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James Desiris

O Napoleão haitiano e a jornada épica que nenhum outro Napoleão viveu

Na batida do tambor da resistência: Napoleão, o pequeno tamborinista que enfrentou as adversidades de um Haiti devastado
Neno Garbers
Diálogos do Sul
Porto Príncipe

Tradução:

Napoleão é, e sempre será, um tamborinista. Aprendeu a tocar no Ateliê Plen Minwi — Ateliê da Meia-Noite de Lua Cheia, o ateliê de tambor que faz o jovem ressoar por todo o bairro. À meia-noite, para mim, é quando ela é tão escura, mas tão escura, que a gente chega a ver claramente, sabe? Nossos olhos se acostumam a ela, e nos sentimos com superpoderes. A pele negra de Napoleão, como a meia-noite, brilhava. Sua mente também.

Seu professor, Batala, um grande tamborinista que dá aulas gratuitas no país onde o tambor é vital, diz sobre ele: “Napoleão Eudes Sabatini é um jovem artista formado no Ateliê Plèn Minwi. Ele acredita muito na cultura de seu país, e leva o tambor ao seu coração, à sua alma, à sua mente”.

Tem razões que nos fazem valorizar mais ainda o brilho da meia-noite. Sua mãe se chama Gelette Thomas, mãe solo, de quatro crianças. Napoleão é o único menino, ele tem anemia falciforme. Para ele, a música é justamente um de seus medicamentos e motivação para manter a chama acesa.

Valorizamos mais ainda o brilho quando não vemos mais nada. Nessa semana, ele teve uma baixa em seu tratamento de saúde, e sua situação se complicou.

E foi enquanto corria para baixo e para cima, com ele buscando apoio numa cidade 80% dominada por gangues, que sua família acabou perdendo a fortaleza nessa batalha: a casa em que viviam! … Mas não para o fogo, como poderia parecer quando a vimos em chamas, e sim para as gangues, que a incendiaram, em ações orquestradas junto com poderosos que esperam trazer outra “Missão Internacional de Paz” para o país, para se perpetuarem no poder, já que foi exatamente a última missão que lá os colocou há mais de uma década, em eleições fraudulentas. Mesmo que para isso esses poderosos tenham que queimar toda a cidade de Porto Príncipe… e, por que não, todo o país?

Depois do macabro teatro internacional, as gangues voltaram para suas casas, já que agora, graças aos recursos roubados e de suas vítimas de sequestro, elas têm, finalmente, algo em mãos. Na verdade, milhões de dólares.

Napoleão. Foto: James Desiris

Do outro lado, na praça mais próxima, está a família de Napoleão. Na vida, existem campos de batalha nada convencionais, quase invisíveis aos olhos menos treinados na noite. Campos de batalha mais duros do que quaisquer outros na história da humanidade. No Haiti eles são as ruas, as praças, os campos de desabrigados. A família do nosso guerreiro atualmente está nas ruas, sem ter para onde ir.

O Ateliê nessa semana ia se apresentar no maior canal de televisão do país, a Tele Caraibes, ao vivo e transmitido em todas as plataformas das redes sociais. Que orgulho para Napoleão, um jovem que, como tantos outros, inclusive os que têm armas na mão, no fundo, apenas quer tocar sua vida, ter seus momentos de alegria, aprender algo, alcançar autonomia, ajudar a família e ter seu reconhecimento numa sociedade que não reconhece mais sua própria face.

O espetáculo na televisão foi cancelado por conta da situação da capital do país. Como eu disse, a música é o remédio de Napoleão e ele teve uma recaída em seu tratamento de saúde.

Amigos e mais amigos se mobilizaram. As redes de ajuda no Haiti vieram muito antes das redes sociais, e por isso elas se apoderaram de forma impressionante da internet como talvez a maior ferramenta de mobilização desse povo, apesar da falta de dinheiro para pacotes de internet e da falta de energia — já que para se ter ao menos duas horas de luz estatal por dia por aqui precisamos pedir uma forcinha, ao mesmo tempo, tanto de Deus quanto dos loas do vodu haitiano!

O pedido de ajuda foi feito por muitas pessoas, esse exército do bem, que é sempre o maior exército desse país, e nas mesmas redes em que esperávamos ver mais uma foto do jovem Napoleão tocando tambor, sua glória, nessa guerra do dia a dia, empunhando não armas, mas as baquetas do tambor. Todos solicitavam sangue, O+, para um jovem especial. Mas, as lutas mais simples que se pode imaginar se tornam napoleônicas na atual situação do Haiti.

Por conta da falta de hospitais, que também foram atacados por gangues… Por conta de tantos que não puderam ir às ruas ajudar Napoleão… Por conta de tanto sangue nas ruas… Por conta da falta de sangue para Napoleão… Napoleão… Napoleão? Napoleão não respondeu mais.  Virou estrela da meia-noite, que só pode ser vista por quem ouse confrontá-la para ver mais, nesse país que parece ter o relógio parado nela, onde devemos fazer esforço para ver seu brilho, onde todos estão com medo, onde a morte parece poder vir nos buscar a qualquer hora, quando quer. Onde Baron Samedi parece ter deixado a porta dos cemitérios aberta.

O Napoleão haitiano fez sua passagem… não apenas pelo seu país, o qual amava, mas por causa do que acontece nele hoje, porque o mundo não consegue ver, entender e respeitar o povo que brilha à meia-noite.


Esse texto foi escrito voluntariamente dentro do projeto Rede Solidária, com apoio da organização Transformartes, e todo recurso arrecadado será encaminhado integralmente para a família de Napoleão.

PIX: 19981327130
Jeanine Laurent Zephir:

Ou Transferência:
Agência 0001 Conta 62868046-0 Banco 0260 NuBank

Toda a prestação de contas será divulgada na página @transformartes1 no Facebook. Para eventuais esclarecimentos, escreva para wgarbers@gmail.com


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
Neno Garbers Neno Garbers é escritor e jornalista. Pesquisa o Haiti desde 2009, onde mora desde 2012 e atua como pesquisador, editor, mediador de terapia literária e comunicação não-violenta pela organização Transfòmatis, professor (Centro Cultural Brasil-Haiti), além disso é produtor e músico no grupo haitiano-brasileiro Motif Mizik. É formado em Estudos Literários pela UNICAMP, tem uma especialização em Epistemologias do Sul pela CLACSO, além de ser pós-graduando em Produção Editorial pela LABPUB.

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