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“Narco funerais”: como velórios de alto risco alteram a rotina de comunidades do Chile

Na última segunda-feira (24), o cortejo de um ladrão internacional provocou o bloqueio de ruas e a suspensão geral de aulas
Aldo Anfossi
La Jornada
Santiago

Tradução:

Simultaneamente a quando o governo chileno iniciava seu plano anticrime “Ruas sem violência” – que inclui a intervenção policial em 22 municípios da Grande Santiago e de outros 24 no nível nacional –, em uma das comunas da capital excluída desse desenho começava o que eufemisticamente se denomina como “funeral de alto risco”: o enterro de um infrator comum. 

O enterro se caracteriza porque os familiares, os amigos e os comparsas do falecido – depois de vários dias de velório onde predominam os fogos de artifício disparados em grande escala principalmente em noites e madrugadas, combinados com rajadas de balaços ao ar –, se dirigem ao cemitério em uma caravana nutrida de veículos que, enquanto avança pela cidade, muitos daqueles que a integram fazem ostentação de armas, cânticos e presença ameaçadora. A polícia fez um acompanhamento semelhante a uma escolta que garante o trânsito expedito, embora recentemente procure exercer um maior controle e efetuar detenções. 

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No caso desta segunda-feira (24), o finado era Moisés Gallardo Cornejo, um ladrão internacional de 32 anos, conhecido como El Mota, morto há cerca de um mês em Roma, Itália, onde residia há sete anos, ao cair do quinto piso do edifício onde morava. Desde que houve notícia da morte, na povoação Lo Valledor, comuna de Pedro Aguirre Cerda, da qual era oriundo, e onde está a casa de seus familiares, começaram o “velório” com salva de tiros praticamente todos os dias, o que se incrementou selvagemente durante o fim de semana quando na sexta-feira (21) o cadáver repatriado foi entregue aos parentes. 

O prefeito da comuna, Luis Astudillo, em vista da tensão reinante e os riscos iminentes de “balas perdidas”, decidiu suspender as aulas nas escolas, liceus e creches. 

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“Tivemos que chegar a essa medida extrema que não nos agrada; é algo que fazemos contra a nossa vontade, mas não podemos arriscar a vida das crianças, não podemos arriscar a vida da comunidade e tampouco dos trabalhadores e trabalhadoras de nossa comuna”, explicou.

Na última segunda-feira (24), o cortejo de um ladrão internacional provocou o bloqueio de ruas e a suspensão geral de aulas

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Nada do narrado é inédito, tampouco insólito: já ocorreu muitas vezes em Santiago e em outras cidades do Chile




Esgotados

“Estamos esgotados, não sabemos o que fazer diante desta situação de violência. O que estamos vivendo em Pedro Aguirre Cerda é uma verdadeira pandemia da violência e da criminalidade”, agregou. 

Ao explicar a vulnerabilidade que sentem, narrou que “recebemos (da polícia) uma caminhonete blindada para nosso território. Me haviam dito que vai ser por três meses, mas eu não a vou devolver. Se tiver que me amarrar na caminhonete para que não a levem, vou fazer isso”, prometeu. 

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Nada do narrado é inédito, tampouco insólito. Ocorreu muitas vezes em Santiago e em outras cidades, onde os “funerais de alto risco” e/ou “narco funerais” acontecem todos os meses, os mais recentes em março em Viña de Mar e há três semanas em Valparaíso, onde 15 colégios e universidades paralisaram para a passagem do cortejo.


Sarcasmo feroz

O que narramos não tem nada de tragicômico, mas parece um sarcasmo feroz, porque enquanto aquilo ocorria, no centro da capital as autoridades proclamavam o início do plano que tenta barrar o incremento dos homicídios e outros delitos de alta conotação pública. 

O “Ruas sem Violência” será executado paulatinamente a partir de maio nos 46 municípios que acumulam 65% dos delitos mais violentos e onde vive um terço dos 19 milhões de habitantes; mas há dezenas de prefeitos que estão exigindo ao governo que seus municípios sejam incorporados. 

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De acordo com o subsecretário do Interior, Manuel Monsalve, em 2022 houve 1.253 assassinatos, dos quais 55 foram cometidos no centro histórico de Santiago; com isso, a taxa de homicídios foi de 4,7 por cada 100 mil habitantes, muito superior aos 2,8 de 2012, e a mais alta em dez anos. 

No ano passado, o Chile viu crescer 44% a delinquência em comparação a 2021, segundo cifras oficiais. 

Com o Plano, pretende-se uma maior presença policial, a perseguição mais efetiva dos delitos mais violentos e tirar de circulação armas não registradas.

Aldo Anfossi | La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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