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Foto: Montagem

Não há provas: Intercept desmente matéria do NYT sobre estupros realizados pelo Hamas em 7/10

Reportagem contra o Hamas teve grave impacto na forma como conflito é visto e respalda massacre operado por Israel desde 7 de outubro
Guilherme Ribeiro, Vanessa Martina-Silva
Diálogos do Sul
Bauru (SP)

Tradução:

A versão estadunidense do The Intercept tem trazido à tona sérias falhas na reportagem Screams Without Words”: How Hamas Weaponized Sexual Violence on Oct. 7 (“Gritos sem palavras”: como o Hamas transformou a violência sexual em arma em 7 de outubro, em tradução livre), publicada pelo The New York Times em 28 de dezembro.

O texto do jornal, produzido pela cineasta israelense e ex-oficial de Inteligência da Força Aérea de Israel, Anat Schwartz, e pelos repórteres Adam Sella e Jeffrey Gettleman, apresenta supostas evidências de que o Hamas teria cometido atos sistemáticos de violência sexual contra mulheres israelenses em 7 de outubro de 2023.

Um dos fios da investigação do The Intercept é uma entrevista de Schwartz ao podcast do canal israelense Channel 12, transmitido em 3 de janeiro último. Na conversa, ela detalha seus esforços em contactar hospitais israelenses e organizações ligadas a vítimas de estupro e assume que não obteve qualquer confirmação de que houve casos de violência sexual no fatídico 7/10.

“Eles me disseram: ‘Não, nenhuma queixa de agressão sexual foi recebida’”, conta Schwartz ao podcast. Ela averiguou 11 hospitais.

“Não, nenhuma queixa de agressão sexual foi recebida”

“Disseram a ela que não houve queixas de agressões sexuais”, confirma um porta-voz do NYT ao The Intercept, que conta ainda que Schwartz, seguindo “os padrões rígidos do NYT para corroborar as evidências”, deu continuidade à investigação.

Apesar das críticas e questionamentos em torno da veracidade das informações apresentadas pela publicação, até o momento, o texto permanece no site do NYT. Mesmo que em algum momento o jornal confirme as possíveis inverdades do conteúdo, ele já terá servido para instalar no imaginário coletivo mundial a ideia de que os soldados do Hamas são cruéis violadores de mulheres, ou seja, terá funcionado como mais uma peça de propaganda israelense.

Fontes

Uma das fontes de Schwartz foi um paramédico da Força Área Israelense que afirmou ter encontrado “duas adolescentes estupradas e assassinadas”, um “bebê esfaqueado jogado no lixo” e “frases em árabe escritas nas entradas das casas com o sangue” de moradores. Não há evidências sobre as afirmações, aponta o The Intercept.

Histórias semelhantes sobre mulheres mortas encontradas “nuas”, “sem calcinha”, foram relatadas a Schwartz pela Zaka, uma organização israelense privada de resgate que já foi acusada de manipular incorretamente evidências e espalhar fake news sobre decapitação de bebês.

(Fotos: JavierDo-modificado / Ruperto Miller / Reprodução-X / Times Of Gaza-X)

A entidade não possui cientistas forenses treinados ou especialistas em cenas de crime. “Quando entramos numa casa, usamos a nossa imaginação”, afirmou um dos líderes à Schwartz, sem, no entanto, fazer qualquer afirmação específica sobre violação sexual.

Segundo Mendes, um bebê foi cortado de uma mulher grávida e depois ambos foram decapitados. Na lista oficial israelense de mortos naquele dia, porém, não constam gestantes.

Shari Mendes, uma arquiteta estadunidense, que foi responsável por preparar corpos para o enterro após a ofensiva de 7/10, relatou à cineasta ter visto “evidências de estupro”, como “pélvis quebradas”. Mendes não possui conhecimento forense. Segundo ela, um bebê foi cortado de uma mulher grávida e depois ambos foram decapitados. Na lista oficial israelense de mortos naquele dia, porém, não constam gestantes.

De onde “saiu” Anat Schwartz

A cineasta Anat Schwartz for designada pelo The New York Times para trabalhar com Adam Sella, sobrinho de seu parceiro, e Jeffrey Gettleman, repórter do jornal, na investigação dos supostos atos de violência sexual cometidos pelo Hamas em 7 de outubro.

Ainda que não haja imparcialidade no jornalismo, chamou atenção que Schwartz tenha curtido um tuíte em 7/10 segundo o qual palestinos são “animais humanos” e Israel precisava “transformar Gaza em um matadouro”. O “like” foi criticado e é investigado pelo NYT.

Conforme aponta o The Intercept, a ideia do jornal estadunidense era modelar como o mundo veria a guerra, e para isso recrutou a cineasta Schwartz ainda que ela não possuísse — conforme a própria reconhece no podcast em 3 de janeiro — qualquer experiência em reportagem.

Apesar do esforço do alto escalão do NYT em legitimar a matéria, membros da redação questionaram e criticaram as “evidências” e a construção do texto. O principal podcast do veículo, The Daily, chegou a produzir um episódio baseado na história, mas a edição foi congelada por lacunas na verificação dos fatos.

De quem é a responsabilidade?

Em uma entrevista à Rádio do Exército Israelense em 31 de dezembro último, Schwartz afirma que foi ‘convencida’ a fazer a investigação. O entrevistador questiona: “Foi uma proposta do The New York Times a coisa toda?”, e a cineasta responde: “Inequivocamente. Obviamente. Claro […] O jornal nos apoiou 200% e nos deu o tempo, o investimento e os recursos para aprofundar esta investigação tanto quanto necessário”.

O The Intercept aponta ainda que há um receio entre funcionários do NYT, em meio à polêmica sobre a reportagem, de que Schwartz se torne um bode expiatório de um problema mais profundo: a direção do jornal, que contratou alguém sem experiência em jornalismo investigativo, e que nutre uma possível animosidade contra os palestinos, para relatar uma das histórias mais importantes do conflito. Esse episódio, para os repórteres do veículo, depõe contra o sério trabalho que eles têm realizado para abordar o tema.

O veículo investigativo destaca ainda que, sobretudo nas primeiras seis semanas após 7/10, o NYT direcionou a cobertura da guerra — assim como outros veículos dos EUA, do Brasil e do mundo — de modo a deslegitimar as mortes palestinas e a favorecer fontes e vozes pró-Israel. Phil Corbett, que durante 14 anos foi diretor do departamento de normas do jornal, se afastou do cargo após pressões do alto escalão para categorizar o Hamas como grupo terrorista.

Se o intuito do NYT era reforçar uma narrativa pré-determinada, como indica Schwartz em suas entrevistas a programas israelenses, o jornal de alcance global acertou em cheio. A publicação teve grande impacto na guerra e na vida dos palestinos ao justificar para o mundo — diante da desumanidade dos crimes sexuais — o massacre que vem sendo operado por Israel. Desde 7/10 já foram assassinados mais de 31 mil palestinos, em sua maioria crianças e mulheres.

O ponto crítico é que, segundo o The New York Times, “os ataques contra mulheres não foram casos isolados, mas parte de um padrão mais amplo de violência baseada em gênero”. Em outras palavras, o jornal criou a narrativa, sem provas contundentes, de que a resistência do Hamas usou deliberadamente a violência sexual como arma de guerra.

Ou seja, violações sexuais podem, sim, ter ocorrido em 7 de outubro contra mulheres israelenses, mas é preciso que as denúncias sejam realizadas com seriedade e, sobretudo, embasadas em evidências sólidas. Da mesma forma, há inúmeras acusações, inclusive por parte da Organização das Nações Unidas (ONU) de que Israel estaria cometendo semelhantes violações contra homens e mulheres palestinas.

“Há casos em que mulheres foram obrigadas a assistir à execução de suas famílias. (…)  Mas também houve estupros. Isso não é algo que acontece apenas com as mulheres. Existem também situações de violação contra homens”

Em fevereiro deste ano, Francesca Albanese, relatora especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos Territórios Palestinos Ocupados, denunciou que após os atos de 7/10 mais de 3 mil palestinos foram detidos, incluindo centenas de mulheres, entre médicas, enfermeiras, jornalistas, que foram ameaçadas e torturadas. Proibida de entrar em Israel após declarações consideradas “antissemitas”, ela declarou à RFI:

“Há casos em que mulheres foram obrigadas a assistir à execução de suas famílias. Quando foram presas, foram fotografadas, às vezes nuas, em posições muito embaraçosas e degradantes. Houve muitas reclamações, ameaças de estupro, como: ‘vamos estuprar você, suas irmãs e sua mãe’, etc. Mas também houve estupros. Isso não é algo que acontece apenas com as mulheres. Existem também situações de violação contra homens.”

Mas apenas a suposta violência sofrida por um dos lados — o israelense — ganhou destaque e gerou comoção mundial.

* Com informações do The Intercept


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
Guilherme Ribeiro Jornalista graduado pela Unesp, estudante de Banco de Dados pela Fatec e colaborador na Revista Diálogos do Sul.

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