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"Não há nada pior que uma mulher morrer em seus braços”

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Marleen Temmerman - Chefe do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS)
Marleen Temmerman – Chefe do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS)

Sabine Clappaert entrevista Marleen Temmerman, da OMS
Apesar dos grandes avanços na ciência e a tecnologia médica, mulheres em todo o mundo continuam sofrendo gravemente devido a um inadequado acesso a serviços básicos de saúde reprodutiva.
As complicações nos partos são responsáveis pela morte de mais de 350.000 mulheres por ano, 99 por cento delas no Sul em desenvolvimento. Nesse contexto, a nomeação da médica belga Marleen Temmerman, de 59 anos, como chefe do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) – há 4 meses – é um passo na direção certa. IPS/Diálogos do Sul falou com Temmerman, conhecida como “Mama Daktari” no Quênia, onde trabalhou durante muitos anos como ginecologista, sobre sua intenção de colocar a saúde reprodutiva bem no alto da agenda da OMS.
IPS/Diálogos do Sul: Por que decidiu abandonar sua carreira como chefe do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia e integrante da junta de diretores do Hospital da Universidade de Ghent e somar-se à OMS?

Marleen Temmerman: Ao longo da minha carreira, minha meta tem sido sempre melhorar a saúde reprodutiva e sexual, bem como promover os direitos das mulheres e das meninas em todo o mundo. Embora não estivesse ativamente procurando um novo emprego, percebi que essa oportunidade na OMS representava uma alavanca fundamental para atingir essas metas.

Com que orçamento trabalha e quais são seus objetivos?

Marleen Temmerman: Tenho um orçamento de aproximadamente 40 milhões de dólares, que é menos do que já houve em anos anteriores. A crise (financeira global) claramente impactou os orçamentos destinados à saúde sexual e reprodutiva. Quando fui nomeada, por exemplo, me foi prometida uma significativa contribuição do governo belga. Lamentavelmente, ela nunca se concretizou.Temo que o difícil clima econômico faça com que a saúde sexual e reprodutiva não seja vista como uma prioridade, quando na verdade  o é. Se quisermos que as próximas gerações de mulheres sejam saudáveis e tenham poder, necessitamos dar a elas acesso a serviços de planejamento familiar, para que possam decidir seu próprio futuro. O planejamento familiar não apenas é fundamental para a saúde das mulheres e das crianças, mas também reduz o crescimento populacional insustentável e ajuda a economia e a ecologia. ??Aproximadamente 222 milhões de mulheres carecem de acesso ao planejamento familiar. Elas gostariam de dar mais tempo entre uma gravidez e outra ou não engravidar mais, porém não contam com nenhum método anticonceptivo. ??Na China, por exemplo, só as mulheres casadas têm acesso às clínicas de planejamento familiar. Se pudéssemos mudar as políticas para dar atendimento também às solteiras, faríamos uma grande diferença. No meu novo papel, estudarei porque esses problemas persistem e como podemos reduzi-los, a partir de várias perspectivas: buscando soluções contraceptivas através da pesquisa e do desenvolvimento científico, identificando as possíveis barreiras (culturais e religiosas) e lançando iniciativas educativas para corrigir conceitos equivocados  seja no nível comunitário ou individual. A saúde sexual e reprodutiva das adolescentes também é de enorme importância se consideramos o fato de que os abortos e as complicações durante o parto continuam sendo a primeira causa de morte de mulheres entre 15 e 19 anos.

Em 1994, a senhora fundou o Centro Internacional para a Saúde Reprodutiva que hoje está em atividade em muitos países do mundo incluindo China, Guatemala, Quênia e Moçambique. Quais as lições que aprendeu e incluiu em seu novo papel na OMS?

Marleen Temmerman: Uma das lições mais importantes foi a de que a colaboração é fundamental para o êxito de projetos no campo da saúde sexual e reprodutiva. Neste momento estamos trabalhando no Quênia em um projeto que procura apoiar meninas e mulheres vítimas da violência sexual. Estamos capacitando pessoal médico para assegurar que sejam seguidos os procedimentos corretos e feitos todos os exames adequados. ?Também queremos garantir que as meninas recebam apoio psicológico e assessoramento legal. Em segundo lugar, aprendemos que a saúde sexual e reprodutiva continua sendo um tema sensível  e que mudar atitudes, comportamentos e políticas é um processo longo e lento. Temos que continuar comprometidos. ?Uma das minhas maiores preocupações é que, devido à crise, os orçamentos destinados à saúde sexual e reprodutiva “desapareçam” dos orçamentos gerais do setor de saúde. Se isso acontecer, o foco de atenção seria afastado e devemos nos manter firmes para que se produza uma verdadeira mudança. Ainda há muito que fazer para terminar com a mutilação genital feminina, para reduzir as taxas de mortalidade no parto e para assegurar que cada menina e cada mulher tenha acesso a instalações de saúde sexual e reprodutiva. Há um ditado que diz: “Se quiser ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe vá com alguém”. Creio que devemos ir rápido e longe e isso só podemos fazer juntos.

Qual é o papel do mundo industrializado nos esforços para assegurar a saúde reprodutiva no Sul?

Marleen Temmerman: Creio que o mundo industrializado tem uma responsabilidade fundamental em relação aos países em desenvolvimento. A visão tradicional Norte-Sul está claramente desatualizada, mas por outro lado os direitos das mulheres e a igualdade de gênero estão muito mais avançados no mundo industrializado que no mundo em desenvolvimento. É nossa responsabilidade apoiar as mulheres no Sul para garantir que os programas de saúde sexual e reprodutiva não “desapareçam” das iniciativas mundiais de saúde, para continuar comprometendo recursos suficientes e orçamentos para melhorar o acesso das mulheres aos serviços de saúde reprodutiva.

Qual foi a sua experiência mais dura no trabalho na África?

Marleen Temmerman: Não tenho dúvida alguma: ver mulheres jovens e bebês recém nascidos morrerem em meus braços simplesmente porque estavam em uma parte do mundo onde não tinham acesso a tecnologias médicas como temos na Europa ou em outros lugares industrializados. Não há nada pior que o sentimento de impotência quando se tem uma mulher moribunda nos braços e se pensa: “Se estivéssemos em outra parte do mundo ela viveria”. Também fiquei impactada pela facilidade com que as nossas sociedades toleram a violência sexual como se fosse algo normal. Muitas vezes me dizem: “mas é parte da nossa cultura!” Isso tem que mudar. A forma como educamos nossos filhos e os papéis de gênero que inculcamos neles devem mudar.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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