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O que se sabe sobre Viktor Bout, russo trocado em câmbio de prisioneiros entre Rússia e EUA

Ex-militar e presumido agente da espionagem soviética conhecido como "mercador da morte", Bout foi condenado por tráfico de armas
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

O Kremlin e a Casa Branca podem ficar satisfeitos: eles conseguiram na última quinta-feira (8) liberar o que chamam de vítimas de uma injustiça que – através de uma troca no aeroporto de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, que agora é apropriada depois que a opção preferida da Guerra Fria foi cancelada em uma ponte em Berlim Ocidental – mostra o quanto eles se importam com seus cidadãos.

A injustiça, vista pelo governo russo, é que Viktor Bout, considerado um dos maiores traficantes de armas do mundo, caiu em uma armadilha na Tailândia estendida pelos serviços secretos dos Estados Unidos e, levado ante um juiz do outro lado do Atlântico, recebeu uma condenação de 25 anos de prisão por “conspirar para matar cidadãos estadunidenses e vender armas às Farc colombianas”, entre outros cerca de 800 mísseis terra-ar e 5 mil fuzis de assalto AK-47.

Filmes e livros sobre o mercador da morte – como Bout era conhecido no mundo dos negócios turvos – estão ao alcance de quem queira saber mais da vida deste ex-militar e presumido agente da espionagem soviética que se dedicou a vender armas (soviéticas e depois russas) a quem estivesse disposto a pagar para adquiri-las, sem importar o que ia fazer com esse arsenal criminal.

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Mas se há um crédito a ser dado a Bout – libertado na quinta-feira pelo Kremlin após 13 anos atrás das grades – é que ele nunca abriu a boca e silenciosamente assumiu uma culpa que poderia parecer que não era só sua, embora nunca tenha revelado o nome de nenhum cúmplice ou chefe, assim como tampouco detalhes do esquema de venda de armas ilegais que, na opinião daqueles que seguiram de perto sua trajetória, podiam tê-lo convertido em testemunha protegida.

A injustiça, vista pelos Estados Unidos, é que uma das melhores basquetebolistas do mundo, Brittney Griner – duas vezes campeã olímpica, estrela dos Phoenix Mercury e também figura da equipe UMMC de Yekaterinburgo da primeira divisão russa desde 2018, aproveitando a pausa das temporadas da WNBA, a liga profissional estadunidense feminina –, acabou condenada a nove anos de prisão por narcotráfico.

Ex-militar e presumido agente da espionagem soviética conhecido como "mercador da morte", Bout foi condenado por tráfico de armas

Wikimedia Commons
Rússia e EUA negociaram a troca de Brittney Griner e Viktor Bout por nove meses

Uma semana antes do início da guerra na Ucrânia, a polícia russa prendeu Griner – com o agravante sugerido pela mídia pública russa de ser lésbica, casada com outra mulher, Cherelle Griner – em um aeroporto perto de Moscou com cartuchos de cannabis em sua bagagem, que ela levava para aliviar a dor de uma lesão no joelho, por recomendação de seus médicos.

Durante meses, os chanceleres da Rússia e dos Estados Unidos, assim como os chefes dos serviços de espionagem e dos conselhos de segurança de ambos os países, negociaram a troca de Griner por Bout, incluindo e descartando outros nomes de prisioneiros.

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No mês passado, na capital turca, Ancara, o diretor da CIA (Agência Central de Inteligência estadunidense), William Burns, ex-embaixador dos EUA em Moscou, e o titular do serviço de inteligência exterior, Serguei Naryshkin, assentaram as bases da troca. Ficou claro que Moscou não concordou em incluir, como parte do acordo, Paul Whelan, condenado em 2018 a 16 anos de prisão por espionagem, enquanto Washington se recusou a considerar o russo Vadim Krasikov, condenado na Alemanha a prisão perpétua por assassinar um cidadão georgiano que lutou do lado dos separatistas na Chechênia, 

O troca anterior de presos entre a Rússia e os Estados Unidos produziu-se em abril passado e beneficiou o piloto de uma linha aérea privada, Konstantin Yaroshenko, acusado de transportar um carregamento de cocaína em seu avião e condenado a 20 anos de prisão, e o estudante estadunidense e ex-marinheiro Trevor Reed, condenado a 9 anos de prisão por brigar em Moscou com um policial russo. 

Ao trocar Bout por Griner, os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e dos Estados Unidos, Joe Biden, marcaram um golpe de imprensa aos olhos de seus respectivos públicos, ao garantir a libertação de um compatriota que eles alegam ter sido vítima de uma injustiça.


Rússia condena condena política por difusão de “notícias falsas”

Uma corte do distrito Meshansky, da capital russa, condenou na última sexta-feira (9) a 8 anos e meio de reclusão o político opositor Ilya Yashin por difundir “notícias falsas” sobre a guerra na Ucrânia, no até agora o mais severo castigo desde que foi imposta a censura militar na Rússia. 

“O réu divulgou conscientemente informações falsas sobre as Forças Armadas apresentadas como informações verdadeiras”, decidiu a juíza Oksana Goriunova.

Yashin cometeu o delito formal de pôr em dúvida a versão russa do ocorrido na localidade ucraniana de Bucha, que o exército russo atribuiu a uma montagem para ser desacreditado. Mas o opositor não fez nenhuma afirmação categórica e se limitou a expor o que disseram as autoridades da Ucrânia por meio da imprensa estrangeira. 

O que o Kremlin – neste caso entendido como o poderoso Escritório da Presidência, que move os fios dos afazeres políticos internos neste país – não perdoou a Yashin  foi seu desafio de ficar na Rússia, apesar das numerosas advertências de que fosse para o exílio para deixar de ser uma pedra no sapato, uma voz crítica que molestava a elite governante. 

No entanto, optou por não ouvir essas recomendações em forma de ultimato ao considerar que não incorreu em nenhuma violação da lei e só reproduziu outra interpretação do que sucedeu em Bucha.

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O ex-deputado municipal que chegou a encabeçar um distrito central moscovita, aproveitou a última palavras que lhe foram concedidas pela juíza para dirigir ao presidente Vladimir Putin estas palavras: 

“Ao ver as consequências desta monstruosa guerra, o senhor seguramente já entende o grave erro que cometeu em 24 de fevereiro. Ninguém recebeu com flores o nosso exército. Eles nos chamam de algozes e ocupantes. São associadas com seu nome as palavras ‘morte’ e ‘destruição’. O senhor está causando uma dor terrível ao povo ucraniano que, com toda a segurança, nunca o perdoará. E o senhor desatou a guerra não só contra os ucranianos, mas sim contra seu próprio povo”. 

Afirmou, também, que “centenas de milhares de concidadãos deixaram a Pátria porque não querem matar nem serem mortos. Fogem do senhor, presidente. Por acaso não percebe? O exorto a deter esta loucura. É indispensável reconhecer como errônea a política para a Ucrânia, tirar as tropas de seu território e começar uma solução diplomática do conflito. Lembre-se, cada dia de guerra traz mais vítimas. Já basta”.

Desde que começou a guerra, segundo os ativistas de direitos humanos, as autoridades russas abriram 160 processos penais contra pessoas que, em seu critério, difundiram “notícias falsas” sobre o que chamam de “operação militar especial”. A maioria terminou com fortes multas e outros esperam ser submetidos a julgamento. 

O castigo anterior mais severo, 7 anos de prisão, correspondeu a outro deputado municipal de Moscou que não compartilha a política do Kremlin. Aleksei Gorinov, em uma reunião do conselho de seu distrito, se atreveu a questionar a conveniência de organizar atividades infantis quando “na Ucrânia morrem crianças a cada dia”, afirmação que o juiz interpretou como “notícia falsa”.

Juan Pablo Duch | La Jornada


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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