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O futuro da China, 4.000 anos depois

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Johan Galtung*

Neste artigo Johan Galtung, professor de estudos sobre a paz e reitor da Transcend Peace University -TPU-. Também é autor d 150 livros sobre a paz e assuntos afins entre os quais “50 Years-1pp Peace and Conflict Perspectives” (50 anos - 100 perspectivas sobre paz e conflitos). Neste artigo Johan Galtung, professor de estudos sobre a paz e reitor da Transcend Peace University -TPU-. Também é autor d 150 livros sobre a paz e assuntos afins entre os quais “50 Years-1pp Peace and Conflict Perspectives” (50 anos – 100 perspectivas sobre paz e conflitos).

Ao se observar um mapa que combine a história do mundo com a geografia, o tempo e o espaço, por quatro mil anos, a China aparece como um conjunto de dinastias relativamente coerentes e com complexas transições.

Em contraste, o Ocidente surge como impérios com nascimento, crescimento, auge, decadência e queda, como o caso dos impérios romano, britânico e o atual estadunidense.

China cresceu como uma ilha – o “bolsão chinês” – entre o espaço habitado pelos bárbaros do sul, oeste, norte e leste, entre as montanhas do Himalaia, o deserto de Gobi, a tundra e o mar.  A exceção era as rotas da seda entre a China oriental e o leste da África, destruídas por Portugal e Inglaterra a partir de 1500 com a colonização de Macau e Hong Kong.

Um dos objetivos da atual política exterior chinesa é o de restaurar as rotas da seda com os trens de alta velocidade através da Eurásia, através da cooperação para o benefício mútuo e equitativo ou seja, em harmonia.

O futuro da China, 4.000 anos depois_0 China cresceu como uma ilha – o “bolsão chinês” – entre o espaço habitado pelos bárbaros do sul, oeste, norte e leste, entre as montanhas do Himalaia, o deserto de Gobi, a tundra e o mar.

Estados Unidos deixou de lado o tempo quando fez caso omisso da história passada, e com a ideia de que tudo começa com os imigrantes, uma História Nova para si mesmos, para outros países e para o mundo inteiro.

Para o taoismo, o conhecimento que vale é holístico e dialético, com base em grandes e complexas unidades de pensamento (toda a humanidade, China, o Mundo), marcadas por forças e contra-forças , o yin e o yang, o bem diante do mal. O que se suprime, volta a crescer, e o que é dominante decai até o próximo ciclo.

Para o Ocidente, o conhecimento que vale se funda na subdivisão e acumulação de conhecimentos sobre os elementos, entrelaçados nas teorias.

Para Mao Zedong (1893-1976), a contradição básica residia no imperialismo estrangeiro com os proprietários diante do povo: estudantes-camponeses-trabalhadores. A revolução de 1949 deu início a uma dialética de distribuição ante o crescimento, com saltos a cada nove anos (1058-1967-1976). Com morte de Mao vieram quatro anos caóticos.

Para Deng Xiaopeng (1904-1997) a contradição residia na miséria diante da falta de crescimento.

A revolução de 1980 acumulou capital entre os agricultores próximos das cidades e em Shenzen, com um crescimento anual de 26 por cento, e recriou a classe mercantil. Então, sucederam-se ciclos de nove anos de distribuição versus crescimento, a partir de 1989, com os protestos na praça Tiananmen, e logo, em 1998, 2007 e 2016, com um novo enfoque no crescimento.

China 4000 anos depois China se baseia nos princípios do taoismo, nas ideias confucianas de hierarquia com harmonia e na igualdade budista das pequenas comunidades

China se baseia nos princípios do taoismo, nas ideias confucianas de hierarquia com harmonia e na igualdade budista das pequenas comunidades: o budismo para a distribuição, o confucionismo para o crescimento e o taoismo para os saltos entre ambos.

O Ocidente poderia ter tomado os aspectos positivos do judaísmo, do cristianismo e do Islã, porém, concentrou-se nos aspectos negativos da discriminação, dos preconceitos, a guerra e o genocídio, agora sob a forma de judeocristianismo versus Islã, sem o emprego de sinergias.

Os mandarins governantes chineses combinaram o poder com normas da alta cultura para os agricultores e os artesãos, deixando os comerciantes marginalizados na parte inferior.

Os mandatários aristocratas ocidentais combinaram o poder com a força, o comercio e a bênção do clero, que logo se converteriam em Estado, o capital, a burocracia. Uma diferença básica com a China era a marginalização diante da integração dos comerciantes.
Os imperadores chineses eram filhos celestiais que comercializavam com aqueles que pagavam tributo ao imperador. No Ocidente, o paraíso consistia em um único Deus para todo o mundo e para a eternidade, que criava e tirava a vida. O monarca era a única pessoa com o direito divino de tirar a vida, que também a delegava a seu exército.

Os ingleses se negaram a pagar esses tributos e recorreram às guerras do ópio e à diplomacia das canhoneiras para queimar, com os franceses, o palácio imperial. China nunca foi violenta fora de seu “bolsão”, salvo quando a índia a provocou em 1962.
O mandato divino se perde quando povo protesta nas ruas, e se recupera al abordar suas necessidades e ideias no antigo sistema de petições, pela “democracia das ideias, não a democracia aritmética”, como faz o Ocidente com a contagem de votos em eleições nacionais livres e pluralistas.

O futuro da China, 4.000 anos depois A Revolução Cultural marchou pelas ruas contra o poder confucionista

A Revolução Cultural marchou pelas ruas contra o poder confucionista de homens anciãos com educação superior da China oriental, aplainando o caminho aos jovens, às mulheres e à China ocidental, e também a 80 milhões de membros do Partido “comunista”, o suficientemente sábios para entender a dialética do yin e yang.

Tiananmen, em 1989, nada teve que ver com a democracia, mas sim com a perda de sua posição feudal diante dos agricultores ricos, os comerciantes, os capitalistas privados e estatais.

China esta centrada em si mesma, a cultura profunda ainda é holística-dialética com uma superfície ocidental. A sinergia de tres civilizações está aí, assim como a incapacidade da China para manejar o “enclave” que representa Taiwan, Tibet, uigures, mongóis, vietnamitas e coreanos.

Porém a China se globalizou ao comercializar com os bárbaros e acumular enormes riquezas. Mao abriu a sociedade à enormes massas de chineses: os jovens, as mulheres e os do oeste.

Deng ascendeu os 300 ou 400 milhões de chineses do fundo da sociedade entre 1991 e 2004 Deng ascendeu os 300 ou 400 milhões de chineses do fundo da sociedade entre 1991 e 2004

Deng ascendeu os 300 ou 400 milhões de chineses do fundo da sociedade entre 1991 e 2004, passando o foco comunista das necessidades dos mais necessitados para o capitalismo: o capicomunismo. Em Beijing, em 1980, havia seis milhões de bicicletas e nenhum carro privado. Em 2010 a proporção era de nenhuma bicicleta ante cinco milhões de carros.

Ocidente, superado pelos países do BRICS (Brasil, China, Índia, Russia e África do Sul), dedicou-se mais a matar do que a apreender.
A classe governante da China, imersa na cultura, vinculava os ciclos dinásticos ao pensamento do yin e do yang, e os comerciantes com os bárbaros.

Os governantes de hoje, preocupados em fazer dinheiro para engendrar mais dinheiro, vinculam o dinheiro à corrupção. Com a concorrência da América Latina mais a África, e os protestos nas ruas, aproxima-se o fim de uma dinastia.

A liderança da China não é para sempre. Nunca nada o foi. Exceto, talvez, outra China. Uma dinastia mais espiritual depois do “comunismo” materialista?

*IPS de Penang, Malasia, especial para Diálogos do Sul – Edição de Phil Harris – Tradução do inglês de Álvaro Queiruga. As opiniões expressas neste artigo são responsabilidade do autor e não representam necessariamente as da IPS – Inter Press Service, nem se a pode atribuir.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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