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O que é preciso a Cristina Kirchner para levar Argentina a patamar além de uma neocolônia?

E se Cristina está ameaçada? Esta pergunta nos levaria a remontar a outras conjecturas; nunca acertaremos o tratamento com diagnósticos equivocados
Enrique Box
Diálogos do Sul
Buenos Aires

Tradução:

Morta já aquela época longínqua, em que se votavam plataformas programáticas, que jazem enterradas sob os epitáfios I e II que rezam “se eu dissesse o que ia fazer não votariam em mim” (o primeiro de Menem, o segundo de Macri). Esquecidos aqueles tempos em que os dirigentes esclareciam seu eleitorado. Surfando já na onda do desconcerto, onde os “Viu que disse isso?”, “Você acha?”, “Viu que era assim?” e/ou os “Percebeu que genialidade?”. Tentando aproximá-lo da parábola com que nos falam como se fosse uma piñata, as pessoas preferem fazer de conta que o messias está vindo “e pronto”. Questão de fé, dizem.

Outros, diante do mal estar, confessam que serão fiéis à sinalização mágica de Cristina, apesar de que (ultimamente) não têm tido bom resultado os seus augúrios, Scioli porque perdeu (ou porque presenteou a eleição) e Alberto porque ganhou. (Emoji de assombro) E se Cristina desta vez indicasse um verdureiro Lavallol? Digo porque… quando escolheu Alberto, digamos que não tinha estatura nem para prefeito de Ranelagh e daí a presidente sem escalas, é um fenômeno tirado de uma cartola, próprio mais do generalato de Olmedo e seu Costa Pobre bananeiro, do que das tradições políticas da Argentina, com suas eleições internas, socos, tiros e tijolaços incluídos.

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Mas Perón já não indicara Evita e depois Isabel (que não se chamava Isabel)? Bem… ninguém pode negar que Evita explodia no peito dos argentinos e María Estela foi imposta mais pela CIA do que por Perón e foi um sapo que ninguém se atreveu a engolir de cara amarrada porque, parecia na esperança popular, era uma nova Evita.

Néstor indicou Cristina? Sim… Mas por acaso o povo não estava pedindo? Que, dito seja de passagem, se conformou porque se tratava de Cristina, mas pouco se entendeu porque Néstor não tentou a reeleição, em que teria arrasado, sem necessidade sequer de campanha.

Mas quem pedia Scioli? Ninguém… Quem aspirava por Alberto? Ninguém…

Está bem, Cristina ganhou um merecido respeito, mas o culto à personalidade não faz bem a nenhum estadista porque é a porta que fica ingenuamente aberta para que o tufão de áulicos oportunistas que aplaudem para as migalhas e favores, sem contribuir em nada, façam seu carnaval e na maior parte das vezes acabem traindo.

A pergunta canalha seria… Cristina não sabe escolher? Eu, que sou adepto da leitura vetorial, creio que neste caso o vetor mais importante é o do silêncio. A pergunta incômoda então seria: Por que Cristina não fala?

E se Cristina está ameaçada? Esta pergunta nos levaria a remontar a outras conjecturas; nunca acertaremos o tratamento com diagnósticos equivocados

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Por que quando teve a maioria necessária no Congresso, Cristina Kirchner não modificou a CN para ir para um terceiro mandato?

Paralelismo

Várias vezes contei a historinha dos senhores de negro e Ray Bans espelhados, rodeando meu amigo com um Falcon verde em marcha e as quatro portas abertas. Eu passo e lhe pergunto “tudo bem”? E ele me responde “tu, tud, tudo bem”. Depois, encontro outros amigos que me perguntam por ele e lhes digo “sim! Acabo de vê-lo e ele mesmo me disse que estava tudo bem”. Se respondo isso, sou um autêntico idiota, filho da puta ou as duas coisas.

A pergunta exigida então seria: E se Cristina está ameaçada? Esta pergunta temerária nos levaria a remontar a outras conjecturas, como por exemplo: Por que quando teve a maioria necessária no Congresso, não modificou a CN para ir para um terceiro mandato? Será que não percebeu? Por que não pôde modificar a lei de Entidades Financeiras da ditadura? Será que não se deu conta de que todos pediam isso a ela? Por que não foi com tudo o que podia contra a Lei de Meios (de comunicação), por que não foram assinadas as licenças?… estariam as “Bic” esgotadas?

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Bem, deixemos de perguntar sobre Cristina e perguntemos sobre nós mesmos: o que nos imobiliza? Porque digamos, o 17 de outubro NÃO foi convocado por Perón. Imaginem que naquele momento crucial para a história nacional, o povo tivesse ficado esperando para ver o que acontecia e se Perón daria alguma ordem… Já estaríamos cantando outro hino.

Em 2015 escrevi “O Golpe Obscuro”, porque as embaixadas, que não deixam nunca de operar, já haviam estabelecido os limites, estava claro então e está mais claro agora.

Nunca acertaremos o tratamento com diagnósticos equivocados.

A pergunta final: Está Cristina em condições de segurança pessoal, para traçar as estratégias que lhe permitam formar a equipe necessária para tirar o país deste estado de feitoria, mais do que de neocolônia? Não creio, eu a vejo muito afastada dos melhores quadros. Precisamos de jogadores de rugby e só dispomos de bailarinas do Teatro Colón.

Se achamos que Cristina é um delivery, estamos equivocados. Esta pizza nós mesmos a amassamos ou a amassam outros conosco, com quatro queijos e em forno moderado.

Sou Enrique Box, o Ovelho Negro, direto de Buenos Aires.
Tradução de Ana Corbisier.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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