraniano Dmytro Kuleba, o qual “agradeceu os esforços do México” no Conselho.

Segundo chanceler mexicano Marcelo Ebrard, Obrador busca, além de apresentar um planejamento, atuar como mediador entre países em conflito

Gobierno de México
O Presidente Andrés Manuel López Obrador




Vieram, viram, foram embora

Na sessão do Conselho de Segurança, só o México ofereceu uma proposta concreta para impulsionar um processo de paz, enquanto quase todos os demais reiteraram suas posições comuns de que este conflito estava pondo em risco os fundamentos da ONU. Reprovaram a violação de soberania e sublinharam a necessidade urgente de uma solução negociada. Mas ao concluir seus discursos, todos se foram sem tomar nenhuma ação. 

O secretário geral da ONU, António Guterres, além de repetir seus apelos de pôr um fim na guerra, denunciou como “totalmente inaceitáveis” as ameaças do uso de armas nucleares pela Rússia e considerou que a tentativa de anexar território ucraniano pela Rússia é uma “violação da carta da ONU”.

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O promotor da Corte Penal Internacional, Karim Kahn, informou ao Conselho sobre a investigação, entre outras coisas, de fossas comuns e advertiu que “os ecos de Nuremberg devem ser escutados hoje”. 

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, representando o país que se autoproclama o guardião da ordem internacional, deplorou as ações da Rússia por violar os princípios que supostamente deve defender como membro permanente do Conselho de Segurança. No entanto, não fez referência a outros membros permanentes – como os EUA – que têm violado essas mesmas normas repetidamente, a mais recente na invasão do Iraque. 

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Insistiu que a Rússia deve “prestar contas” por seus crimes de lesa humanidade e crimes de guerra, mas não mencionou que seu país não ratificou o Estatuto de Roma, que estabeleceu uma entidade internacional para alcançar tal objetivo – a Corte Penal Internacional – nem aceitou prestar contas pelos crimes de guerra incluindo tortura e ataques a alvos civis cometidos pelos Estados Unidos no Iraque, no Afeganistão e em outros países em anos recentes.

Blinken repetiu que, com a ação da Rússia, “a própria ordem internacional que nos reunimos aqui para manter está sendo triturada diante de nossos olhos. Não podemos… permitir que o presidente Putin faça o que quer”.

Os representantes de países europeus fizeram eco às palavras de Blinken, uma e outra vez apelando ao ajuizamento da liderança russa. O representante da União Europeia, Josep Borrell Fontelles, apontando o amplo repúdio internacional à invasão da Ucrânia, declarou que “politicamente, a Rússia perdeu a guerra”. 

Porém Sergei Lavrov, chanceler da Federação Russa, argumentou que a narrativa impulsionada pela Ucrânia e seus aliados ignora que as origens do conflito têm a ver com “um assalto” sobre comunidades russas dentro da Ucrânia, com repetidas e graves violações de direitos humanos e ataques contra civis – alguns encabeçados por forças neonazistas – todas as quais nunca foram investigadas pela ONU. Denunciou que o objetivo dos países que estão apoiando militarmente a Ucrânia buscam prolongar o conflito”. 

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Lavrov chegou tarde para não escutar os primeiros oradores e foi embora antes de que tomasse o microfone sua contraparte ucraniana, Kuleba, o qual qualificou de mentirosos os representantes russos e condenou a invasão “criminosa” ao seu país, além de insistir que Putin e seus diplomatas que “encobrem o crime de agressão” – em óbvia referência a Lavrov – deveriam ser obrigados a prestar contas ante um tribunal especial para eles. 

Por sua parte, o chanceler da China, Wang Yi, apelou pelo respeito aos princípios da carta da ONU, indicou seu apoio a uma “negociação sem condições” e uma “desescalada” do conflito por ambas as partes e sugeriu que toda investigação sobre possíveis violações dessa carta e outros possíveis crimes deveria evitar ser “politizada” e ser realizada de maneira “imparcial” sobre os fatos. 

Foi a primeira vez desde o início da guerra há sete meses que os representantes dos países envolvidos no conflito estavam no mesmo lugar.

David Brooks e Arturo Sánchez Jiménez, especial para o La Jornada, em Nova York.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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