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Nada vale mais que a vida humana

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

José Mujica*

mujica en onu
O presidente uruguayo José Mujica.

Em intervenção na Assembleia das Nações Unidas que se prolongou por mais de meia hora, o presidente José Mujica reiterou sua prédica contra o consumismo, pediu pelo levantamento do bloqueio a Cuba e o fim do colonialismo nas Malvinas, condenou a espionagem eletrônica e advogou por fim à pobreza porque, disse, “os indigentes do mundo não são da África ou de América Latina, são de toda a humanidade”.

“Sou do sul, venho do sul”, começou Mujica. “Esquina do Atlântico e Prata. Meu país é uma planície suave, temperada, pecuária. Sua história de portos, coros, charque, lãs e carne teve décadas de púrpuras de lanças e cavalos, até que por fim, no início do século XX, se pôs a se tornar vanguarda no social, no Estado, na educação”, disse e acrescentou que “a socialdemocracia foi inventada no Uruguai. Durante quase 50 anos o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, no econômico fomos filhotes bastardos do Império Britânico, e quando este sucumbiu vivemos a fel amargo dos termos de intercâmbio funestos e ficamos estancados quase 50 anos recordando Maracanã, nossa façanha desportiva”.

Mujica disse que agora o Uruguai “ressurge neste mundo globalizado”, reconheceu seus “erros”, e assegurou estar angustiado “pelo futuro” que não verá mas que por ele se compromete. “É possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez hoje a tarefa seja salvar a vida”.

Estou comprometido com os milhões de compatriotas pobres, com as culturas originais esmagadas, com restos do colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a esse caimão sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Estou comprometido com as consequências da vigilância eletrônica que não faz outra coisa se não semear desconfiança, que nos envenena. Compromisso com uma gigantesca dívida social e a necessidade de defender a Amazônia e os grandes rios da América”, enumerou, e declarou esta comprometido para que haja “pátria para todos e para que Colômbia possa encontrar o caminho para a paz”.

Para Mujica “se necessita de tolerância para aqueles que são diferentes, não é necessária para os que estamos de acordo. A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que no mundo somos diferentes”.

Na sequência o presidente fez uma extensa arenga contra o consumismo, apontando que vivemos “uma vida de desperdício e dissipação” que na realidade é “uma conta regressiva contra a natureza e contra a humanidade”. Nesse celebração do consumismo, disse, “a política ficou agrilhoada à economia e ao mercado, e delegou o poder e se diverte lutando pelo governo”.

Sua opinião é de que “a crise é a impotência da política incapaz de entender que a humanidade não escapa do sentimento de nação, que está incrustrado em nosso código genético”, porque “de algum lado somos”. Hoje, é tempo de começar a batalhar para preparar um mundo sem fronteiras”.

Mujica disse que “a economia globalizada não tem outro interesse que o interesse privado de uns poucos”, e que nesse marco, “seria imperioso conseguir consensos para a solidariedade com os mais excluídos, mobilizar as grandes economias para criar bens úteis, sem frivolidades, para ajudar aos mais pobres do mundo. Mil vezes mais lucrativo do que fazer guerras é voltar al neokeynesianismo, útil para abolir as vergonhas mais flagrantes do mundo”.

O presidente uruguaio opinou que são necessários “organismos mundiais menores que organizem foros e conferencias” e apostar na ciência, para “estabelecer acordos para o mundo inteiro”.

Disse que “não podemos manejar globalização porque nosso pensamento não é global”, e que a cobiça, “motor da história”, agora “nos precipita a um abismo escuro”, “parece que as coisas assumem autonomia e submetem aos homens”.

“Hoje é impossível renuncia a guerra quando a política fracassa. Assim se estrangula a economia” … “Em cada minuto do mundo se gasta dois milhões de dólares em orçamento militar nesta terra. Em pesquisa médica de todas as enfermidades, a pesquisa corresponde a quinta parte da pesquisa militar. Este processo do qual não podemos fechar os olhos assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e desperdício de fortunas”.

Mujica acrescentou que “é muito fácil autocriticarmos e seria inocência dizer que alí existem recursos para economizar e gastar em coisas úteis”, porém “não podemos raciocinar como produto, apenas como indivíduos”.

“As instituições mundial hoje vegetam à sombra das dissidências das grandes nações. Estas querem manter suas quotas de poder e bloqueiam de fato à ONU que foi criada com uma esperança, com um sonho de paz para a humanidade … Não somos iguais, não podemos ser neste mundo onde há mais fortes e mais débeis”.

Para o presidente uruguaio “é difícil inventar uma força pior que o nacionalismo chauvinista das grandes potencias” já que “a força libertadora dos débeis, o nacionalismo, formidável para os débeis, se transforma em ferramenta opressora em mãos dos mais fortes”, e neste marco, “a ONU se debilita, se burocratiza por falta de poder e autonomia”.

Neste sentido, exemplificou que “nosso país, em termos absolutos, tem a maior quantidade de soldados em missões de paz, mas somos pequenos, fracos, e onde os recursos são repartidos e se tomam as decisões não entramos nem para servir o café”.

Mujica chamou “a espécie” a brigar por “um governo para a humanidade que supere o individualismo”… “há que entender que os indigentes do mundo não são da África ou América Latina, são da humanidade, e esta deve propender a empenhar-se para o desenvolvimento, para que possam viver com decência por si mesmos. Os recursos existem” insistiu, “estão desperdício predador de nossa civilização”.

Segundo Mujica “é possível acabar de uma vez com a indigência do planeta”, e isto se conseguirá pensando como espécie humana… “a vida humana é um milagre e nada vale mais que a vida, e nosso dever biológico é, acima de todas as coisas, respeitar a vida, fomenta-la, cuida-la e entender que a espécie é nosso nós”, concluiu,

Veja o discurso na íntegra:

http://www.youtube.com/watch?v=-E6d_kZ-QPY&feature=share&list=PL1XKbDJ7GiOF-ZAnyoNCl_iA3WhHOk43K


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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