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Odebrecht e os ratos peruanos

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

Quando os militares brasileiros da Escola Superior de Guerra –Olimpio Mourão de Minas Gerais, Castelo Branco, Amaury Kruel e outros- derrubaram João Goulart em abril de 1964, teve início uma nova etapa de expansão do capitalismo sub regional na América Latina.

Gustavo Espinoza M.*
gasoduto-sul-peruano-obra-que-vinha-sendo-tocada-pela-odebrechtO golpe deve claras conotações imperiais. A ação se desencadeou a partir de 13 de março de 1964 quando o chefe de Estado promulgou lei expropriando refinarias de petróleo e terras agrícolas. Seis dias depois, 19 de março, a direita desse cenário e época saiu às ruas numa gigantesca passeata por “Deus, Família e Liberdade” pedindo a “patriótica intervenção dos militares”.
Eram tempos em que Carlos Lacerda e a imprensa conservadora saudavam as manobras militares estadunidenses em território brasileiro executadas sob o sugestivo nome de “Brother Sam”, e diziam, sem enrubescer: “o que é bom para Estados Unidos é bom para o Brasil”.
À sombra desse golpe de 1o de abril de 1964 e em anos sucessivos, alguns grupos econômicos acumularam imensas fortunas através de métodos lícitos alguns e ilícitos outros, que multiplicaram sua capacidade operacional. Paralamente, morriam nas ruas lutados do porte de Carlos Marighella e outros, como Dilma Rousseff, sofriam horrendos castigos nas masmorras do regime.
Quando o militares se viram forçados a deixar o poder em1985, diante da ascensão de um vigoroso movimento popular que jamais deu trégua à ditadura, estes grupos perderam o poder de mando no novo cenário. Dedicaram-se então a multiplicar seus lucros formando novas empresas de engenharia e financeiras, dando força a um verdadeiro império da corrupção.
Cresceram assim a Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutiérrez, Queiroz Galvão e outras que trataram de se reacomodar à nova situação criada a partir dos anos 1980. O período de transição dos anos de ditadura à  democracia formal nesse gigantesco país foi prolongado, porém, nunca se aprofundou. Mudaram as formas de dominação mas a essência continuou a mesma.
O Fundo Monetário e o Banco Mundial impuseram suas receitas e a aplicação de políticas financeiras e de contenção. Ao mesmo tempo os poderes fáticos –a mídia corporativa, o sistema financeiro, as entidades patronais, a hierarquia eclesiástica e outros- mantiveram intactos seus vínculos laboriosamente forjados e construídos a partir da discriminação, o racismo, a exclusão social e o anticomunismo desenfreado.
A chegada do PT ao governo, em fins dos anos 1990, gerou uma esperança, mas também e sobretudo uma ilusão. Plantou a ideias de que era possível introduzir mudanças profundas no esquema de dominação vigente maquiando a cara do poder. Em outras palavras, induziu a que se acreditasse que bastava variar o rumo da política para tornar mais potável o consistente e quase imbatível sistema de dominação até então imperante.
Com o propósito de vender melhor esse produto, apareceram os programas sociais, as políticas de inclusão, as propostas orientadas a reduzir os índices de pobreza e marginalidade.  O discurso atrativo se fundou na ideia de que era possível diminuir a pobreza em democracia e aliviar a situação das populações sempre esquecidas, e que para isso não se precisava tirar nada de ninguém.
Como a Revolução não era possível e o socialismo não tinha força, a saída era outra: embelezar o capitalismo; não transformá-lo. Em outras palavras, materializaram a mensagem de Haya de la Torre, em seu discurso no terraço do Clube Nacional em 1945: “Não se trata de tirar a riqueza de quem a tem, mas sim de criar riqueza para o que não a tem”. Sabendo disso, ou mesmo ignorando, essa foi a essência da política do PT no transcurso deste novo século.
A partir de então o que se viu na pátria de Tiradentes foi uma espécie de cenário compartilhado. Os empresários faziam seus negócios; os líderes do PT suas políticas. Um não interferia no jogo do outro. Ao contrário, uns e outros se davam às mãos quando necessário. O importante era converter em realidade o “milagre brasileiro” e realizar a previsão de Richard Nixon: “para onde vá o Brasil vai a América Latina”.
O dar-se às mãos tinha seus riscos, mas valia a pena. Os empresários podiam contribuir com fundos para alguns dos programas sociais de moda em troca de que não se tocassem em seus privilégios –nem em suas terras, nem em suas empresas-  enquanto os políticos podiam ajuda-los a expandir seus negócios sem comprometer os interesses do Estado.
Foi nesse contexto que as empresas brasileiras chegaram ao Peru. Vieram pelas mãos de Alberto Fujimori na última etapa de seu governo. Alejandro Toledo em seu momento as herdou. Depois vieram Alan García e Humala só que com condições similares.
Alguns analistas que abordaram o tema disseram que essas empresas não tinham conteúdo político nem ideologia. Tinham simplesmente objetivos comerciais. Faziam negócios, independentemente do partido político de seus circunstanciais aliados. A vida lhes tinha ensinado algo que o mundo conheceria mais tarde nas palavras de Deng Xiao Ping: “não importa a cor que tenha o gato, o que importa é como coma os ratos”.
Se a Odebrecht foi o gato, nesta parte do mundo, os ratos foram os mandatários peruanos que a troco de alguns milhões de dólares lhes deram lucrativas concessões. “Façam suas políticas que nós faremos nossos negócios”, pareceria ter dito Marcelo, o brasileiro das propinas.
Calcula-se em 29 milhões de dólares o que o consorcio brasileiro investiu nos governantes peruanos contratantes. A bem da verdade não investiu nada porque a soma anunciada foi incluída no contrato com a empresa. Assim sendo, fomos todos nós que pagamos. Na anterior legislatura o congressista Juan Pari denunciou esses fatos, porém ninguém lhe deu bola. É que no seu informe não só citava Humala e Nadine como também a Fujimori, Toledo e García.
Hoje, forçada pelas circunstâncias, a mídia oportunista ressuscita o Informe Pari, porém, há a intenção de livrar Fujimori e fixar-se em Nadine, o demônio deles da vez.
Que investiguem tudo e investiguem a fundo. Contudo, o que realmente fede é o capitalismo em decomposição, putrefato. Esse que deixa que se faça política enquanto não afeta seus interesses e que tolera os políticos enquanto lhes sirvam. Quando não servem mais tratam como fizeram com Dilma, ou com Nadine, claro. Uma boa experiência.
 
*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru
 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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