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O dia em que a Prefeitura de SP cuspiu no padre Júlio Lancelotti – e no povo de rua

Religioso celebrou missa em homenagem a moradores de rua agredidos por guardas civis metropolitanos; prefeitura diz que está apurando os fatos
Fausto Salvadori
Ponte Jornalismo

Tradução:

Religioso celebrou missa em homenagem a moradores de rua agredidos por guardas civis metropolitanos; prefeitura diz que está apurando os fatos

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Padre mostra bomba de gás disparada dentro do Núcleo de Convivência São Martinho de Lima | Foto: Daniel Arroyo/ Ponte Jornalismo

A fúria de Lampião, a coragem de Maria Bonita, o molejo de Luiz
Gonzaga, a magia de Raul Seixas. José Orlando, 55 anos, carrega toda
essa gente pelo corpo, como parte das 16 tatuagens que cobrem sua pele.
Tinha posto na mente que todos eles iriam protegê-lo e lhe dar força
quando precisasse.

José Orlando mostra ferimento causado por golpe de cassetete de um GCM | Foto: Daniel Arroyo/ Ponte Jornalismo

Mas, na última sexta-feira (14/9), quando os homens e mulheres da
Guarda Civil Metropolitana de São Paulo passaram a espancar moradores de
rua diante do Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, no
Belenzinho, zona leste da cidade de São Paulo, as forças invocadas pelas
tatuagens não lhe serviram de nada. “Cadê Lampião, cadê Maria Bonita,
cadê Luiz Gonzaga, cadê Raul Seixas, cadê?”, pensou. Quando viu, Orlando
estava caído na calçada, com a cabeça aberta por um golpe de cassetete.

Segundo os moradores de rua que frequentam o São Martinho, a
violência começou como sempre começa, com o “rapa”, a apreensão de
objetos da população de rua, que a Prefeitura prefere chamar de
“trabalho de zeladoria rotineira”. Segundo a Secretaria Especial de
Comunicação do prefeito Bruno Covas (PSDB),  os GCMs davam suporte a uma
equipe da Subprefeitura da Mooca que fazia o “rapa” e teria sido
“hostilizada” por moradores de rua.

“Os guardas pegaram tudo. Meus documentos, minhas latinhas, minhas
roupas. Eu fiquei sem nada”, conta Uelbert Sousa da Silva, 26 anos.
Outras pessoas em situação de rua – ou “irmãos de rua”, como se chamam
entre si – tomaram as dores de Uelbert e foram discutir com os guardas.
Os GCMs, contam, resolveram ir para cima deles com golpes de cassetetes.

Diego assiste à misa em homenagem a ele e outros moradores de rua agredidos | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Foi aí que um dos golpes atingiu Orlando. “Eu estava em pé, esperando
uma comida, os guardas me atropelaram com a viatura e me bateram”, diz.
Por causa das marcas deixadas pelos cinco anos de vida na rua, Orlando
parece ter mais do que os 55 anos de sua idade, a ponto de ser chamado
de “velhinho” e “senhor” pelos parceiros de calçada. Daí que vê-lo sendo
agredido fez a indignação se espalhar feito fogo entre os irmãos de
rua.

“O cassetete cortou que nem uma faca, os guardas abriram a cabeça do
senhor”, lembra um deles. “Aí nós tacamos pedras e rachamos a cabeça do
polícia [guarda] também, porque ele rachou a cabeça do nosso irmão.”

Em meio ao sangue e aos gritos, os moradores de rua e os funcionários
do São Martinho fizeram o que costumam fazer nessas horas. “Chama o
padre.”

Chamaram Júlio Lancelotti, 69 anos, que é vigário episcopal para a
população de rua da Arquidiocese de São Paulo e há 34 anos luta pelos
direitos dos grupos marginalizados. É a quem a população de rua recorre
quando o bicho pega.

“Chama o padre”. Chamaram. Pensavam que iria conseguir protegê-los.

Bofetões e cusparadas

Diante dos guardas civis municipais, contudo, padre Júlio pode fazer
tanto quanto as tatuagens dos ídolos de Orlando. Os GCMs haviam chamado
sua tropa de choque, a Iope (Inspetoria Regional de Operações
Especiais), e pretendiam invadir o abrigo para buscar um morador de rua,
Diego Luiz Aleixo, 20 anos, que havia jogado a espuma de um extintor
sobre os guardas durante a confusão.

Padre Júlio na missa com Diego e Uelbert | Foto: Daniel Arroyo/ Ponte Jornalismo

“Quando eu cheguei, eles já estavam com escudos, taser, aquela
escopeta 12, muito gás”, conta. Dessa vez, a presença do padre, e de
tudo o que ele costuma representar, de autoridade religiosa ou de
tradição de luta, não fez os guardas recuarem. “Eles me deram soco, me
cuspiram, me xingaram de ‘padre de merda’”, conta.

A agressão ao padre que os moradores de rua vêem como seu defensor
aumentou ainda mais a confusão. “Na hora em que puseram a mão no padre, a
gente se revoltou”, lembra Uelbert.

Coordenador do São Martinho há 15 anos, Sandro Ricardo, 43 anos, foi
conversar com os guardas para tentar mediar uma solução. A tropa de
choque ameaçava invadir o local para capturar Diego, que havia jogado
espuma de extintor nos guardas, e o coordenador queria buscar uma saída
negociada.  “Se tivessem aceitado conversar, a gente teria feito uma
mediação. Se fosse comprovado que o menino havia feito alguma coisa, ele
seria levado, mas de forma digna”, afirma.

Não teve chance. O único argumento usado pelos guardas foi um jato de
spray de pimenta disparado diretamente nos olhos de Sandro. “Ardeu
muito e perdi parte da consciência”, lembra.

Dentro do Núcleo de Convivência, os guardas invadiram todos os
espaços, inclusive o banheiro das mulheres, e cometeram novas agressões,
com gás lacrimogêneo e choques elétricos. Encontraram Diego e, conforme
testemunhas, espancaram o jovem na frente de todos. “Ele foi muito
torturado”, afirma o padre. Diego conta que, antes de levá-lo ao 6º DP
(Cambuci), os guardas passaram primeiro no Parque da Mooca, nas
imediações, onde o espancaram várias vezes. “Meu pulso foi deslocado”,
diz.

O São Martinho tem história. Criado em 1990, com o nome de Centro
Comunitário São Martinho de Lima, foi a primeira unidade de prestação de
serviço à população de rua a assinar um convênio com a Prefeitura de
São Paulo, numa época em que esse tipo de serviço era quase todo feito
por entidades conveniadas ao governo estadual.

Em 28 anos de existência, o Núcleo de Convivência São Martinho nunca
havia sido invadido, fosse por guardas, policiais ou qualquer outra
força do Estado. “É algo que nos entristece muito, porque é um espaço
que tem que ser respeitado. Muitos moradores veem aquele como um lugar
seguro, o único espaço em que podem ser eles mesmos. Com a invasão,
destruíram quase 30 anos de história em uma fração de segundos”, lamenta
Sandro Ricardo.

Padre Júlio relata que, além de agredi-lo, um dos guardas também
ameaçou prendê-lo: “Eu estendi os braços e falei: ‘Pode me prender, mas
eu só saio daqui algemado, quero ver se você tem coragem’”. Não teve. Um
colega de farda disse ao GCM: “Deixa o padre”. E foram embora.

Missa celebrada na Capela da Universidade São Judas | Foto: Daniel Arroyo/ Ponte Jornalismo

Em nota, a Secretaria Especial da Comunicação do prefeito Bruno Covas
(PSDB) afirma que o comando da Guarda Civil Metropolitana “determinou a
imediata e rigorosa apuração dos fatos”. Diz a nota:

Segundo os guardas civis que estiveram no local, uma equipe da
Subprefeitura da Mooca realizava trabalhos de zeladoria rotineira no
local, quando foi hostilizada por moradores em situação de rua. Uma
viatura da GCM que passava pelo local tentou impedir agressões, mas foi
atacada com pedras, pedaços de pau e barras de ferro. Um guarda foi
atingido por uma pedra e sofreu um corte na cabeça. Dois outros agentes
tiveram lesões leves e uma viatura foi danificada. Um homem que
participou das agressões foi apresentado no 6º DP (Cambuci). Cabe
destacar ainda que a determinação da administração municipal é para que
não sejam retirados pertences de moradores em situação de rua.

O Ministério Público de São Paulo instaurou inquérito para apurar as agressões ao padre e à população de rua.

Bella Ciao

Dois dias após as agressões,  o padre Júlio celebrou, na manhã deste
domingo (16/9), uma missa na Capela da Universidade São Judas Tadeu, na
Mooca, em que denunciou os ataques à população de rua e celebrou a
memória do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo-emérito de São
Paulo e importante nome da luta pela democracia. Falecido em 2016, dom
Paulo faria 97 anos no mesmo dia em que a GCM atacou o São Martinho.

“Não desviei o rosto de bofetões e cusparadas”, foram as palavras do
Profeta Isaías lidas durante a primeira leitura da missa. Ainda
machucados, moradores de rua que haviam sido agredidos pelos guardas
participaram do culto. Diego trazia a mão enfaixada. Orlando levava uma
ferida seca no alto da cabeça, embaixo do boné.

Uilbert comentou que, na sexta-feira, o “rapa” havia levado tudo o
que tinha. “Eu estou vestindo roupa que foi doada pelos meus irmãos de
rua para vir na missa hoje, que eu mesmo estou sem nada”, disse.

Padre Júlio homenageou os agredidos e pediu que contassem o que
tinham sofrido. Na sua vez, diante do microfone, Orlando só conseguiu
dizer: “Por que fazem isso com a gente? Se eu estou esmolando, eu estou
pedindo, não estou roubando”. Ficou tonto e logo depois saiu da capela.
Sentia-se mal. “Vou procurar um lugar para morrer”, disse.

Vários nomes ligados à luta pelos direitos humanos falaram ao longo
da missa. Sinal dos tempos vividos hoje pelo país, com o crescimento das
intenções de voto ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), inimigo
declarado dos direitos humanos, muitos dos que falaram durante a
celebração mencionaram sensações de impotência e receio do porvir.

Deputada Luiza Erundina: “emocionada e impotente” | Foto: Daniel Arroyo/ Ponte Jornalismo

“Eu me sinto muito emocionada e impotente. Nós temos que nos revoltar
e dizer um basta. Eleição não resolve nada”, disse a deputada federal
Luíza Erundina (Psol), que, como prefeita de São Paulo, em 1990, foi
quem assinou o convênio pioneiro com o São Martinho de Lima. O
advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, um dos fundadores do PT, também
desabafou: “Sentimos impotência diante dos ventos que sopram hoje no
País”.

Para o padre Júlio, tanto as agressões de sexta-feira como as ameaças
que recebeu no início do ano têm relação com o clima vivido pelo
Brasil. “A ascensão dessa direita raivosa está liberando os fantasmas na
cabeça de muita gente”, disse. “As pessoas estão achando que podem
fazer o que quiserem.”

Do lado de fora da capela, sentado numa escadaria da universidade,
Orlando já se sentia melhor. Havia comido um sanduíche e um chocolate
quente. “Eu estava há dois dias sem comer”, disse. Contou um pouco de
sua história à Ponte. Nascido no Ceará, vivia em Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo, e trabalhou a vida todo como caminhoneiro. Dos bons.

“Pensa num cabra bom, com quase 30 anos de rodovia. Conhecia as
rodovias como a palma da mão, tudo que é cidade que você procurar eu
conheço. Agora, passar por essa situação, compadre, pensa como você fica
revoltado. Tomando cacetada de GCM aí no meio da rua, chamando você de
maloqueiro, de mendigo, sabendo que você tem mulheres e filhos
espalhados pelo mundo. Pensa numa situação difícil, cara.”

Há cinco anos, após uma briga com a segunda esposa, deixou a família,
os cinco filhos, e acabou indo parar na rua. Antes de partir, disse
“Nessa casa eu não ponho mais os pés”, uma frase da qual se arrepende, e
que fica martelando em sua cabeça nas noites enquanto dorme nas
calçadas. Sua vida está presa num círculo: tem vontade de deixar as ruas
e voltar para a família, mas ao mesmo tem vergonha de reencontrar os
filhos por ter se tornado um morador de rua, e assim vai ficando.

Antes dormia no Parque da Mooca, mas deixou o local de lado porque,
segundo ele, os GCMs passaram a espancar quem se recolhia ali. “Se pegam
você deitado ali, te quebram na madeira”, contou. Ontem, deixou a
capela antes do final da missa e contou que não sabia onde iria dormir
naquela noite.

Ao lado dele, Adriano Casado, 45 anos, 9 deles vividos na rua,
explicava que agressões como aquelas ocorridas na sexta-feira fazem
parte da rotina dos irmãos de rua. “É uma coisa que acontece
direto. Sofrer agressão da GCM, chamarem a gente de lixo, o rapa levar
nossas cobertas, é normal. Como o padre estava envolvido, tomou uma
dimensão maior”, disse.

Dentro da capela, padre Júlio encerrou a missa pedindo que os fiéis
entregassem flores à população de rua presente. “Não queremos entregar
para os irmãos de rua bomba, nem gás, nem balas, queremos entregar
flores, para que a vida deles seja digna e humana”, conclamou o padre.

Enquanto as flores se espalhavam de mão em mão pela capela, o coral Martin Luther King cantava Bella Ciao,
a canção italiano símbolo da resistência ao fascismo, entoando versos
que celebravam a flor, aquela flor tão linda, nascida na sepultura dos
que resistiram e morrendo lutando pela liberdade.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Fausto Salvadori

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