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Foto: CUT Chile

No Chile, sindicatos são agredidos pela polícia e anunciam paralisação: “governo incapaz”

Centrais levavam a Boric documento em apoio a reformas e crítico à direita e acabaram violentados em frente ao La Moneda
Aldo Anfossi
La Jornada
Santiago

Tradução:

Beatriz Cannabrav

Da manhã à noite e por diversas razões, o governo do presidente chileno Gabriel Boric (2022-) começou a sofrer crescentes mobilizações sociais, impulsionadas inclusive por organizações sindicais que, teoricamente, deveriam ser partidárias do governo, segundo seus próprios dirigentes assinalam.

À complexa situação social da Região do Biobío, 700 quilômetros ao sul da capital chilena, onde cerca de 20 mil trabalhadores do aço começaram a perder seus empregos após o fechamento da principal usina do país, incapaz de competir frente ao dumping do aço chinês não subsidiado, se agregou a mobilização de pescadores artesanais da zona para que lhes seja permitida a captura da cavala, cuja temporada já acabou, para suprir a carência de sardinha e anchova.

A esquerdista Central Unitária de Trabalhadores (CUT) convocou uma paralisação nacional para o dia 11 de abril. Eles explicam como uma tentativa de impulsionar demandas “levantadas da rearticulação do tecido social, em reação aos descontentamento e à falta de avanço nas reformas que estão presas em um empate técnico incentivado pela direita”. Na quarta-feira (3), quando o presidente da CUT, David Acuña, junto a cerca de 30 acompanhantes, iam ao Palácio de La Moneda entregar um documento explicativo, a polícia de Carabineiros impediu-os de passar e empreendeu a golpes contra a comitiva. A agressão resultou na indignação dos dirigentes, os quais expressaram seu desencanto com Boric.

“Com toda a sinceridade e dor, isto é culpa de um governo incapaz, vergonhoso, que não sabe tratar com as organizações sociais, nem com o sindicalismo, nem responder às necessidades do povo”, disse o dirigente Eric Campos após a repressão sofrida. “Não é o governo pelo qual quisemos votar, este é o governo da vergonha quando se trata de reprimir as trabalhadoras e os trabalhadores; o que quisemos fazer é entregar um manifesto que busca concretizar as profundas reformas que o Chile requer”, acrescentou.

À metade de sua presidência de quatro anos, Boric não pôde concretizar nenhuma das reformas estruturais que prometeu realizar em saúde, aposentadorias e impostos, em boa medida pelo bloqueio direitista no legislativo, mas também pelas desavenças do oficialismo, que deram força ao bloqueio da direita. Segundo a CUT, a paralisação será um “passo crucial neste processo de mobilização e reafirma o compromisso do movimento social e sindical com a democracia, a paz e a justiça social no Chile”.

Enquanto isso, no Biobío, a situação da Companhia de Aços do Pacífico (CAP) continua estagnada, pois as sobretaxas aduaneiras de 12,5% que o governo cedeu foram consideradas insuficientes frente aos 25% que a firma considera necessários. Ontem, o ministro da Fazenda, Mario Marcel, solicitou aos proprietários da CAP dizendo que “é complexo que transmitam integralmente ao Governo as decisões a respeito do futuro de uma de suas filiais”, além de solicitar que as companhias mineiras que compram “a maior parte” do aço da CAP “se envolvam porque o problema não pode ser resolvido por um só ator”.

Corrupção de alto comando desmoraliza polícia do Chile

A reputação das polícias no Chile passa por um de seus piores momentos, depois que um alto comando da polícia foi acusado de atos de corrupção e renunciou intempestivamente ao seu cargo em março último. Ele foi mantido em prisão preventiva ao ser considerado pelo tribunal como “um perigo para a sociedade”.

O ex-diretor da Polícia de Investigações (PDI), Sergio Muñoz Yáñez, com 38 anos de serviço, caiu em desgraça quando uma investigação jornalística do meio Ciper Chile revelou que entregava informação confidencial a um conhecido advogado, Luis Hermosilla Osório, acerca de investigações que realizava a instituição sob seu comando. Este penalista é, por sua vez, acusado pelo Ministério Público de, presumivelmente, subornar funcionários públicos para “resolver” acusações que afetavam clientes na elite empresarial e política do país, entre eles o recentemente falecido ex-presidente Sebastián Piñera e alguns de seus sócios.

Mas Muñoz não é o único policial em posição de alta hierarquia em problemas judiciais. O general diretor de Carabineros, Ricardo Yáñez, será formalizado, no dia 7 de maio, por sua possível responsabilidade em delitos de “omissão de confinamentos ilegítimos com resultado de lesões graves e homicídio”, ocorridos durante a revolta social de outubro de 2019, quando ele estava a cargo da divisão de Ordem e Segurança, que deixou dezenas de mortos e milhares de feridos.

Em 17 de março, o ministro da Justiça, Luis Cordero, afirmou que “esperaria que fosse avaliada sua renúncia antes de ser formalizado”, uma declaração que causou comoção.

Ele foi designado em 2021 para suceder a Héctor Espinoza, também caído em desgraça, contra quem o Ministério Público pede 20 anos de prisão por lavagem de ativos e malversação de fundos, cuja defesa é feita por Hermosilla.

Apenas duas semanas depois de ser designado por Piñera, Muñoz começou a filtrar informes via mensagens de texto e áudios.

Tudo arrebentou em junho de 2023, a partir da publicação de uma conversa no escritório de Hermosilla, onde este se orgulha de subornar funcionários do Serviço de Impostos Internos (SII) e da Comissão do Mercado Financeiro (CMF) para obter informação privilegiada e favorecer seus clientes.

No celular de Hermosilla haveria cerca de 700 mil registros de conversas que afetam políticos, ex-ministros, empresários, padres, pedófilos, etc.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Aldo Anfossi

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