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"Não quero mais enterrar seres queridos que morrem pela pobreza no país mais rico do mundo”, diz ativista nos EUA

"É hora de “abordar plenamente a pobreza e os baixos salários de baixo para cima”, diz a Campanha dos Pobres, iniciativa criada por Luther King e que pretende reconstruir a política estadunidense
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Ao declarar que é hora de “abordar plenamente a pobreza e os baixos salários de baixo para cima” a Campanha dos Pobres (Poor People’s Campaign) — a ressuscitada iniciativa de Martin Luther King — e legisladores federais aliados apresentaram uma resolução legislativa para uma “terceira reconstrução” dos Estados Unidos. 

A resolução, que foi formalmente promovida por 20 legisladores na última segunda-feira (24) reconhece que para essa “reconstrução” se requer abordar de maneira simultânea “as injustiças interrelacionadas de racismo sistêmico, pobreza, devastação ecológica, falta de acesso à saúde, militarismo e narrativa moral distorcida do nacionalismo religioso” e que para isso, é preciso promover uma “terceira reconstrução para criar uma economia igualitária… de baixo para cima”. 

A “terceira reconstrução” é uma referência histórica a períodos de reforma e justiça racial, como a primeira reconstrução — nome formal que se dá a esse período — impulsionada no fim da guerra Civil, no século 19; uma segunda reconstrução que brota da luta pelos direitos civis, em meados do século 20; e esta terceira que, segundo a Campanha dos Pobres, “é uma ressurreição de nosso compromisso constitucional para estabelecer justiça, brindar o bem-estar geral, pôr fim a décadas de austeridade e reconhecer que políticas que põem no centro os 140 milhões de pobres e os de baixa renda também são boas políticas econômicas que podem reparar e transformar esta nação”.

O fato de que existam 140 milhões de pobres e pessoas de baixa renda e que uns 250 mil morrem por ano por condições relacionadas à pobreza no país mais rico do mundo representa “uma emergência moral”, afirmou o reverendo William J. Barber, copresidente da Campanha dos Pobres, esforço multirracial em 45 estados que com outras 300 organizações, está promovendo a resolução legislativa. Sublinhou que “não é por falta de recursos que não se resolve a pobreza, mas sim por falta de vontade política”.

"É hora de “abordar plenamente a pobreza e os baixos salários de baixo para cima”, diz a Campanha dos Pobres, iniciativa criada por Luther King e que pretende reconstruir a política estadunidense

Reprodução: Flickr
Campanha dos Pobres Marcha para o Capitólio 57

“A Terceira Reconstrução busca enfrentar políticas e práticas que produzem morte, seja por assassinatos pela polícia, pobreza, falta de atenção de saúde, devastação ecológica ou por guerra desnecessária. É, brevemente, uma declaração de que a morte desnecessária é intolerável e que a democracia ainda é possível”, escreveram o reverendo Barber e Jonathan Wilson-Hartgrove em um artigo de opinião sobre esta iniciativa publicada no New York Times. 

De fato, indicam que entre outros fatos, foi a morte de George Floyd em mãos da política há um ano — o aniversário será mercado por diversos eventos e reflexões por todo o país na última terça-feira (25) — que consolidou o movimento pelas vidas negras e o que batizam como a terceira reconstrução. 

“Tanto a primeira como a segunda reconstrução na história estadunidense ocorreram porque movimentos morais reclamaram as promessas da democracia… temos que nos organizar em torno de uma agenda que começa de baixo para que todos possam se elevar”, concluem ao descrever a Terceira Reconstrução. 

Os copresidentes da Campanha dos Pobres, o reverendo Barber e a reverenda Liz Theoharis junto com as deputadas federais Barbara Lee e Pramila Jayapal -integrantes do caucus Progressista do Congresso (com mais de 100 membros) – impulsionaram a resolução legislativa na segunda-feira. 

Lee declarou que “estamos em um estado de emergência” pelas condições de pobreza no país. 

Jayapal sustentou que a resolução “é um mapa” para avançar ao objetivo da “dignidade” para milhões que vivem na pobreza e padecem de emprego de salário-mínimo, e concluiu que “a pobreza é produto de uma democracia descomposta”. 

“Já não quero enterrar mais seres queridos que morrem pela pobreza no país mais rico do mundo”, afirmou Callie Greer, integrante da Campanha dos Pobres no Alabama, e condenou os que chamou “os cafetões da pobreza” que lucram com este sistema. 

A Campanha dos Pobres ressuscita a última campanha do reverendo Martin Luther King para construir um amplo movimento unindo setores pobres e vulneráveis por todo o país a favor da justiça econômica [https://es.poorpeoplescampaign.org/about/].

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Nova York, EUA.

**  Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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