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O Peru na reta final das eleições

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

Gustavo Espinoza M.*

eleições peruÉ válido dizer que ao ter início o mês de abril o Peru entra na reta final para as eleições nacionais de 2016. As pesquisas trazem algumas surpresas, mas o cenário esta bem demarcado com a saída de vários candidatos que desistiram de participar depois que perceberam não tem chance alguma.

De toda maneira e pela natureza da disputa, nessa se mesclam dois elementos: a opção cidadã em busca de um novo governo, e o perigo de que a máfia recupere posições de poder das que foi privada a partir de 2011. Por esta segunda consideração a campanha de uns e outros candidatos tem sido medida por sua atitude diante da corrupção e a impunidade, preocupação de todos os peruanos.
Em Lima e outras cidades do país, a necessidade de cerrar filas contra tais elementos tem tomado a forma de uma clara denúncia sobre o que representam as candidaturas de Keiko Fujimori e Alan García. Milhares de peruanos de toda condição social, em Arequipa, Cusco, Ayacucho, Tacna, Huancayo, Chimbote e outras cidades se claramente essa ideia.
Na verdade, jovens e adultos, homens e mulheres, profissionais e técnicos, operários e servidores, população urbana e rural, por toda parte entendem a urgência de uma mobilização constante em alerta à consciência dos peruanos.
Recentemente, na Praça San Martin, dia 30 de março, ocorreu uma nova –a terceira- mobilização em repúdio à opção mafiosa. Muita gente expôs claramente a decisão unitária e chamam para novas manifestações antes do 10 de abril.
Ao fazer uso da palavra disse, entre outras coisas, que “esta luta pela dignidade e justiça se nutre da história de nossa pátria. Vem de nossos antepassados, de Juan Santos Atahualpa e Tupac Amaru, dos libertadores da independência, de José Carlos Mariátegui –que nos deu consciência e sentimento de classe-, e se nutre com o exemplo os que ofereceram sua vida pela causa, como Pedro Huilca, ou souberam levar a invicta bandeira dos trabalhadores, como Isidoro Gamarra. E essa luta exige a mais ampla unidade. Devemos somar forças e juntarmo-nos todos, independentemente de nossas ideias políticas, filiações partidárias ou crenças religiosas. Porque a luta contra a impunidade e a corrupção nos conclama a todos”.
E de fato é assim. A herança fujimorista, servilmente aproveitada por Alan García no período 2006-2011, afetou em primeiro lugar os jovens, as mulheres e os trabalhadores; mas também envileceu a sociedade peruana transformando a corrupção e a impunidade em forma de gestão do Estado.
Aos jovens tirou virtualmente o direito a uma educação de qualidade ao abrir as portas ao capital privado para que convertessem a educação em uma empresa comercial com fins de lucro. A deterioração da educação pública, o abandono da luta pela qualidade do corpo docente e a desregulamentação dos programas de ensino foram os elementos chave de uma política que baixou ao nível do chão o nível educacional dos jovens peruanos.
As mulheres, particularmente nas regiões andinas, foram esterilizadas em massa no que constituiu uma verdadeira política de extermínio contra as populações originarias, dizimadas, por uma violência demencial, atribuída à estrutura terrorista de Sendero Luminoso porém no fundamental executada por um Estado terrorista.
E os trabalhadores, cujas conquistas sociais e trabalhistas foram absolutamente desconhecidas. Contra esse segmento da sociedade, o modelo neoliberal imposto desde 1990 e cuja essência ainda se mantém a luz de uma Constituição inválida de 1993, descarregou toda sua fúria. Eliminaram mais de 800 empregos, congelaram os salários, reduziram as aposentadorias, eliminaram programas sociais. Sumiram com benefícios legalmente criados e feriram de morte a negociação coletiva.
O secretario geral da Central Operária, Pedro Hulca Tecse foi vilmente assassinado e também muitos outros dirigentes sindicais e trabalhadores no país.
Tudo isso no marco de uma ofensiva global orientada a apagar da cabeça das pessoas as ideias políticas, reduzindo os peruanos à qualidade de zumbis intelectualmente alimentados por uma imprensa servil e um lixo de televisão cuja tarefa principal é desconhecer e denegrir a história do Peru.
Os métodos usados para implantar essa política são extremamente perversos. Com dinheiro público se pagam os meios de comunicação para assegurar  sua conformidade com esse roteiro. E para escarnio de todos, os vídeos mostrando a compra e venda de jornais, revistas, parlamentares, jornalistas e políticos estão sendo exibidos aos atônitos peruanos. Nem todos, contudo, avaliaram ou assumiram a gravidade desses fatos.
É que, como contrapartida, o governo da máfia, orientado pelos serviços secretos dos Estados Unidos –a CIA, principalmente- desencadeou uma ofensiva, supostamente terrorista atribuída ao Sendero Luminoso, que aparece como responsável pela prática de horrendos delitos.
Para enfrentar essa violência, assim artificialmente criada, o terrorismo de Estado gerou um clima de intimidação que paralisou a cidadania. Embaixo dessa sombra se institucionalizou a tortura e se habilitou os centros clandestinos de reclusão.
Criaram tribunais especiais com juízes sem rosto que, em audiências secretas, ditavam sentenças anônimas condenando a numerosas pessoas a prisão perpétua. Muitos outros foram sequestrados primeiro e executados extra-judicialmente depois; abrindo um abismo de sangue e morte que gerou um abismo imenso que ainda separa os peruanos.
É verdade que ainda há uma parte da cidadania que sofre uma espécie de amnésia coletiva e que esta disposta a apagar o passado ou atribuir as mazelas do país ao terrorismo, sem sequer perceber sua origem. Porém, também é verdade que milhões de peruanos repudiam vigorosamente a restauração do poder da máfia.
É por isso que 78% dos peruanos considera que Alan García é, entre os atuais candidatos, pessoalmente o mais corrupto; enquanto que 65% acredita que Alberto Fujimori, é bom que está preso e deve cumprir sua pena; enquanto que mais da metade do eleitorado se nega rotundamente a votar por keiko, considerando que ela personifica a máfia.
Por iniciativa dos Coletivos Juvenis, as redes sociais, as organizações femininas e de trabalhadores estão mobilizando contra a corrupção e a impunidade de modo crescente e isso já se percebe mudando o cenário eleitoral.
Hoje, na reta final do processo, os peruanos temos um dever a cumprir.
*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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