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Neoliberais

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Foto: DoctorWho – Michael Nyika/Flickr

Hoje, estreia em Diálogos do Sul um grande amigo e colaborador de muitos anos, o sociólogo Marco A. Gandasegui, atual Diretor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Humanas da Universidade do Panamá. Confira seu ensaio sobre a devastadora intervenção neoliberal em seu país.

Os ideólogos neoliberais criam todo tipo de confusões. Os Estados Unidos acusam os trabalhadores imigrantes de origem mexicana, e outros latinos americanos, da recessão econômica. Os mesmos ideólogos culpam a República Popular da China, que tem trabalhadores com salários mais baixos, pela estagnação da economia norteamericana. Na Europa, algo semelhante vem ocorrendo com os neoliberais, que atribuem ao seu povo a responsabilidade pela crise.

No Panamá, por sua vez, algo distinto acontece. O auge da economia chinesa tem impactado favoravelmente o setor de serviços marítimos do país. O Canal do Panamá e seus portos, assim como o setor bancário e de seguros, crescem a taxas muito superiores aos 10% anual. Igualmente, há um forte aumento em áreas especulativas, como o setor imobiliário, o turismo e a mineração.

Os neoliberais panamenhos (fundamentalistas) insistem em colocar que o auge alcançado nos últimos cinco anos é resultado de suas políticas engendradas durante a gestão presidencial de Pérez Ballardes (1994-1999). Foi neste período que o governo entregou quase a totalidade das empresas públicas a um pequeno grupo de investidores. E também iniciou o desmantelamento dos setores de saúde, educação e previdência social.

Os porta-vozes neoliberais que passeiam por corredores refrigerados do atual governo felicitam o presidente Martinelli pelas suas iniciativas draconianas. Entre estas, se destaca a política de reduzir a sua mínima expressão os investimentos e os serviços de saúde dirigidos à população. Em troca, o governo procura estabelecer centros hospitalares para atrair empresas estrangeiras e turistas ao seu país. Atualmente, há um projeto de privatização das fontes de água dos panamenhos. Isto é, o IDAAN (sigla para Instituto Nacional de Aqueodutos e Esgotos) terá que comprar água a preços exorbitantes de um pequeno grupo de especuladores. Sem investir um centavo, estes especuladores se apropriariam das cabeceiras dos rios, escravizando aos 3,5 milhões de habitantes do país.

Os neoliberais também celebram seus avanços no campo da educação. As instalações escolares têm sido abandonadas e os estudantes não contam com infraestrutura mínima. Estão promovendo o “rancho” escola como modalidade nas áreas rurais e, inclusive, em alguns setores urbanos. O “rancho” reúne em um salão, sob a direção de uma professora, crianças de vários níveis.

A falta de escolas e equipe não impede que as autoridades promovam novas iniciativas. Hoje, se trabalha em outro projeto legislativo para privatizar as escolas do país. O programa consiste em transformar as escolas panamenhas em um negócio. O projeto de educação “público-privado” entregaria as instalações educacionais e os educadores aos empresários para que possam lucrar com os bens públicos e com os trabalhadores da educação. Este sistema fracassou tanto no mundo subdesenvolvido (Chile) como no chamado “centro” (ver o caso da cidade de Chicago nos Estados Unidos).

Os neoliberais projetam uma ampla gama de iniciativas públicas que incluem negócios e também planos ideológicos. No campo da educação conseguiram dar passos importantes para eliminar do plano de estudos todas as matérias que disputem com suas finalidades lucrativas. Seu primeiro objetivo é eliminar as matérias que ensinam os jovens a pensar (filosofia, cívica), a ter consciência de sua identidade (história) ou matérias que oferecem aos adolescentes possibilidades de projetar sua criatividade.

Os neoliberais panamenhos revelam sua verdadeira intenção ideológica quando insistem em deturpar o ensino de história. Não aceitam que os panamenhos possam levantar sua própria bandeira sobre o território nacional. Rechaçam o estudo das relações entre Panamá e Estados Unidos no século XX. Durante quase um século, o povo panamenho lutou por recuperar sua soberania sequestrada pelos Estados Unidos. O êxito desta luta é negada pelos neoliberais, que também conseguiram apagá-lo dos textos escolares e das salas de aula.

Em breve, os neoliberais poderão introduzir nos textos escolares as figuras dos presidentes norteamericanos Ronald Reagan e George Bush como pioneiros dos ajustes econômicos no Panamá. Como leituras obrigatórias serão lidos Harry Potter e Alice no País das Maravilhas. Os textos já apagaram os mártires do ato de 9 de janeiro de 1964 e as negociações encabeçadas por Torrijos e Escobar Bethancourt para por fim a colonização da Zona do Canal com suas bases militares. Eliminarão as novelas de conteúdo social e nacionalista de Joaquín Beleño, Luna Verde e Gamboa Road Gang.

Como se explica que setores amplos da população permitam essa afronta à identidade e bem-estar dos panamenhos? A Universidade do Panamá se opõe ao que considera um “enorme erro” distorcer a história. Da mesma forma, os estudantes do Instituto Nacional e outras escolas secundárias têm protestado. O governo, a oposição política e os sindicatos patronais, no entanto, caminham lado a lado com os ideólogos neoliberais pretendendo acabar com o projeto de nação. Os neoliberais compreendem bem que se convencerem aos panamenhos que somos o que chamam de “global”, entregaremos em bandejas de prata a nossa riqueza. Com estes milhões, manipulam os deputados, juízes e, inclusive, ao próprio presidente da República e seu gabinete.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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