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Narcoestado, violência e miséria: as tragédias de Colômbia, México e Brasil têm as mesmas raízes e finalidades

Presidente mexicano denuncia que Estados Unidos estão patrocinando opositores no país para desestabilizar governo. Essa é a gênese da ação do império em todo o mundo
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Até a ONU se manifestou preocupada com a violência que continua matando na Colômbia. Por toda parte estão sendo realizadas manifestações de indignação e solidariedade. Segundo a agência Prensa Latina, desde abril, já são 47 mortos, 548 desaparecidos, 28 feridos gravemente nos olhos, 278 agressões da polícia e 963 prisões, além de mais de uma dezena de mulheres estupradas por agentes do Estado. 

A situação não mudou. O povo continua ocupando as ruas e praças nas principais cidades e a polícia militar, a mando do presidente Iván Duque, impiedosamente, agrede a população. Duque entrou para a política e chegou à presidência por obra e graça do clã Uribe. 

Vale lembrar que Álvaro Uribe Vélez, com seu sócio Pablo Escobar, transformou a Colômbia em um narcoestado. 

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No tempo de Uribe, havia 12 bases militares estadunidenses no país, hoje são só oito e milhares de tropas especiais treinando a polícia e o exército para “combater o narcotráfico e o terrorismo”. 

No entanto, creio que a Colômbia continua sendo a maior produtora de drogas em todo o mundo. Além da coca, produz a papoula, da qual se extrai o ópio, matéria-prima para morfina e heroína. 90%o da cocaína consumida no mundo é produzida na Colômbia. Mais de 70% dessa cocaína passa pelo Brasil, transformado no principal corredor do tráfico. Nosso país também está se tornando um narcoestado. 

Brasil, um narcoestado 

Brasil e Colômbia são Estados ocupados militarmente, com tropas pretorianas a serviço dos Estados Unidos. A situação na Colômbia é pior, devido à presença de bases e tropas. Ambos mantêm um general no Comando Sul dos Estados Unidos e recebem treinamento constante de instrutores estadunidenses. Exército, polícia civil e militar e, principalmente, os serviços de inteligência se mantêm em escandalosa promiscuidade com os serviços de inteligência ianques e o Mossad israelense.

As mesmas forças — os Delta Forces — utilizados em operações especiais dos Estados Unidos que estão treinando tropas e policiais na Colômbia, treinaram os narcotraficantes do México em tudo aquilo que eles são os maiores especialistas: tortura, decapitação, violações. 

O site The Grayzone, que fez a denúncia, agrega que os Zetas — poderoso cartel do tráfico que opera no Golfo do México — foram treinados na Escola das Américas, que funciona na Florida.

No Brasil, o deputado federal pelo PT Paulo Pimenta denunciou que os militares do Gabinete Institucional da Presidência da República, o GSI — que coordena os serviços de inteligência — quando comandado pelo general Augusto Heleno, estava  envolvido em tráfico de drogas utilizando aviões da FAB.

Pimenta afirma que uma Operação da Justiça Militar que averiguou o transporte de cocaína pela tripulação de um avião da comitiva presidencial aprendido na Espanha, mandou prender quatro militares envolvidos no caso, dois deles serviam no GSI. Segundo a Justiça, usavam aeronaves oficiais para transportar drogas, aproveitando-se de “brechas” no controle de bagagens e as permissões privilegiadas dos militares para transitar em aeroportos em todo o mundo.

Desestabilização made in USA

O México, de Salinas de Gortari e todos que lhe sucederam, foi transformado em um narcoestado. Esse é o maior problema enfrentado pelo presidente por López Obrador: fazer com que o país funcione de novo com a economia formal, o que é difícil depois de tantos anos de desgovernos deliberadamente destruidores do Estado e da economia nacional. Governos neoliberais fundamentalistas, tal como se vê no Brasil, e que promoveram desindustrialização, desnacionalização e saque das riquezas nacionais. 

Em 2006, López Obrador perdeu a eleição presidencial para Felipe Calderón por meio de fraude e da ameaça de que o México seria transformado no Chile de Pinochet, caso ele vencesse. O rico empresário Claudio X. Gonzales presidia então a Associação de Mulheres e Homens de Negócios do Conselho Coordenadora Empresarial, grande articulador da fraude eleitoral. 

Hoje Claudio X. González Guajardo, filho e herdeiro, preside a organização Mexicanos Contra a Corrupção, que está fazendo forte campanha de oposição a Obrador, a fim de desestabilizá-lo e impedir que o México volte a uma linha de desenvolvimento o mais autônomo possível. 

López Obrador, AMLO, como é chamado pelo povo, presta contas de seu governo todos os dias nas primeiras horas da manhã. Na quinta-feira, 6 de maio, ele surpreendeu a todos com denúncias de que ade X. González estaria sendo financiada pelos Estados Unidos por meio da embaixada e de agências governamentais, como Usaid e CIA, entre outros. 

Além disso, que entre 2018 e 2020, Claudio X. González teria recebido US$ 40 milhões, e que neste ano já teria recebido outros US$ 7 mi para conspirar contra o governo. Sua atuação vai desde mover processos judiciais para paralisar obras do governo até o financiamento de meios de comunicação de oposição, como Artículo 19 e Reforma; ou seja, dão dinheiro a jornalistas para escreverem contra. 

Por conta do acidente com o Metrô, um viaduto que caiu matando e ferindo dezenas de pessoas, além de paralisar o transporte por algum tempo, os opositores estão acusando o AMLO de ser o culpado. Uma mentira, uma vez que o Metrô é de responsabilidade da administração local, e o governo faz o que pôde para ajudar as pessoas e solucionar o problema.

López Obrador apresentou uma lista de entidades e personalidades que são financiadas com dinheiro estrangeiro. Disse que essas ações são contra a 4ª Transformação, seu programa de recuperação da economia e da dignidade do país. Ponderou que isso deve servir de alerta para os governos de Nossa América, pois é assim como os Estados Unidos agem em todo o mundo com a finalidade de manter sua hegemonia. São atos que violam e soberania; e receber dinheiro de potência estrangeira é crime de traição à pátria. 

O presidente mexicano reagiu enviando uma carta diplomática à embaixada estadunidense exigindo explicações sobre essa ingerência indevida nos assuntos internos do país. A imprensa mexicana repercutiu o escândalo, mas os meios dos demais países ignoraram o fato.

Presidente mexicano denuncia que Estados Unidos estão patrocinando opositores no país para desestabilizar governo. Essa é a gênese da ação do império em todo o mundo

Pixabay
Violência estatal é instrumento para subjugar população

O presidente Biden designou a vice-presidenta Kamala Harris para tratar com o México as questões de migração e os problemas ao longo de três mil quilômetros de fronteira. AMLO disse que sim, que está disposto a conversar, mas que parem de conspirar. 

Rechaçou com veemência a oferta ianque de ajuda para combater o narcotráfico. O México não necessita de intervenção para combater o crime organizado. Agregou que quem necessita intervenção dos Estados Unidos é seu próprio território para deter o fluxo de armas de contrabando que entram no México. 75% delas são de fabricação estadunidense. 

O que permitiu a López Obrador fazer essa denúncia foi o fato de contar com um serviço de inteligência agindo livre da ingerência dos Estados Unidos e disposto a defender a soberania do país. A presidenta Dilma Rousseff, por exemplo, se tivesse inteligência, não dela, do Estado, não teria sido deposta como foi, pelo contrário, denunciaria a conspiração que contou com participação estrangeira.

López Obrador não parou na denúncia da conspiração; foi fundo no combate ao crime organizado. Bateu ali onde mais lhe dói: o dinheiro. O segundo round foi nas contas bancárias dos ilícitos. 37 mil contas de cinco mil pessoas, evidentemente muitas delas fantasmas; e congelou US$ 335 milhões. Denunciou simultaneamente 166 personas e 205 servidores públicos.

A maior chacina da polícia militar

No Brasil, uma operação da política militar, usando 250 homens e até helicópteros, invadiu o Jacarezinho, uma imensa favela no Rio de Janeiro, executando 29 pessoas. A palavra execução foi empregada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin ao ver os relatos e vídeos nos noticiários. 

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São todos bandidos, disse o general Hamilton Mourão, que ocupa a vice-presidência do país. Havia uma ordem judicial proibindo o Estado de praticar intervenções desse tipo durante o período de quarentena por conta da pandemia. Mesmo se fossem bandidos, não é para entrar matando. Pura provocação, ou ensaio para o que poderá suceder…

Não há nenhum controle sobre a atividade policial repressiva onde e por quem seja. O Ministério Público extinguiu o Grupo de Controle da Atividade Policial que havia. 

Oportunismo ou peculato?

Existe mais de cem pedidos de impeachment do presidente na Câmara de Deputados, mas ninguém se atreve a colocá-los em pauta. Isso demonstra que estão todos muito seguros. A situação se modificou com a instalação de CPI do genocídio.

Na realidade, as forças armadas estão no fio da navalha. A possível condenação pela CPI do genocídio do general Eduardo Pazuello, por crime contra a saúde pública por sua gestão no Ministério da Saúde, compromete a força em seu conjunto. 

Diferente de alguns generais no governo que são da reserva, retirados, Pazuello estava em atividade. Isso significa que se assumiu um cargo no governo foi com a autorização do estado-maior do exército. 

Não poderia ser de outra maneira. Sua gestão contribuiu para o genocídio em curso e isso envolve toda a corporação. Pagarão diante da história pelos mortos que, em julho, totalizarão meio milhão. 

Fortuna de uns, miséria de outros

Aproveitando que a tenção das pessoas está sobre o que parece ser a maior chacina da polícia no Rio de Janeiro, e no atuação da CPI da Covid, melhor dizendo CPI do genocídio, os militares aprovaram um aumento a mais sobre o que já estão recebendo, por serem militares e por estarem no governo. Recordemos que são mais nove mil ocupando diferentes postos e hierarquias na administração, organizamos relacionados e nas empresas estatais. 

No Brasil, o militar não se aposenta. Retira-se um posto acima do que ocupava e fica na reserva. Se era tenente, retira-se como capitão, como foi o caso de Bolsonaro. Se for coronel, passa à reserva com soldo de general. Há uma lei do teto que limita o que um servidor público pode ganhar em R$ 39 mil, o salário do presidente da Suprema Corte. 

Bom, por decreto, não há limite para os militares. O general Mourão, com o salário de vice-presidente de R$ 30.940 mais os R$ 32.577 de soldo como general retirado, coloca no bolso R$ 63.511. Bolsonaro junta aos 30 mil de presidente com os 10 mil de capitão, violando também o teto. E assim os nove mil militares que estão no governo, ganhando dinheiro. 

O que preocupa é isso: ganhando uma verdadeira fortuna, livre de gastos porque o governo lhes dá tudo. São muitas as prebendas do cargo, como carro e motorista, assistência à saúde, etc., os militares estão se preparando para não largar o poder. Estão ganhando muito dinheiro. Si este fosse um país sério, seriam processados e condenados por peculato. Uma vergonha. 

Uma festa fora dos quartéis funciona como um grande atrativo para os que estão dentro. Então, logo começará a haver uma disputa entre eles. 

Enquanto isso, o povo está na miséria. O salário-mínimo legal é de R$ 1.100 e o salário médio de brasileiro é de R$ 2.261; o lugar onde é mais alto é no Distrito Federal, R$ 3.980; o mais baixo é o do estado do Piauí: R$ 1.251. O auxílio emergencial pela crise sanitária, que era de R$ 600 até R$ 1.800, foi reduzido para R$ 250, no máximo R$ 350. Uma miséria que mal paga a conta de energia e o gás de cozinha. 

Os trabalhadores sem nenhum direito, com salários reduzidos e a desregulação total do trabalho, fechamento de indústrias, venda e fusões de empresas favorecendo grandes corporações transnacionais e 100 milhões de pessoas necessitando ajuda. 

Oportunidade para uns e decepção para outros. Por falta de confiança no governo, ou por perceber que não há futuro com os atuais gestores da economia, grandes corporações estão abandonando o país, aumentando o desemprego e o desalento. Só neste ano, já se foram: Ford Co.; as farmacêuticas Roche e Eli Lilly; a franco-suíça Laforge HJolrin, a atacadista estadunidense Walmart; a espanhola Cabify; além de L’Ocitane, LG e Audi.

Quem continua faturando alto são os bancos. Os três maiores do país tiveram, no primeiro trimestre deste ano, um lucro de R$ 16.9 bilhões. U, absurdo na terra do absurdo: Santander R$ 4,1; Bradesco R$ 6,5 e Itaú R$ 6,4 bilhões.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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