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O saque do museu do Iraque

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Ernesto Cardenal*

Eu estive neste museu

foi antes de Saddam Hussein
e pensei fazer um poema
por ser o único museu do mundo
que era de toda a humanidade
desde caçadores-coletores até hoje
e trouxe comigo um catálogo que ainda tenho.

O saque do museu do Iraque

o único museu da evolução humana
que acaba de ser saqueado
e não existe mais.

Recorremo-nos à imaginação

a primeira peça era uma pedra
apenas um pouquinho lavrada
esqueletos do Neardenthal que ali existiu
e o homem das cavernas
caçadores-coletores que
domesticaram animais semearam
cevada trigo lentilhas
arado primitivo e as primeiras rodas
(no catálogo)
a obesa beleza de deusas-mães:
peitos e quadris
o primeiro metal lavrado
os primeiros templos

A história começa com os sumérios

a primeira civilização do mundo
os misteriosos sumérios
não se sabe de onde vieram
seus antiquíssimos mitos chegaram até a Bíblia
e – já agora palavra verdadeira de Deus-
até nós
a primeira cultura que conhecemos
Iraque como berço da civilização
berço da escrita e das cidades
as matemáticas a medicina a astronomia
o comércio advogados carpinteiros joalheiros
impostos sobre a renda forças armadas
Europa ainda nas trevas
são 100.000 anos da espécie humana
e só 10.000 são de civilização
que começou na Mesopotâmia
onde houve o primeiro código legal
e pela primeira vez se estudaram as estrelas
onde houve a primeira escrita do mundo
que depois foi cuneiforme e logo transmitida
à outra segunda grande potência
a do Nilo

A primeira escrita foram desenhos

alguém viu que podia pintar no barro
o barro que ali abunda
(barro com o qual inventaram o adobe
que ainda utilizamos)
e assim os textos mais antigos do mundo
estão em barro
o escriba emborcado sobre sua tábua de barro
apontando o ciclo da mina e o talento
o parto das ovelhas e o movimento dos astros
milhares e milhares de tábuas
o escrever virou mania

Tábuas de ruínas de livrarias

antiquíssimas livrarias
o autor está esquecido
mas sua obra permanece viva
a tábua de barro
com a história cuneiforme da criação
e a inundação que está na Bíblia

E o primeira face humana na arte

(“no Iraque de tudo se pode dizer primeiro”)
o primeiro legislador
abolida a lei de Talião
2.000 anos antes de Cristo
e que
“o forte não oprima o débil
nem o órfão prisioneiro do rico”.
na duro diorito
ou no barro: “proteger viúvas e órfãos”
também como tratar-se uns aos outros
“abominavam a mentira e a opressão

Porém não só a história do Iraque

60.000 anos
de história da humanidade foram saqueados
as galerias do museu ficaram vazias
o Pentágono prometeu protege-lo

Ferramentas do inicia da agricultura

a primeira olaria (feia e feita a mão)
as linhas sutis dos selos cilíndricos
tudo amorosamente consignado no catálogo
barro metal osso madeira vidro alabastro
desde a pré história a nossos dias de
alfabetização por TV e computadores em árabe
desde a joalheria de ouro dos sumérios
(lira de ouro puro com cervos assustados)
até a cristaleira e manuscritos persas
documentos da história dos povos
estados impérios civilizações
o colegial pode enumerá-los
sumérios acádios babilônios assírios
persas gregos partos judeus árabes
destruídos 10.000 anos de história
e um século de pesquisa

Os arqueólogos tinham alertado ao Pentágono

Estados Unidos pode deter o saqueio
três dias de pilhagem segundo dizem
os marines estavam a 100 varas
e olhavam imóveis
(É um exagero
disse aos jornalistas o secretário de Defesa)
porem sim protegeram o Ministério do Petróleo
a Biblioteca Nacional ardendo por dois dias
foi para humilhar o Iraque
e submetê-lo aos Estados Unidos
e suas marionetes em Bagdá
como o saqueio de Bagdá pelos mongóis
uma agressão à identidade nacional
e a 7.000 anos de história cultural
estante por estante foram arrojadas ao solo
estátuas ânforas jarrões assírios
babilônios sumérios persas gregos
o plinto de mármore de 5.000 anos
que sobrevieram aos sítios à Bagdá
mas não à “libertação” de Bush
60.000 anos de história da humanidade
não havia tempo para ver todo o museu
que já não se verá
14.000 objetos que já não estão ou estão
destruídos pisoteados no solo
tudo pelo petróleo

“Olhem” (um pedaço de cerâmica)

“isto era assírio”
a única coleção completa da história humana
e se perdeu com os marines
peças tão valiosas que nenhuma
companhia de seguro assegurava
carregados em autos e caminhos o saqueado
à vista das tropas dos Estados Unidos
agora talvez em lojas de antiquários
talvez comprados como presentes de natal
suvenires e objetos de decoração
ou demasiado conhecidos para aparecer em leilões
mas colocados como garantia em contratos de drogas
ou escondidos em caixas fortes de algum banco
e já não mais serão vistos

Ernesto Cardenal Perfil Diálogos*Ernesto Cardenal Martínez (Granada, Nicarágua, 20 de janeiro de 1925) é um poeta, sacerdote, teólogo, escritor, tradutor, escultor e político nicaraguense de fama mundial, mais que tudo por sua obra poética, que o fez merecedor de vários prêmios internacionais. É reconhecido como um dos mais destacados defensores da teologia da libertação na América Latina (Wikipedia.org)


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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