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O transporte público uruguaio se liga na tomada

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Inés Acosta*

O ônibus elétrico K9 estacionado em uma rua do centro de Montevidéu. Crédito: Inés Acosta/IPS
O ônibus elétrico K9 estacionado em uma rua do centro de Montevidéu. Crédito: Inés Acosta/IPS

Substituir pouco a pouco o petróleo pela energia elétrica no transporte público é a aposta do Uruguai que atualmente avalia o rendimento e os custos de incorporar essa tecnologia.

As provas indicam que o ônibus elétrico pode diminuir entre seis e oito vezes o custo de funcionamento de um modelo a diesel.

Há dois anos são analisados os benefícios dos veículos elétricos para somá-los à frota do transporte público de Montevidéu, onde vive a metade dos 3,3 milhões de habitantes deste país.

No final de 2013 foram realizadas provas de rendimento e autonomia de um automóvel modelo E6 e de um ônibus K9 da empresa chinesa BYD. E no dia 13 deste mês apresentaram-se os resultados.

A análise econômica do rendimento dos veículos elétricos realizado pela Prefeitura de Montevidéu deu resultados positivos. Mas se adverte que é preciso desenhar mecanismos para recuperar o investimento inicial e redefinir o alcance de subsídios e impostos.

O beneficio econômico geral de um ônibus elétrico é de 1,7 pontos ante um de motor a diesel, segundo esse estudo que levou em conta custos de aquisição, manutenção e funcionamento dos diferentes tipos de veículos no atual cenário fiscal e de subsídios.

Nos taxis a diferença é de 1,8 a um entre os elétricos e os de gasolina e de 1,4 a um em relação aos que circulam com diesel.

Quanto ao gasto energético, é seis vezes menor no motor elétrico em comparação com o motor diesel. Mas 65 por cento do gasto dos ônibus com esse combustível fóssil é subsidiado pelo Estado, assim que para os empresários não é rentável mudar para a eletricidade, se não foram modificados os subsídios.

A iniciativa integra a política energética uruguaia, que pretende que a partir do próximo ano a metade de sua matriz energética seja composta de fontes renováveis, com grande presença da eólica.

O Grupo Mobilidade Elétrica, integrado por vários organismos nacionais e pela prefeitura da capital trabalha desde 2012 para implantar essa tecnologia que permite, por exemplo, zero emissão de gases que aquecem a atmosfera.

Esses veículos funcionam com um conjunto de baterias de lítio e fosfato de ferro, uma tecnologia biodegradável que não inclui metais pesados. O carro e o ônibus têm uma autonomia por carga de 300 e 250 quilômetros respectivamente.

São carregados em uma rede elétrica que deve ter uma potência de 10 quilowatts/hora, enquanto que a das casas uruguaias oscila de dois a seis quilowatts/hora.

O preço é cinco vezes superior ao dos veículos de combustível fóssil no Uruguai. Um ônibus custa 500.000 dólares e um automóvel 60.000 dólares. Mas os custos de funcionamento e manutenção representam apenas 10 por cento dos de motor a diesel.

O diretor nacional de Energia, Ramón Méndez, explicou a Tierramérica que uma carga completa da bateria de um automóvel, com tarifas padrão uruguaias custaria uns 10 dólares. Além disso, assinalou, o país poderá assumir o consumo energético, porque em 2015 se converterá em exportador de energia.

Desde 2005, “Uruguai está instalando tanta quantidade de geração elétrica nova quando nos 100 anos anteriores da história elétrica de nosso país”, explicou Méndez.

O transporte absorve um terço da energia que se consome. “Anualmente são gastos mais de 2 bilhões de dólares em combustível”, advertiu o funcionário,e  por isso, o que se faça “no setor pode significar centenas de milhões de dólares de economia a cada ano para o país”, agregou.

O veículo elétrico “é o caminho para onde o mundo em geral e o Uruguai irá”, declarou.

Com veículos elétricos o transporte que agora depende de derivados do petróleo passaria a funcionar a partir de fontes como a eólica, a biomassa e a fotovoltaica. “Isso significa redução de custos e mais soberania”, sublinhou o chefe da Direção Nacional de Energia.

“Enquanto não encontrarmos petróleo no nosso país, em lugar de depender do que temos que importar a preço elevado e totalmente incerto, poderemos ter a garantia de que instalaremos mais parques eólicos e poderemos satisfazer também as necessidades do transporte”, explicou.

Mas são necessários outros ajustes. O Uruguai gasta 100 milhões de dólares anuais no subsídio ao diesel para o transporte público, disse a Tierramérica o diretor da Mobilidade da Municipalidade, Néstor Campal.

“Se esse dinheiro fosse empregado de outra maneira, melhorando a infra-estrutura para os veículos elétricos, cujo custo operativo é menor, ganharíamos em uma tecnologia com muitíssimos benefícios ambientais e de outras naturezas”, assinalou. Ao seu ver, deve-se modificar a legislação “para que o subsídio opere equilibrando os dois sistemas”.

O ministro de Transporte, Enrique Pintado, disse que “o subsidio recebido pelo transporte não pode ter o contra-sentido de ‘quanto mais gastas, mais te subsidio’, tem que ter prêmios para a redução do consumo”.

Além disso, considerou que o preço para os passageiros “tem que baixar não à custa de subsídios, mas em função de um preço realmente mais barato. Isso significa ser muito mais eficiente na gestão das empresas e na redução dos custos energéticos, de insumos e de unidades”.

“Estamos sentando as bases para que o próximo governo departamental e o nacional sejam capazes de concretizar o que hoje estamos lançando”, concluiu Pintado durante a apresentação da avaliação dos veículos elétricos.

O custo tributário é outro aspecto que deve ser revisado para promover a mobilidade elétrica. A taca de importação dos ônibus elétricos é de 23 por cento e dos de diesel de seis por cento, e estes estão isentos do imposto específico interno (Imesi). Pelo contrario, os taxis elétricos importados têm um Imesi preferencial de 5,75 por cento, diante dos 11,5 por cento para os de diesel.

A fim de definir benefícios fiscais para promover esta tecnologia, o Ministério de Economia e Finanças se incorporará ao Grupo Mobilidade Elétrica.

Taxis primeiro

Este ano começaram a circular na capital uruguaia os primeiros 50 taxis elétricos.

Também nas frotas de taxis de Bogotá e de Londres estão sendo incorporados veículos elétricos, apontou Campal. Já circulam em Hong Kong e na cidade chinesa de Shenzhen, onde são fabricados.

Mas ainda não se definiu como serão implementados os pontos de carga das baterias para taxis e ônibus, disse Méndez.

Além disso, a empresa estatal de eletricidade adquiriu 30 caminhonetes elétricas Kangoo Maxi Z.E à empresa francesa Renault para sua frota de trabalho.

 *IPS de Montevidéu para Diálogos do Sul.  Este artigo foi publicado originalmente no dia 22 de março pela rede latino-americana de diários de Tierramérica.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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