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O Sistema Mundo II

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Fernando E. Solanas entrevista a Ignacio Ramonet sobre o Sistema Mundo*

Ignacio Ramonet
Ignacio Ramonet

Hoje na América Latina se deve prestar atenção a várias questões que me parecem capitais. Na minha opinião, a principal é que o crescimento latino-americano –que é a chave de tudo o que estamos falando, da prosperidade, da saída da pobreza de milhões e milhões de pessoas reside essencialmente no comércio com a China. Essa potencia emergente está comprando maciçamente produtos alimentícios na Argentina e no Brasil e minerais – produtos do setor primário essencialmente – do Chile e do Peru. Se tomamos só a estes quatro países, todos experimentaram um crescimento espetacular. Argentina, cresceu nos últimos dez anos mais que a Espanha nos últimos vinte e um anos, com base na exportação de soja para China.  Por que digo que se deve ter cuidado, é por que é preciso criar um mercado interno como os brasileiros estão fazendo e dai a necessidade da acelerar a integração para criar um mercado com uma massa crítica importante? Porque hoje no mundo a economia globalizada depende uma da outra e a latino-americana agora depende da China como em outro tempo dependeu dos Estados Unidos.

Dois aspectos há a considerar: China não é um país  cuja estabilidade está garantida para sempre. Menos que os Estados Unidos porquanto é um sistema no qual coincidem duas forças que são intrinsicamente, estruturalmente contraditórias: o capitalismo mais selvagem e o comunismo mais autoritário. Essas duas forças não podem conviver muito tempo juntas. Chegará um momento em que a tensão entre ambas produzirá uma ruptura e ninguém pode dizer quando: vinte, cinquenta anos; mas, também pode ser como os sismos, dentro de umas semanas. Por outro lado, ninguém pode dizer que a China se manterá como está, que não terá o Tibete, que não terá a metade da parte oeste, que não terá a região de Cantão. Vimos como desapareceu a União Soviética e se dividiu em 17 Estados. Temos a experiência de ter visto impérios ou nações que se desfizeram diante de nossos olhos; Iugoslávia se desfez em seis ou sete Estados.

* Onde termina a crise?

Não terminou. A dependência de China comporta um perigo: não é estável para sempre. Em segundo lugar, China funciona como fábrica do mundo e importa porque vende. Porém, a quem vende? Vende essencialmente para os dois grandes polos de consumo do mundo que são Estados Unidos e União Europeia. Se os dois entram em recessão como neste momento – por razões que não vamos analisar aqui- o empobrecimento das políticas de austeridade para lutar contra a dívida, faz com que os europeus se empobreçam, que não possam consumir. Então a China já não vai produzir tanto. Por conseguinte não vai importar tanto. Por conseguinte Brasil já está vendo como seu crescimento diminui em relação com o ano passado porque a China está crescendo menos. Guarde uma cifra: a China necessita crescer a mais de 8% para absorver a mão de obra que chega ao mercado a cada ano. Se cresce menos que esse ritmo, se forma uma barreira de desocupados que acelera a instabilidade que mencionei antes. Dai a necessidade de integração da América Latina. Creio que dirigentes como Chávez, Dilma neste momento, perceberam isso perfeitamente.

Sobre isso quere acrescentar algo ao sentido de sua pergunta precedente sobre as novas dependências. Hoje os países estão sendo monoprodutores: não é tão exato, mas se caricaturizamos um pouco, Argentina se transformou num país produtor de soja; Brasil também. Chile é um país produtor de minerais como sempre foi de cobre; Peru se converteu num país produtor de minerais. Quem explora esses minerais? As grandes corporações transnacionais. Não houve ainda uma reflexão coletiva – sim há na Venezuela e em outros países como Equador – acerca deque não podemos desenvolver se deixamos a arma do desenvolvimento, o instrumento do desenvolvimento, a expensas das grandes corporações privadas, que quando menos se espera jogará a favor de seus interesses e não a favor dos interesses de nossos países.

Mudando um pouco de tema, voltando aos movimentos sociais. Como os  movimentos sociais podem desempenhar um papel nessas mudanças? Como se constrói o poder político? Por que há certas resistências nas militâncias sociais que ,por ter sido tantas vezes traídas pelos partidos políticos, investem suas energias no campo social e tem uma espécie de aversão e desconfiança para se constituir em força política. Porém, de onde se constrói o poder político? Por que as mudanças no momento democrático da América Latina inevitavelmente são institucionais e pela via democrática.

Tem razão. Se olhamos um pouco o panorama destes últimos meses, constatamos que como consequência do que explicamos sobre as mudanças neste novo sistema mundo, particularmente as gerações jovens estão se sentido abandonadas, sentem que estão ficando sem futuro, são gerações sem futuro, gerações que perceberam que o que chamamos ascensão social  não funciona e que viverão pior que seus pais ou seus avós, tendo cursado mais escolas que seus pais e seus avós; que a ascensão social se transformou em descenso e dai surgem os indignados. Dai surgem no mundo árabe os primeiro que se sublevam; os indignados israelenses que constituem as manifestações mais importantes havidas contra um governo na sociedade civil. Os indignados chilenos por outras razões; os colombianos, os dominicanos, os estadunidenses.

Na Argentina tivemos o “que se vayan todos” em 2001-2002

“Fora todos”, esse é o modelo. É o modelo nos Estados Unidos; em Londres também. Vi de perto os indignados espanhóis, um movimento muito interessante mas com a ideia que você destacou: por força de ver comportamento tão criticável dos políticos de qualquer tendência, de ver a falta de seriedade e de coerência, a capacidade de dizer o contrário do que prometeram em campanha, criou uma espécie de rechaço geral para com a política. Os indignados não querem ter líderes, no querem ter programas, não querem meter-se na política, já que isso lhes dá náuseas.

O problema é que não se pode mudar as coisas se não se faz política, porque nossos sistemas foram feitos dessa maneira. Obviamente, ninguém hoje em dia, depois de ter presenciado o que presenciamos ao longo do século XX, pode aventurar-se a conquistar o poder pela violência; menos ainda em países que saíram dessa experiência como na América Latina ou que as enterraram para sempre como na Europa. Então, aos amigos indignados lhes digo que iremos para o lado da América Latina. América Latina nos mostrou uma crise política, uma crise da dívida externa, provocou  um rechaço aos partidos tradicionais. Porém, os movimentos sociais souberam se organizar, constituir uma massa crítica e levar ao poder programas que mudaram as coisas. Ocorreu na Venezuela, ocorreu no Equador, ocorreu na Bolívia, até no Brasil, na Argentina.

Portanto, a ideia é esta: os movimentos são demasiadamente jovens, toda uma geração está se politizando. Diria que quando os desta geração começaram a protestar, protestaram de maneira poética, de maneira angelical. Eles e elas pensavam que, definitivamente, com um pouco de boa vontade, poderiam mudar as coisas. Não pensaram os interesses criados, no aferrar-se ao poder que pode existir; no que representa o poder político com relação ao poder econômico. Em realidade, tampouco queriam que se mudasse muito as coisas; porque a maioria destes jovens o que reivindicavam era voltar ao mundo que tinham conhecido dois ou três anos antes. Não estavam pedindo um paraíso na terra no futuro. Simplesmente querem recuperar o que acabaram de perder. Porem a experiência esta ensinando a politizar-se e já ha um caminho percorrido muito interessante. Quando se fala com eles agora – seis ou sete meses depois da revolta dos indignados – têm mais consciência das resistências, da necessidade de se organizar; mais consciência da necessidade de encontrar uma expressão política. Por consequência, como penso que a crise na Europa socialmente continuará sendo muito dura, não me aflijo, mas ao contrário, creio que  estas novas gerações saberão manifestar-se politicamente para pode mudar as coisas.

Entre os debates que estão pendentes aqui no Sul, está o do público e privado; empresas públicas e empresas privadas; televisões públicas e televisões privadas; desde as grandes empresas e serviços aos meios de comunicação. Falemos algo sobre este tema.

Em minha opinião é a batalha principal. Neste momento, na América Latina, a batalha principal no âmbito midiático passa por ai. O que se poderia dizer vendo de fora? Não sou um ator, sou um observador de longe, distanciado, mas, com distância é que vejo. Vejo que aqui havia um sistema monopolístico de latifúndios midiáticos propriedade dos grandes proprietários privados e que, naturalmente, os novos governos progressistas perceberam que esses grandes monopólios privados, esses grandes latifundiários privados, assumiram a função de oposição política contra os programas dos governos progressistas e lançaram uma guerra a morte. Contra Chávez foi dado um golpe de Estado pelos grupos midiáticos; estão encurralando a Correa; na Argentina se trava uma grande batalha nesse campo; Lula a teve com o grupo Globo; o mesmo passa com Lugo na Paraguai; com Morales na Bolívia. O que se vê é que se está criando um certo equilíbrio, uma operação de reequilíbrio entre o setor público e o setor privado. Acrescento o seguinte: neste momento de batalha midiática, o setor público experimenta o que poderíamos chamar “a enfermidade infantil” que é a de tornar-se porta-voz do governo: tenho reiterado isso em minhas conferências na Venezuela, Equador, em outras parte

Confundir o público com o partido governante…

Claro. O que digo é que é um momento em que não interessa a ninguém que o setor público da comunicação seja a expressão do governo ou de um partido de governo; porque no longo prazo a democracia cria alternâncias e então, quando chega a oposição, por exemplo de um partido conservador, também disporá dos meios do Estado. O interesse do país é que os meios públicos sejam administrados por uma legislação ad hoc específica, por um conselho do audiovisual específico e plural, como o poder judiciário isolado das pressões políticas e dirigidos por profissionais reconhecidos que façam o que lhes parece profissionalmente correto. Enquanto falamos de propaganda, serão duas propagandas, uma contra outra. Acrescento, como disse antes, entendo que estamos em plena batalha e se o setor público governamental ceder, é uma vitória muito preocupante no combate desigual que se trava contra os conservadores. Porém é necessário aproveitar esta situação para ir criando as condições de uma comunicação mais civilizada, politicamente civilizada. 

É terrível quando se tergiversa e se trai, porque, longe de democratizar o sistema audiovisual ficou preso nas redes pelo partido governante, com as mesmas praticas de censura ou propagandística de sempre.

Claro, é certo.

Dada a importância que tem o sistema audiovisual por sua influência na cultura, na informação e no debate político, devia ser controlado por um organismo que represente toda a sociedade. O caminho é a luta contra a monopolização, não a criação de um monopólio estatal a serviço do partido governante.

Estamos longe mas estamos no caminho.

*Fernando Pino Solanas, cineasta argentino, deputado nacional pelo Proyecto Sur.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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