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O cinema do boliviano Martin Boulocq: Simplesmente "Eugenia"

“Eugenia” não necessita de qualquer referência, é em si mesma uma obra sólida, com personagem rica e crível.
Alfonso Gumucio

Tradução:

Detesto a massagem publicitária prévia à estreia de um filme. É provavelmente útil para os lucros, mas triste porque não deixa ao espectador o resquício de pensar por si mesmo.

Estes são tempos em que os jovens fazem filas de três quarteirões para ver um filme que estréia, do qual já sabem quase tudo: a trama, o desenlace, os atores e sobretudo, sabem que é “um sucesso”. Então, já que chega precedido da ribombante etiqueta de “sucesso” comercial, precipitam-se para assistir como carneiros bem disciplinados: é preciso ver todos os filmes que a publicidade nos diz que são campeões de bilheteria. Enfim, é parte da cultura urbana alienada. 

Minha reação é sempre adversa; quanto mais campeão de bilheteria, menos possibilidades de que eu faça o sacrifício de vê-lo, ainda mais em uma sala repleta de pipocas com cheiro de manteiga rançosa, celulares que tocam ou projetam as luzes de suas pequenas telas. Fujo desses espetáculos frenéticos onde uma massa de jovens se rendem obnubilados diante dos efeitos especiais de alguma superprodução que costuma se repetir a cada dois anos: “Rápido e furioso 9” ou “A guerra das galáxias 8” ou “Exterminador 6” … 

“Eugenia” não necessita de qualquer referência, é em si mesma uma obra sólida, com personagem rica e crível.

Facebook / Reprodução
“É hora de rebelar-se”

As que mais são sucesso de bilheteria eu as vejo por curiosidade meses depois da estreia, como foi o caso de “Titanic”. Nunca terminei de olhar pedaços de “Avatar” na televisão, mas vi nos aviões vários títulos de “Missão impossível” e de James Bond que sempre me atraem pelas saudades dos primeiros com Sean Connery. Até agora não conheço “Vingadores”, mas talvez veja meio dormindo se passarem em um próximo voo. Nem penso em pagar para vê-los em uma sala de cinema. 

Todo os prolegômenos anteriores, para falar de um filme muito diferente desses que atraem multidões: “Eugenia” do boliviano Martin Boulocq, que desde seu título é uma negação do espetacular, porque não diz “Eugenia a guerrilheira”, “A vida desesperada de Eugenia”, “O destino de Eugenia” e outras grandiloquências desse tipo. Simplesmente diz: “Eugenia”, algo que a gente agradece quando termina de ver o filme. 

O bom de não ter lido antes sobre um filme, é que a gente pode se surpreender. Não há sensação mais gratificante do que a da descoberta, da possibilidade de estar diante a algo que não se esperava. Eu não esperava nada de “Eugenia”, ou seja, não sabia o que é que ia encontrar, embora eu já tivesse visto antes dois filmes de Boulocq que tinham me interessado. 

Para começar, me surpreendeu ver um filme em preto & branco porque é preciso coragem nesses tempos de saturação de cor, amarelo patinho e verde limão que fazem ranger os dentes. E o preto & branco não é apenas uma escolha caprichosa do diretor, mas tem um sentido de busca plástica e ao mesmo tempo de concentração na história narrada através dos olhos da personagem principal, que nessa etapa de sua vida vê o mundo em preto e branco. É também a estética do exercício da memória: embora Eugenia (Andrea Camponovo) viva seu presente, nós, espectadores, o vemos como um regresso ao passado, como uma reconstrução de sua própria construção como mulher, enquanto que para o diretor é uma construção pausada de seu filme, andaime por andaime e sem pressa, dando-se a oportunidade de observar a personagem sem agitá-lo, com carinho. 

Não me parece que o tema central do filme seja um apelo feminista (como li depois), pelo contrário, não há nada heroico nessa jovem mulher que com a maior simplicidade e autenticidade está buscando seu caminho na vida, depois de haver sofrido a desilusão do casamento. É alguém que se faz perguntas, muitas, e usa sua intuição para não se enganar de novo (vende seu vestido de noiva). 

As relações humanas são complexas. Eugenia viveu uma ruptura em sua vida de casada como a que seus pais sofreram anos antes. Não é o fim do mundo, é simplesmente uma nova realidade que ela deve enfrentar com a decisão de se fortalecer.  Sua mãe e seu pai seguiram suas vidas, e ela decide fazer o mesmo embora não saiba exatamente por onde ir. 

No cartaz de promoção do filme aparece embaixo do título a frase: “É hora de rebelar-se” … Na realidade, tanto para a personagem de Eugenia como para o diretor Boulocq parece ser a hora de “revelar-se” em vez de rebelar-se. Eugenia se revela porque seu processo é de busca e descoberta em lugar de rebeldia. 

Não é casual que aceite interpretar em um filme amador o papel de Tânia, a guerrilheira, porque essa segunda personagem de si mesmo lhe permite imaginar-se em uma dimensão de rebeldia que ela não tem. Eugenia, diferentemente de Tânia, não provoca acontecimentos importantes em sua vida. Mas se deixa levar pelas oportunidades que se apresentam, e as toma como quem abre janelas para olhar de diferentes ângulos os horizontes possíveis. 

Eugenia não é feminista, não representa tampouco um símbolo de denúncia do machismo. Claro que todas essas interpretações são possíveis (e abundam nos comentários que li depois de ver o filme), mas me parece que desvalorizam uma personagem que é suficientemente rica por si mesmo sem necessidades de levantar outra bandeira que não o amor próprio e sua identidade de mulher: “Perdida, sem um ponto fixo de mirada”. 

O que sim se destaca e de maneira muito bem feita é a reflexão sobre as sexualidades, o personagem do amigo homossexual, a relação de seu pai com uma mulher mais jovem que não lhe é fiel, e a relação – de uma grande ternura sexual -, que Eugenia descobre com sua amiga brasileira. 

Dizia que não costumo ler comentários sobre os filmes antes de vê-los, porque gosto de chegar fresco e aberto às surpresas. E me dou  razão quando leio o que se escreveu sobre “Eugenia”, que parece uma competição dos críticos e do próprio Boulocq por encontrar referências culturalistas, desde Simone de Beauvoir até John Cassavetes, passando por todo tipo de supostas referências do estilo e sobretudo da personagem.
O roteiro e a realização são impecáveis. A fotografia voluntariamente “queimada” reforça a sensação de observar um documento de reflexão testemunhal em lugar da vida de uma heroína. Os enquadramentos e os movimentos de câmera, austeros e coerentes, dão solidez à narrativa. Só me pareceram sobrar as imagens filmadas na Itália, que interpretei como um “flash forward” da personagem, um “deja vu” do futuro que ainda não aconteceu. 

A atenção se centraliza de tal maneira em Eugenia e nas relações humanas, que o demais parece desvanecer-se ou fica como piscadelas para os que queiram captá-las: a festa de Urkupiña, as comadres,  o tradicional batán para moer milho, e outras sequências que situam o filme na Bolívia sem forçar minimamente uma leitura folclórica.

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Se deixas sair teus medos,

Terás más espaço para viver teus sonhos.

—Marilyn Monroe

*Colaborador de Diálogos do Sul, de La Paz, Bolívia

Revisão e edição: João Baptista Pimentel Neto


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Alfonso Gumucio Boliviano. Cineasta e documentarista. Especialista em comunicação para o desenvolvimento com experiência mundial em comunicação participativa, mobilização social e desenho da estratégia. Foi Diretor de Comunicação da UNICEF na Nigéria e no Haiti

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