Pesquisar
Pesquisar

O horror das Paraisópolis de cada dia é ironia brutal ao mostrar que no paraíso se pode sofrer

A violência exige ir às causas profundas do horror. Combater as consequências jamais extirpará o crime, seja qual for.

Flávio Tavares
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O que guardam entre si, em semelhanças ou diferenças, dois fatos recentes envolvendo vidas paralelas que não chegaram a conviver, mas se uniram nos ensinamentos deixados pela vida e, também, pela morte?

Refiro-me, por um lado, à vida e morte do rabino Henry Sobel e, por outro, à tragédia da favela de Paraisópolis. Diferentes entre si, ambos os acontecimentos se unem num mesmo cordão umbilical – a violência policial que distorce a realidade e interpreta a truculência e a morte como “guardiãs” do poder.

5b332cd8 d1d2 4072 a010 10b02165704a

Sobel foi o guia espiritual de uma comunidade religiosa. Os adolescentes mortos em Paraisópolis talvez nada pensassem sobre espiritualidade, queriam apenas se divertir num “baile funk”, em que o corpo se exacerba e até raciocinar é estranho. Nas atividades da vida real eram quase antagônicos.

A violência exige ir às causas profundas do horror. Combater as consequências jamais extirpará o crime, seja qual for.

Agência Brasil
O rabino Henry Sobel, que faleceu em 22 de novembro de 2019 por complicações associadas a um câncer.

Nascido em Portugal, numa família perseguida pelo atroz antissemitismo, o rabino Sobel tornou-se cidadão dos Estados Unidos. Lá penetrou na essência do judaísmo ao entender que os ritos religiosos são, apenas, uma expressão das verdades espirituais da humanidade. Aqui, adotou o Brasil como pátria. Foi o oposto de um apátrida. Teve muitas pátrias ao ter o mundo dentro de si e, assim, foi um educador.

O educador Sobel nasceu da prática de vida do rabino e se revelou naquele episódio perverso de tortura e assassinato, na prisão, do jornalista Vladimir Herzog, nos tempos da ditadura, em São Paulo. Numa época dominada pelo medo, em pleno auge funesto do “Ato 5”, um ato do rabino Sobel desafiou a ditadura e escancarou a mentira do “suicídio” de Herzog, montada na chamada Operação Bandeirantes para encobrir a morte sob tortura.

No rito judaico, os suicidas são enterrados na área externa do cemitério, nunca junto aos demais mortos. O rabino da Congregação Israelita Paulista, porém, negou-se a sepultar Herzog na área dos suicidas e desmontou a farsa que encobria o assassinato. Dias depois, ao lado do arcebispo Paulo Evaristo Arns e do pastor metodista James Wright, participou de um culto ecumênico, na lotadíssima Catedral da Sé, em memória de Herzog e repúdio à tortura.

Daí em diante, naquele 1975, o País, amordaçado e acovardado, passou a recuperar a lucidez e a coragem que, anos depois, desembocaram na “abertura” do governo Geisel e, por fim, na redemocratização. O gesto do rabino foi o ponto de partida que refez a coragem e a altivez extraviadas entre os brasileiros a partir do golpe de 1964. Passamos, outra vez, a exercer a coragem que desafia a mais daninha das mentiras – aquela que o poder político propaga como “verdade absoluta”.

Sobel reeducou-nos. Levou-nos a raciocinar sobre tudo o que o poder (seja civil ou militar, político ou financeiro) nos impinge como indiscutível. Por isso, foi um educador.

Mas, e os meninos mortos na favela, cuja denominação “Paraisópolis” é, em si, um ultraje ao significado das palavras?

A grande lição que fica é a visão do medo da polícia, que persiste em toda a sociedade, mesmo na democracia, que assegura direitos a todos. A simples chegada da Polícia Militar à favela na madrugada provocou pânico exatamente por se conhecerem os métodos policiais. Primeiro disparam e só depois vão averiguar.

Para que o pânico se multiplicasse não seria preciso sequer que (como mostraram as câmeras) um policial desse porretadas a esmo em cada um dos que buscavam escapar pelas vielas e becos em outro infernópolis. Bastou a chegada da polícia para que os assistentes ao baile percebessem que eram vítimas potenciais só por serem pessoas. Os tiros na rua e as bombas de gás (também mostrados na TV) apenas ampliavam a insegurança.

Não estamos nos anos da prepotência do Ato 5. Até o milênio é outro. Mas teremos esquecido o que aprendemos com o gesto do rabino Sobel? Ou as marcas da ditadura no aparelho repressor do Estado foram tão profundas que continuam na prática e são usuais até hoje?

Na tragédia de Paraisópolis há, ainda, outro ingrediente perverso: a brutalidade policial alimentou-se da vingança. Tempos antes, um policial fora morto na favela, transformando a repressão em favor da ordem em odiosa vingança a esmo. A população local virou vítima coletiva preferencial.

Essa situação é comum em São Paulo e em todo o Brasil. O restabelecimento da ordem passa a plano inferior e surge a vingança. Num país onde nenhum juiz pode aplicar a pena de morte, a polícia mata por ímpeto quase “natural” e com impunidade. Os “rigorosos inquéritos” raramente responsabilizam e penalizam a ação policial.

Agora, a pretendida “exclusão de ilicitude”, proposta pelo governo federal, é apenas pomposa denominação jurídica que dá salvo-conduto para matar. É o elogio da morte, como se a vida tivesse o desprezo da lei.

Pode-se inverter a função do Estado e transformá-lo em algoz, em vez de protetor natural da vida?

A violência exige ir às causas profundas do horror. Combater as consequências jamais extirpará o crime, seja qual for. Na sociedade atual, tudo é violento, a começar pelo que chamam de “música” e apenas habitua nossos neurônios ao ruído. Os jogos eletrônicos ou os programas infantis no YouTube e similares são uma sucessão de atos grosseiros, que preparam as crianças para uma vida rude de disputa, sem solidariedade ou gestos de amor.

Extraviam-se até o amor e a beleza do erotismo, dando hierarquia à perversão, com a mesma “naturalidade” com que a cobiça e nosso estilo de vida destroem o meio ambiente e levam o planeta à catástrofe.

O horror das Paraisópolis de cada dia é uma ironia brutal a mostrar que até no paraíso se pode sofrer.

*Flávio Tavares é escritor e professor aposentado da UNB, colaborador da Diáologos do Sul

Veja também

aab9be8f 6a3d 4705 a2f5 d07184a37734


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Flávio Tavares Jornalista e escritor. Prêmio Jabuti 2000 e 2005, Prêmio APCA 2004. É professor aposentado da Universidade de Brasília.

LEIA tAMBÉM

Privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins só é “progresso” para elites do agro
Privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins só é “progresso” para elites do agro
Congresso Nacional realiza sessão de reabertura dos trabalhos
Congresso da Vergonha
Eleições 2026 o contraste entre discursos que exploram o medo e propõem futuros (1)
Eleições 2026 e o contraste entre discursos: explorar o medo ou propor futuros?
Após “alerta vermelho” do Marrocos, PF detém em Guarulhos militante saarauí vítima de perseguição
Após “alerta vermelho” do Marrocos, PF detém em Guarulhos militante saarauí vítima de perseguição