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No Mês do Orgulho LGTB, nós os Queer

Ilka Oliva Corado

Tradução:

Ilka Oliva Corado*

Ilka Oliva CoradoMuitas vezes me recomendaram não falar disso em público porque diminui o meu “prestígio” e fará com que muitos leitores se afastem. Eu me nego, porque o tema dos Direitos Humanos e Direitos Civis das pessoas com diferente identidade sexual deve ser exposto e a luta deve se realizar a plena luz do dia, da mesma forma que se desenvolvem as outras lutas pelas igualdades sociais.

LGBTHá dois anos escrevi sobre o tema, contando minha experiência de lua e sol e isso fez com que efetivamente muitos leitores se afastassem do meu blog e, além disso, se convertessem em assíduos detratores que desqualificavam meus textos e me insultavam com ódio de machos feridos em sua soberba viril. Mulheres que me mandavam mensagens dizendo que eu era uma péssima escritora porque o fato de ser homossexual desacreditava meus textos. Disseram que me deixariam de ler porque eu era um mau exemplo para a sociedade.

Uma amiga muito querida quando ficou sabendo, ao ler o meu blog, chorou por uma semana, e depois me escreveu e me disse que não acreditava, porque havia visto como eu me comportava com os homens e que era impossível que eu gostasse de mulheres. Disse-me que ter revelado isso era o pior que podia ter feito, porque ia ser rechaçada pelo resto da minha vida.

Minha irmã-mamãe me diz que deixe de brincar de ser homossexual porque eu não sou, e que ela sabe que eu disse isso em público por rebeldia, para ir contra a família e para mandar ao diabo um montão de imbecis. Realmente os imbecis se espantaram e saíram correndo, nunca mais voltaram. Graças a Deus!

Outro dia conversando com uma escritora ela me disse que eu era demasiado íntegra para ser homossexual. Uma amiga muito querida me insultou quando ficou sabendo e nossa amizade de décadas foi levada pelo vento. Um conhecido me disse que não acreditava em mim no papel de homossexual porque eu não era mórbida.

E assim poderia contar um sem fim de situações de rechaço nas quais entre estereótipos, conjecturas e preconceitos fui esfolada viva por parte da família, de amigos e da sociedade. Qualquer um vai dizer que eu provoquei por tornar isso público. E aqui está o ponto: a sociedade quer nos manter nas sombras, no mais obscuro e recôndito lugar para que não existamos como seres humanos e para que nossos Direitos Humanos e Civis continuem nos sendo negados. Mas não, nós estamos aqui e existimos  e também temos o direito absoluto de amar em plena liberdade sem ser assinalados, discriminados e violentados.

Se não sofrêssemos discriminação, se nossos direitos fossem respeitados, se não nos assassinassem nos crimes de ódio não haveria necessidade de sair às ruas exigindo respeito, exigindo o que por nascimento nos pertence. Junho é o Mês do Orgulho LGTB. O Orgulho Queer. Embora muitos utilizem a conotação pejorativamente, nós, os Queer lhe damos outro significado. Somo raridades, efetivamente. Somos sui generis.

É preciso coragem para sair à rua e não ocultar quem somos, caminhar de frente e levantar o rosto, e olhar diretamente nos olhos. Atrever-nos a rir, abraçar, acariciar, beijar, ser plenamente como são os heterossexuais. Sabendo que temos tudo contra. Alguns somos mais fortes que outros, muitos não aguentam a pressão externa e se encerram até morrer lentamente dentro de um armário, e se dedicam a aparentar para que a família, os amigos e a sociedade não os discriminem. Para que não sejam despedidos do trabalho, para que não os excluam dos eventos sociais, para que deixem que matriculem seus filhos nas escolas.

Acontece que tenho a experiência das duas faces da moeda. Quando saio com amantes homens passo despercebida, um casal comum, mas quando minhas amantes são mulheres a história é outra. No que varia? Em que ofende a sociedade que dois seres humanos do mesmo gênero se amem? No que prejudica que alguém que não se sente bem com o gênero em que nasceu queira mudar? Em que afeta que um homem se vista de mulher ou vice-versa? Em que nos afeta como humanidade que uma pessoa não se sinta nem homem nem mulher? Por que os estereótipos? “Os sapatos de salto são exclusivos das mulheres, o futebol é de homens…”

Estamos tão obstinados em seguir normas impostas, com rasgar as vestes com as religiões (ou a relação pessoal com Deus) que somos capazes de faltar o respeito para com os outros, de feri-los emocional e fisicamente. De fundamentar nosso ódio, preconceitos e estereótipos em dogmas caducos. E se tanto louvam e falam de Deus, pois esse Deus se diz que é amor. Aí está a resposta para tudo. É amor.

Se alguém não gosta das pessoas da comunidade LGBT, pois não seja companheiro de uma pessoa da comunidade LGBT, mas nem por isso vai agredi-la. Temos direito a nos casar, ter filhos, formar uma família. Caminhar livremente pelas ruas. Por que insistem em negar que sejamos parte da diversidade que embeleza este mundo? Mas não, têm que subestimar-nos; nós também temos neurônios e aptidões. Também temos critério próprio e um cérebro que funciona, e muito bem. Não existe sangue tipo homossexual e tipo heterossexual, é o mesmo sangue.

Somos uma legião que por mais que queiram exterminar não poderão. Porque somos amor, porque somos integridade, somos consciência e identidade. Tal como os heterossexuais. O que façamos com nossa intimidade é assunto nosso; o que nos deve envolver e unir como sociedade é a busca de leis que façam com que respeitem nossos Direitos Humanos sem nenhum tipo de distinção. Não se pode andar pela vida dando com uma mão e tirando com a outra.

E é preciso ter muito cuidado porque estão nascendo criaturas. Por que lhes desgraçamos a infância impondo-nos? Cortando-lhes as asas? Se um menino gosta de vestir saia, qual é o problema? Se uma menina gosta da cor azul, qual é o problema? Se uma criatura não se sente cômoda em nenhum dos gêneros, nosso dever como pais, família e sociedade é apoiá-la, demonstrar-lhe que neste mundo a diversidade é linda. Para que torturá-la até levá-la ao suicídio? Não deixemos que o que nos foi imposto em um sistema patriarcal e autoritário nos destrua como humanidade. Sejamos capazes de  reconstruir os alicerces, de transformar o ódio em amor ao próximo, pois, afinal de contas estamos neste mundo de passagem, e é tão fugaz nossa estadia que desperdiçá-la no ódio e na discriminação é coisa de cretinos. Olhemo-nos bem no espelho e perguntemo-nos se como seres humanos estamos agindo conforme a essência da vida que é o amor.

Eu respeito as pessoas que continuam dentro desse cativeiro emocional e que preferem ver a vida daí e não sair, porque isso representa o rechaço. Mas lhes digo que ninguém tem o direito a se impor sobre outros e também dizer-lhes que lá fora há milhões que, sendo Queer ou não, vão apoiá-los. Nosso pior inimigo é o medo, é bom engrossar a luta pelos que já não estão aqui, pelos que estão e pelos que virão. Se a nós nos chove no molhado, pois façamos até o impossível para que aos que estão por nascer o mundo os receba com amor e equidade. A luta pelos Direitos Humanos deve ser uma obrigação de todos, sem reparos secundários.

Este texto também está dedicado àquelas pessoas que por uma ou outra razão, independentemente de sua identidade sexual, não aceitam o sistema de normas impostas. Busquemos nossa própria realização apesar do que os outros digam

No Mês do ORGULHO LGBT, um abraço cheio de amor a todos os Queer do mundo inteiro. Que o amor nos torne livres!

 

*Colaboradora de Diálogos do Sul, desde território dos Estados Unidos. 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Ilka Oliva Corado Nasceu em Comapa, Jutiapa, Guatemala. É imigrante indocumentada em Chicago com mestrado em discriminação e racismo, é escritora e poetisa

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