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Nem Biden, nem Trump: oligarquia é quem controla a democracia dos EUA

No sistema estadunidense, multimilionários e interesses endinheirados continuam tendo um poder quase sem limite
David Brooks
La Jornada
Washington

Tradução:

O ano eleitoral nos Estados Unidos inicia com o atual presidente declarando que esta contenda está centralizada na defesa da democracia frente a uma ameaça existencial por autoritários, e seu principal opositor reiterando que a luta é contra a “esquerda radical” que tomou o poder e está levando o país ao desastre.

Ou seja, ao começar o ano eleitoral, parece haver acordo entre os proponentes de que isto não é uma batalha entre diferentes propostas de governo, senão que a própria democracia estadunidense está em jogo.

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O presidente Joe Biden estreou o que será sua mensagem central de sua campanha de reeleição em um ato no sábado (6) em um local histórico da fundação do país, na Pensilvânia, onde o então general George Washington encabeçou o exército continental em um capítulo crucial da guerra de independência em 1777. Citando o que seria o primeiro presidente do país, declarou que como naquele momento, esta luta eleitoral é por “uma causa sagrada”. Ali acusou a Donald Trump de “um assalto contra a democracia” em referência ao ataque ao Capitólio justamente há 3 anos, em 6 de janeiro de 2021, e advertiu que “é isso que ele está prometendo para o futuro”. Proclamou que a pergunta crucial é “se a democracia ainda é a causa sagrada dos Estados Unidos”.

Essa mensagem foi reiterada na segunda-feira (8) em um segundo ato em uma igreja afro-estadunidense na Carolina do Sul, a qual foi atacada com uma bomba por supremacistas brancos que mataram nove pessoas em 2015, sublinhando a violência associada com seu principal oponente, Trump. Biden enfatizou: “A verdade está sob assalto nos Estados Unidos. Como consequência, também o está nossa liberdade, nossa democracia, nosso próprio país. Um movimento extremista encabeçado por nosso ex-presidente está tentando roubar a história agora”.

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Mas ainda dentro dessa igreja, nem todos estavam entusiasmados por Biden: seu discurso foi interrompido brevemente por críticas de seu apoio incondicional a Israel e que exigiam um cessar-fogo imediato, outro exemplo de como seu manejo de sua política exterior em torno ao Oriente Médio e Ucrânia poderia tirar-lhe votos.

Por seu lado, Trump repete sua mensagem de que Biden e a “esquerda radical”, “marxistas”, “comunistas” e “anarquistas” e como sempre, os imigrantes que, empregando uma frase da era nazista estão “envenenando o sangue do país”, estão destruindo o país, e que esta luta eleitoral é a “batalha final” para resgatar a “América”. Ainda mais, insiste que, como ele é o único salvador do país, seus inimigos estão usando o Estado – os tribunais, os promotores, as agências de inteligência e mais – para anulá-lo no que chama a maior “caçada de bruxas” na história.

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No sistema estadunidense, multimilionários e interesses endinheirados continuam tendo um poder quase sem limite

La vié Eco
Duas vezes nas últimas duas décadas o candidato presidencial que ganhou o voto popular perdeu a presidência




Democracia em perigo

De que a democracia estadunidense está em perigo não é mera retórica. O sábado, 6 de janeiro, marcou o terceiro aniversário do intento de golpe de Estado de milhares de fanáticos de Trump com o propósito de interromper a certificação da eleição presidencial que ele perdeu – e que recusa até hoje reconhecer – pelo Congresso – cerca de 140 policiais foram feridos, enquanto alguns dos extremistas buscavam os legisladores e até o vice-presidente Mike Pence para “pendurá-los”. Desde então, foram acusadas penalmente mais de 1.230 pessoas que participaram no assalto ao Capitólio – e se procuram mais – no que é o caso da maior investigação criminal da história do país.

Inclusive, ao longo dos últimos anos o Departamento de Segurança Interna e outras agências federais declararam que entre as ameaças de segurança nacional mais perigosas para os Estados Unidos é a apresentada por agrupamentos de direita extrema e supremacistas brancos, e alertam contra a possibilidade de atos violentos no ciclo eleitoral de 2024.

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Na semana passada, o Council on Foreign Relations – um dos centros de análises de maior prestígio e influência na cúpula estadunidense – emitiu os resultados de sua pesquisa anual de especialistas sobre política exterior estadunidense só para descobrir que pela primeira vez nos 16 anos deste exercício um tema interno está entre as três principais preocupações globais para 2024: “o terrorismo doméstico e atos de violência política”.

Enquanto isso, o favorito entre os republicanos como seu candidato é o que instigou um intento de golpe de Estado, que continua apelando a integrantes de milícias ultradireitistas de “patriotas”, e que continua utilizando retórica com tintas fascistas ameaçando seus opositores, inclusive o presidente Biden, e afirmando que utilizará o governo para persegui-los judicialmente se lograr regressar à Casa Branca.

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Trump é o primeiro candidato presidencial que fará campanha enquanto enfrenta quatro julgamentos criminais (um total de 91 acusações) mais outros casos civis. E esse candidato, por ora – é muito cedo, mas ainda assim não deixa de surpreender – está empatado ou até ganhando de Biden em algumas das pesquisas nacionais.


Baixa aprovação

Por sua vez, o autoproclamado defensor da “causa sagrada” de seu país tem um nível de aprovação abaixo de 40% há meses.

Tudo promete uma contenda que uma grande maioria do eleitorado havia preferido evitar: com os dois candidatos presidenciais mais velhos da história dos Estados Unidos.

Mas a própria democracia estadunidense também mostra sinais de idade e deterioro. Apenas 28% da população adulta diz que está “satisfeita” com o funcionamento da democracia nos Estados Unidos, segundo uma nova pesquisa Gallup; esta cifra está abaixo do nível de 2000, e muito abaixo dos 61% que expressavam satisfação com sua democracia em 1990.

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O sistema estadunidense nunca foi uma democracia plena, e de fato duas vezes nas últimas duas décadas o candidato presidencial que ganhou o voto popular perdeu a presidência – em 2000, quando o democrata Al Gore obteve mais votos, mas a Suprema Corte determinou que George W. Bush conseguiu mais votos eleitorais, e em 2016, quando Hillary Clinton ganhou o voto popular, mas perdeu pelo sistema antiquado do colégio eleitoral. Ou seja, não há voto direto popular para presidente.

Este é um sistema onde os multimilionários e interesses endinheirados continuam tendo um poder quase sem limite. Em 2015, o ex-presidente Jimmy Carter, especialista internacional eleitoral, declarou que antes definia os Estados Unidos como um grande país por seu sistema político, “agora é só uma oligarquia, com o suborno político ilimitado sendo a essência para conseguir as nomeações para presidente ou para eleger o presidente. E o mesmo se aplica no caso dos governadores e senadores e deputados estadunidenses”.

David Brooks e Jim Cason | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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