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No ritmo das festas juninas e julinas, Mariana Aydar une o tradicional e o contemporâneo no caldeirão da música popular

Quando escutamos Mariana conseguimos identificar todas as tradições que herdamos de nossos e nossas ancestrais, além de trazer nos meio desse caldeirão popular as sonoridades urbanas e contemporâneas
Danilo Nunes
Diálogos do Sul
Santos (SP)

Tradução:

Os tempos estão mudando e seus protagonistas também, aliás suas protagonistas. Isso mesmo, mulheres que assumem o comando da cena e do mercado musical dando a linha, direção e tendências que ganham cada vez mais destaque na formação cultural de um povo por suas formas simbólicas.

A desconstrução de tudo o que aprendemos desde que nossas gerações vieram ao mundo e passaram a participar da vida social, torna-se palavra-chave, além de ação necessária e inevitável dentro de um sistema que, historicamente, se mostrou fomentador de todas as desigualdades sociais, competitividades, consumismos, deixando com o passar dos anos muito mais em evidência discursos e atos racistas, homofóbicos e machistas descendentes que alimentam o sistema patriarcal.

Nas artes e mais precisamente na música assistimos, nos últimos anos, ao surgimento de cantoras, compositoras e instrumentistas que se apossaram de um espaço que foram impedidas de ocupar por muito tempo, derrubando qualquer tipo de dúvida, preconceito e desconstruindo o discurso de fragilidade feminina que tanto nos foi enfiado goela abaixo. 

Nesse cenário despontam grandes mulheres artistas, mostrando toda a criatividade e capacidade de desenvolver espetáculos que as coloca no topo do sucesso, desconstruindo as ideias conservadoras e contrariando todo um sistema, fazendo-nos repensar o papel que temos na vida social e nos nutrindo de armas e ferramentas intelectuais e culturais para que possamos buscar a consciência de classe que tanto falamos. Assim vem acontecendo em meios artísticos que eram regidos predominantemente por homens como o samba, forró, rock e os festejos populares no Brasil.

Quando escutamos Mariana conseguimos identificar todas as tradições que herdamos de nossos e nossas ancestrais, além de trazer nos meio desse caldeirão popular as sonoridades urbanas e contemporâneas

Divulgação
Mariana Aydar

Cultura popular

Ah, a cultura popular, vertente cultural tão endeusada por muitos de nós. A cultura popular traz fortes influências africanas e indígenas, mas sempre com o aval do colonizador europeu, que explorou nossas terras, escravizando e dizimando civilizações inteiras. Essa cultura popular de origem cristã em decorrência da doutrinação e massacre cultural de povos muito mais antigos do que os próprios colonizadores que estabeleceu o caráter cultural do povo brasileiro que, só sofreu interferência das culturas afros e nativas pela resistência de muitos grupos que se rebelaram em diversas épocas da nossa história.

Quero aqui me ater a falar sobre as festas juninas. Começo então por sua comemoração. O que comemoramos mesmo? Sua origem, como apontam alguns historiadores, está diretamente relacionada às celebrações pagãs realizadas na Europa durante o período de transição da primavera ao verão, momento denominado solstício de verão. 

Essas festas têm como objetivo a defesa contra espíritos malignos e quaisquer pragas que possam afetar a colheita. O solstício de verão, no hemisfério norte, acontece no mês de junho. A partir do momento em que o cristianismo se consolidou, as atividades memoriais de diversos povos pagãos da Europa começaram a ser cristianizadas. Portanto, os festejos pagãos originais foram incorporados ao calendário de festivais católicos.

Para promover a conversão de diferentes povos pagãos, as celebrações foram centralizadas pela igreja e acrescentadas ao calendário católico, trazendo elementos cristãos. A cristianização da festa está diretamente relacionada à implantação de um memorial às figuras importantes da Igreja Católica como Santo Antônio (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho).

Festas Juninas

No Brasil, a origem da Festa Junina remonta ao século 16. Por ser tradição muito popular na Península Ibérica (Portugal e Espanha), foram trazidas para nosso país pelos portugueses no período colonial.

Quando introduzido no Brasil, essa festa foi chamada de Festa da Joanina, em referência e reverência a São João. Com o passar dos anos, seu nome foi mudando para Festa Junina, referindo-se ao mês em que ocorria. 

Nesse período que vai de junho — se estendendo nos tempos atuais a julho — além das típicas canções como quadrilhas, xote,  xaxado e baião sendo realizadas em todo o país, grandes bailes de forró, em sua maioria liderados, cantados e tocados por homens percussionistas, sanfoneiros e cantores que fazem desse festejo o seu reinado.

Deusas, mulheres cantoras e Mariana Aydar

Hoje em dia, muito se fala e se divulga sobre Deusas, feminino e reencontro com a ancestralidade. Entram em cena as mulheres no comando. Mulheres cantoras, compositoras e instrumentistas que nos presenteiam com belíssimas obras e espetáculos.

Assim foi, em menor, mas não menos forte presença, com Marinês, Elba Ramalho, Amelinha, entre outras em tempos atrás. Hoje temos um grande e maior número de artistas mulheres que comandam nossos tradicionais arraiás. 

Nesse percurso, chega a cantora e compositora paulistana Mariana Aydar, com sua veia nordestina e popular. A artista iniciou sua trajetória musical no ano 2000. De lá pra cá, vem colhendo frutos de suas belas obras e interpretações que contagiam e emocionam o grande público.

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Mariana estudou música no Brasil, nos Estados Unidos e em Paris, mas foi sua grande paixão pelas coisas do Brasil que colocaram a artista como referência a todas as gerações que a sucedem.

Mariana deixa em cada nota, cada melodia, cada performance sua digital, sua identidade. Quando escutamos Mariana conseguimos identificar todas as tradições que herdamos de nossos e nossas ancestrais, além de trazer nos meio desse caldeirão popular as sonoridades urbanas e contemporâneas, conseguindo estabelecer uma comunicação eficiente para fazer o seu discurso musical e artístico ser entendido e compreendido por tantas gerações.

Isso podemos perceber no single lançado recentemente pela cantora que já está na boca e nos corações de milhares de pessoas:

O Futuro já Sabia

O Futuro já Sabia, canção escrita pelos pernambucanos Barro e Ed Sataudinger, reforçando ainda mais a veia nordestina da cantora que, além de tudo, é filha de Bia Aydar, que foi produtora do Rei do Baião Luiz Gonzaga, dentre outros artistas. 

A canção em formato de xote e lançada no dia de São João, fazendo jus ao costume da artista que nos presenteia e já nos presenteou tanto nessa época. No ano passado, lançou a bela canção com o clipe Foguete que nos deixou com os olhos marejados e corações felizes em assistir.

Já em O Futuro já Sabia, lançado na semana passada, mas que serve perfeitamente para a vida da artista, como se fizéssemos um trocadilho com palavras dentro do próprio título da canção: O Futuro já! Sabiá.

Pois é, o futuro já havia reservado os palcos para o foguete Mariana Aydar, além de muitos encontros. Um deles e talvez o mais esperado, podemos acompanhar em seu novo single, que marca também o encontro com o cantor e compositor paraibano Chico César a quem a artista sempre foi fã, tornando-se mais a frente amiga.


Inclusive a canção pode e deve ser interpretada para relatar o primeiro encontro dos dois. Um detalhe é que no primeiro encontro Mariana estava na pista e Chico no palco, quando o artista cantou na festa de 15 anos da cantora como o presente de aniversário pedido à sua mãe.

Quando o céu alumia e vem
Era noite de São João
E a brasa espalhando você pelo ar

Onde a palha derramou
Deixou no chão
Cada rastro de você
Na multidão

Sei que você me olhou
Se avexe não
Foi bom que a gente se encontrou
No palhoção
E se for, me leva…

Era você e eu
Rodando no salão
O futuro já sabia
Mas a gente ainda não

Era você e eu
Rodando no salão
O futuro já sabia
Santo Antônio e São João

O Futuro já Sabia brinda o encontro e amizade entre Mariana Aydar e Chico César, mostrando também toda a paixão de Mariana pelos festejos juninos e nos brindando com sua interpretação contemporânea sem deixar de lado as tradições populares. 

Mariana Aydar é uma artista que se faz presente em tudo o que faz e não passa despercebida. É a mulher empoderada e artista que nos surpreende a cada apresentação, a cada lançamento, a cada canção.

Que venha muito mais de Mariana Aydar e que despontem muitas Marianas em nosso Brasil para nos lembrar quem somos e de onde viemos. Nada será em vão. 

Para saber mais, acompanhe a entrevista que vai ao ar no próximo domingo às 20 horas.

Danilo Nunes é músico, ator, historiador e pesquisador de cultura popular brasileira e latinoamericana

   

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