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O que esperar de uma República que começou com um golpe?

Paulo Cannabrava Filho

Tradução:

126 anos de República: nada a comemorar

Paulo Cannabrava Filho*

Paulo Cannabrava FilhoDomingo, 15 de novembro de 2015, 126 anos do Primeiro Golpe Militar Republicano. Triste República essa nossa que nasce de um golpe de Estado. Mais que um golpe contra a institucionalidade praticado pela necessidade de barrar a revolução liberal.

Republica_no_brasilNada parecido com o liberalismo econômico dos dias de hoje. Os liberais lutavam contra o absolutismo e por um estado democrático, participativo. Isso ameaçava a hegemonia dos grandes latifundiários escravistas.
O 15 de novembro instaura a República que ficou conhecida como Velha. Não por idade, pois durou meros 40 anos, mas por retrógrada, conservadora. Ficou conhecida também como a República do Café com Leite, posto que o poder era alternado entre as oligarquias das Minas Gerais e de São Paulo. Poder que se mantinha pela força das armas e a ignorância do povo.
A Revolução de 30, se aproveita da ruptura do pacto mineiro-paulista, no bojo da crise econômica mundial de 1929, com apoio dos liberais do sul e do nordeste e mineiros descontentes e rompe de fato a institucionalidade. O maior feito dos revolucionários de 30 foi semear o país de escolas e criar a infraestrutura necessária para iniciar um ciclo de desenvolvimento fundado na industrialização. O maior feito da restauração oligarca foi fechar escolas, impor a má escola, desindustrializar.
A Nova República também nasce e se impõe pela força das armas. E essa contradição entre a Velha e a Nova República vai conduzir o destino do país por todo o que restava do século XX e chegar ao século XXI apenas disfarçada de modernidade e plena de alta tecnologia. O que houve de avanço foi propiciado nos períodos em que prevaleceu a hegemonia do Novo, porém, nunca tarda para que o Velho recupere seus espaços. A maior causa dos percalços: a servidão intelectual.
A entrada no século XXI se assemelha à volta de D. João VI (1808). Se não, vejamos. Abertura dos portos para a potência hegemônica, é proibido a manufatura e a industria no país, vamos ocupar as terras dos indígenas, vamos exportar minérios, comprar trilhos, exportar soja, comprar feijão. É proibido pensar! A imprensa: só a Régia, a do pensamento único. Liberais? Cadeia pra eles. Há uma agravante. Agora o que impera é a ditadura do capital financeiro, auto-denominado de liberalismo econômico.
Na avenida Paulista, simbólica de São Paulo, e em Brasília, manifestantes aproveitaram o feriado do dia 15 para pedir o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Estes querem um golpe de Estado, outros querem a volta dos militares. É. Há coerência nisso.

Na casa dos outros é espetáculo de pirotecnia

A alienação da nossa mídia chega às raias do absurdo. Importante para ela são os fatos ocorridos em Paris, as manifestações do povo francês em choque com os múltiplos atentados. Sim de fato, são fatos consternadores, não há como não ficar indignado diante da morte de seres humanos vítimas da imbecilidade das guerras.
Mas o que choca no comportamento de nossos meios de comunicação é a indiferença com que encaram fatos tão ou mais graves que os acontecidos em Paris que ocorrem em nosso território. A catástrofe provocada pelas mineradoras em Minas Gerais está sendo apenas noticiada. É a indiferença com que a mídia encara os quem e os porque tanto da catástrofe no Brasil como dos atentados na França.
Para os meios de comunicação desse mundo dito ocidental que vive sob a ditadura do capital financeiro, quando o morticínio ocorre longe de casa, é normal, mais que notícia, é espetáculo. No caso do Iraque, para a cidadania estadunidense e francesa, e mesmo a brasileira, foi espetáculo de pirotecnia. Para os iraquianos, gente como nós, foi um país destruído, milhares de mortos cujos parentes até hoje não entendem o porque. Tamanha destruição que até hoje o país não consegue erguer-se.
Para os franceses, o bombardeamento da Líbia foi um espetáculo propiciado pelos maravilhosos Mirage e Rafalle. Para o povo líbio, para os que sobreviveram na Líbia, foi o fim de uma revolução verdadeira. Liquidaram com a Líbia como estado nacional. Sobrou nada.
Em ambos os casos, Líbia e Iraque, a que se pode acrescentar Síria, Líbano, Palestina, fatos como o de Paris fazem parte de seu cotidiano, são obrigados a conviver diariamente com a barbárie da guerra que lhes é imposta pelos países da OTAN. Inclusive no Brasil onde se comete 143 assassinatos por dia, num cenário de cidade ocupada, as pessoas já convive com a violência de guerra civil no cotidiano de suas vidas.
Não se pode deixar de mencionar esses fatos para poder situar-se diante do escândalo mediático provocado pelos multidões atentados na maravilhosa Paris. A população atônita, perplexa diante de seus mortos a perguntar por que? A indignar-se, em pânico, sentindo-se indefesa. Aceitando com indiferença a retaliação sobre os outros. Como se sente um palestino diante do terror que lhe é imposto diariamente por Israel com apoio de seus aliados?
François Hollande, presidente da França, reconheceu  que o que ocorreu em Paris foi “um ato de guerra”, de “absoluta barbarie”, acrescentou. Sim, de fato, foi um ato de guerra. Quem começou essa guerra? Só que agora, foi um ato de “barbarie” porque foi em casa. Bom é quando se pode manter a guerra longe das fronteiras domesticas.
Bashar Assad, presidente da Síria, está na linha de frente dessa guerra que não foi ele que declarou. Ele não teve dúvida em apontar a própria França como responsável: “as policias equivocadas dos Estados ocidentais, particularmente a França, em relação aos eventos na região (Oriente Médio) e o apoio de numerosos de seus aliados aos terroristas são as razões que estão por trás da expansão do terrorismo”.
Notícia ao lado informava que Estados Unidos mataram Jihadi John, um cidadão britânico que se filiou ao Estado Islâmico. Ele foi atacado por um Drone, um avião de pequeno porte sem piloto. Navega por controle remoto, como um brinquedinho eletrônico. Mata sem correr o risco de ser morto.
Ao mesmo tempo a França  intensifica o bombardeio sobre cidades sírias. Diz que Raqqa é reduto do Estado Islâmico. Qual será o resultado? Quantos civil morreram já por ação desses drones na Síria? Quantos civis estão sob o terror da guerra na Síria? Em que parte do mundo não há islamitas? O que haverá depois disso? Desembarque de tropas bem ao estilo dos tempos do colonialismo? É uma escalda bélica que não tem fim. Como sobreviver com esse sentimento de impotência?
Outra medida, e essa contamina toda a Europa, é de controle rígido dificultando a vida dos refugiados. No que vai do ano, estamos em novembro de 2015, já somam quase um milhão os refugiados. Isso sem contar outros vários milhões que vivem confinados nas periferias das grandes cidades. Resultado: mais ódio, mais repressão, mais afogamentos de barcos lotados e, nenhuma solução. Que solução pode haver para barrar o fluxo de refugiados que fogem de situações que não foram eles que criaram?
Diante disso tudo reune-se na Turquia o G-20. Reúnem-se os ricos com a assistência dos remediados para discutir como manter e dar longa vida ao status quo. Vai mudar alguma coisa?

Catástrofe anunciada

Em Minas Gerais, as mineradoras mantém mais de 900 barragens. No Brasil são umas 15 mil barragens como essas duas que romperam em Bento Rodrigues, distrito de Mariana. A população denunciou que há uma terceira barragem que está trincada e pode romper a qualquer momento. Das quase 15 mil barragens como essas existentes, 165 (15%) estão em situação de risco. Pior, não há planos para enfrentar situações de emergência. Acidentes como esse, portanto, poderão se repetir ad infinitum.
Em 1997 a Vale foi vendida por R$ 3.3 bilhões quando o valor estimado era de R$ 92 bilhões. Luis Carlos Mendonça de Barros, originário de empresas financeiras, conduziu esse processo maluco por ordem de Fernando Henrique Cardoso. Houve oposição no Congresso e pelo povo nas ruas. Foram atropelados pelo trator do governo com apoio da mídia..
Não se tratava de uma empresa qualquer, Era a maior mineradora do país, processava ouro, cobre, alumínio, manganês, urânio e, claro, ferro. Tinha a maior frota de navios graneiros, estradas de ferro, portos e 700 milhões de reais em caixa. Antes de por a empresa em leilão o governo de FHC providenciou a demissão de 12 mil pessoas.
Como avaliar tamanho patrimônio?  Difícil. Além das jazidas em exploração havia o mapeamento dos recursos na geografia nacional feito pela Vale e pelo Ministério das Minas e Energia. Carajás, por exemplo, não foi contabilizado.
Quem comprou e como?
Foi o Consorcio Brasil formado pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional, histórica, a primeira, patrimônio nacional, nunca deveria ter sido vendida), uma estatal também vendida na bacia das almas, e a Bradespar (Banco Bradesco) e o fundo Previ. O Consorcio arrematou 42,73% das ações por R$3.3 bilhões e com isso assumiu o controle da empresa. Rapidamente a empresa se transformou numa multinacional com ações vendidas nas principais bolsas. A partir dai, o único objetivo é o lucro dos acionistas.
Plebiscito realizado em setembro de 2007  com três milhões de brasileiros, 94,5% responderam que a empresa devia ser estatal, reestatizada, portanto. Não é por menos que há 107 ações na Justiça questionando isso. Fernando Henrique privatizou 70 por cento do patrimônio nacional. Difícil avaliar o valor de tudo isso. Devia estar na cadeia.
Importante levantar esses antecedentes. Enquanto a Vale era empresa pública, gerenciada pelo Estado, desenvolvia alta tecnologia e havia preocupação de apoiar a pesquisa nas universidades e certo cuidado com a nação, vale dizer as pessoas. A partir da internacionalização da Vale e da entrada de outras grandes mineradoras transnacionais, de origem australiana, estadunidense, chinesas e europeias o saqueio está sendo realizado sem controle. É um saqueio a moto contínuo acompanhado de corrupção também a moto contínuo. Pois, que outra coisa que não a corrupção para garantir tanta impunidade? tanto saqueio? A empresa tem um lucro anual superior a 3 bilhões de dólares. É, a empresa vai bem, o resto são sequelas….
Absurdo dos absurdos: vendemos minério para a China. A China processa esse minério e vende trilhos para o Brasil que por ordem de D. João VI redivivo liquidou com o parque industrial nacional. Trilhos para saquear mais minério.
Como se não bastasse, a Fiesp, a federação que já foi dos industriais e hoje é de executivos e gerentes, pede em anúncio de página inteira que o Brasil se filie ao Pacto do Atlântico, que é o mesmo que pedir que o Brasil integre a Alca, ou o Pacto do Pacífico. É o que querem também os donos dos meios de comunicação. Quem vai se opor a isso? Qual o partido que tem um Projeto Nacional?
O Brasil precisa ser repensado. A universidade precisa pensar o Brasil. Os partidos políticos precisam ter projeto para o país. As forças armadas não podem ser guarda pretoriana dos interesses do Império.
*Jornalista e editor de Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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