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Nova forma, mesmo conteúdo: bolsonarismo mantém fio histórico da ditadura militar

Aquilo que não se falava antes nas escolas nem nas universidades, porque estávamos policiados, hoje continua a não se falar nas escolas públicas
Urariano Mota
Portal Vermelho
Brasília (DF)

Tradução:

Em 8 de junho de 2022, participei de uma conversa em vídeo com Osvaldo Bertolino, Luiz Manfredini e Jorge Gregory. Copio a seguir os principais trechos da nossa fala:

A primeira coisa que a gente, todos nós que passamos pela ditadura, que tivemos a sorte de sobreviver, é a seguinte: nós não pensávamos jamais, Bertolino, Manfredini e Gregory, naquela época, nós não nos víamos jamais com os cabelos brancos. Porque os companheiros, os camaradas, estavam caindo. Estavam sendo presos, executados. O círculo estava se fechando. “Vão chegar, vão chegar em nós”, era o que pensávamos. Então não podíamos esperar viver estes nossos cabelos brancos.

Aquele clima de terror que havia na ditadura, onde companheiros e pessoas amigas e conhecidas eram assassinadas sob tortura, e depois líamos nos jornais aquela ”gracinha” de que morreram trocando tiros com a polícia… mudou. Hoje, nós vemos o quê?

Nós vemos assassinatos de militantes por milícias bolsonaristas. Ainda ontem vi aquela nota do Comando Militar da Amazônia dizendo que tinha plenas condições de procurar os indigenistas Dom e Bruno, depois mortos, mas não foram buscá-los porque não receberam uma solicitação acima do Comando.

Cannabrava | Assassinato de Dom, Bruno e 2 Guarani Kaiowá é parte do genocídio brasileiro

O Comando estava se desculpando pelo fato de ter todos os recursos para a busca, e não o fez porque não havia interesse, porque os bravos eram pessoas que denunciavam o avanço do garimpo na floresta e invasão de terras indígenas, e o Comando fez de conta que não via os crimes. É a mesma coisa de um policial estar passando na rua, ver um crime e não agir porque estava esperando a ordem do delegado lá de cima.

Essa afirmação é criminosa e ao mesmo tempo criminaliza o presidente que está lá em cima, que depois declarou: “Os indigenistas estavam indo pra onde não deviam ir”. O que significa: “Eles mereceram”. Isso foi ontem. Antes disso, tivemos o assassinato de Marielle por milícia bolsonarista. Quando houver liberdade de investigação no Brasil, vão chegar a Bolsonaro nesse assassinato.

Aquilo que não se falava antes nas escolas nem nas universidades, porque estávamos policiados, hoje continua a não se falar nas escolas públicas

Memorial da Resistência | Reprodução
Bastavam umas aulas sobre a Música Popular Brasileira na ditadura, discussões sobre a morte de Vladimir Herzog, para conscientizar os jovens




Sem conquistas democráticas

No tempo da ditadura, nós não podíamos ter as conquistas democráticas. Mas sob a democracia de farsa, nós estamos tendo a destruição das conquistas humanistas e trabalhistas. Aquilo que não se falava antes nas escolas nem nas universidades, porque estávamos policiados, hoje continua a não se falar nas escolas públicas porque existem bolsonaristas filmando e vão dizer que o professor de história está doutrinando. Essa é uma continuidade clara da ditadura que assume uma outra forma, mas o conteúdo é o mesmo: é de caça aos comunistas, é de caça aos socialistas, é de caça à democracia. Continua em nova roupagem.

Quando reflito, me parece que na fase democrática nós não radicalizamos a democracia. Primeiro, porque passou uma anistia que anistiou também os torturadores. Não aconteceu em outros lugares. Na Argentina, muito menos. Segundo, porque continua até hoje, nas Escolas Militares, o mesmo currículo da época da guerra fria. É o mesmíssimo currículo.

Eles pregam contra sindicalistas, que seriam vagabundos, pregam contra comunistas, contra socialistas. Essa é a formação dos oficiais que saem das Escolas Militares, de Agulhas Negras e semelhantes, e depois vão comandar batalhões, quartéis. Há uma continuidade clara nas forças militares desse clima perverso da ditadura.

Nas escolas públicas, hoje não existe uma educação que ilumine a história da ditadura para os jovens. Eles ficam espantados quando a gente fala sobre o que houve de terror de Estado e repressão, e que continua. Os jovens nas escolas não têm ideia do que houve antes. E existem tantos caminhos para o conhecimento.

Bastavam umas aulas sobre a Música Popular Brasileira na ditadura, discussões sobre a morte de Vladimir Herzog. Nas conversas que tenho sobre o romance “A mais longa duração da juventude”, os jovens não sabem sobre torturas e assassinatos , ficam assim abismados, “o que é isso? Como é que foi isso?”. Para eles, era como se eu estivesse vindo das sombras do passado, do século dezenove.

O vídeo está aqui:

Urariano Mota | Portal Vermelho


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Urariano Mota Escritor e jornalista. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”.

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