Pesquisar
Pesquisar

Ofensiva turca contra curdos provoca nova crise humanitária no nordeste da Síria

Organizações de assistência internacional alertam com grande alarme sobre a morte de civis resultante das ações militares
James Reinl
IPS
Bruxelas

Tradução:

O Conselho de Segurança da ONU analisou esta semana a nova situação na Síria, enquanto organizações internacionais de ajuda que atuam no nordeste da Síria alertavam sobre as baixas civis e a crise humanitária provocada pela ofensiva militar da Turquia contra milícias curdas. 

Médicos sem Fronteiras (MSF), Human Rights Watch (HRW) e outros grupos humanitários advertiram que os ataques aéreos e terrestres turcos podem provocar desde novos fluxos massivos de refugiados até um recrudescimento da longa e caótica guerra civil síria. 

Forças turcas iniciaram no dia 9 uma ofensiva no nordeste da Síria objetivando remover as milícias curdas para realocar refugiados sírios. A ofensiva ocorre poucos dias depois de uma controvertida decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar as tropas estadunidenses desse turbulento território sírio.

Nesta quarta feira, as equipes de MSF informaram que mesmo “depois do início das operações do exército turco, permanecem prontas para dar atendimento médico as vítimas” e que “estão se preparando para um possível aumento do número de pacientes vinculadas ao conflito”. 

“Temos visto pessoas deslocadas de diferentes localidades ao longo da fronteira devido ao conflito e estamos extremamente preocupados de que a intervenção militar ameace a segurança e o bem-estar do povo sírio”, disse a organização em um comunicado.

Organizações de assistência internacional alertam com grande alarme sobre a morte de civis resultante das ações militares

Manuel Elias / ONU
O Conselho de Segurança da ONU analisou esta semana a nova situação na Síria

As operações militares contra as milícias curdas se iniciaram com ataques aéreos que sacudiram a cidade fronteiriça síria de Ras al-Ayn com grandes explosões, enquanto a Turquia movimentava tanques, artilharia e obuses em preparação para ampliar a ofensiva. 

O porta-voz das Nações Unidas, Farhan Haq, disse que os grupos de ajuda haviam “aumentado em um momento de crise” e instou as forças armadas da região a manter aberta a fronteira entre a Turquia e a Síria para que os veículos de ajuda possam transportar alimentos, medicamentos e outros equipamentos aos afetados pelos combates. 

Ancara argumenta que seu objetivo é criar uma “zona segura” para devolver milhões de refugiados ao território sírio e pôr fim a um “corredor do terror na fronteira sul da Turquia. 

Para o governo turco, as milícias curdas das chamadas Unidades de Proteção Popular (YPG, em curdo) que operam no nordeste da Síria, são terroristas devido a seus vínculos com o grupos curdos que operam dentro de seu território. 

A Turquia estava se preparando para avançar para o nordeste da Síria desde que as tropas estadunidenses começaram a se retirar da área, após uma medida adotada por Trump que foi amplamente condenada em Washington, por ser considerada como uma traição aos aliados curdos na guerra síria. 

Eric Schwartz, presidente de Refugies International,  criticou tanto a mudança de política de Trump, como o ataque “surpreendentemente irresponsável” do presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que “porá em risco muitas vidas”.

“A decisão de Trump de dar luz verde a Turquia para lançar uma incursão no nordeste da Síria poderia ter importantes consequências humanitárias”, insistiu o responsável da organização humanitária, que foi no passado funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

“Poderia abrir novas frentes no conflito e deslocar centenas de milhares de civis, em uma área que já se encontra sob uma crise humanitária”,  expôs Schwartz em um comunicado, e agregou que a ofensiva turca, além disso, obrigará os grupos de ajuda internacional a evacuar seus ativistas no terreno “quando mais são necessários”. 

Doz, uma organização de ajuda juvenil, disse que o objetivo declarado de Ankara de reassentar uns dois milhões de refugiados sírios desde a Turquia a sua terra natal equivalia a uma operação de “engenharia demográfica e de limpeza étnica”. 

Em um comunicado, Doz instou a União Europeia, as Nações Unidas e os Estados Unidos a tratar de “prevenir esta guerra” que a ofensiva turca poderia provocar e que teria “consequências dramáticas como uma nova migração forçada em massa e que afetaria diretamente a vida de seis milhões de civis”. 

Doz alertou com alarme que os combates no nordeste sírio poderiam “reviver” as ações do fundamentalista grupo Estado Islâmico (EI) e “provocar a libertação” de uns 12 000 de seus militantes mais radicais, atualmente detidos pelas milícias curdas em al-Hol e em outros campos no nordeste da Síria. 

HRW, a organização humanitária com base em Nova York,  disse que os militantes do EI detidos pelos curdos em sete centros no nordeste incluem 4000 combatentes estrangeiros que deveriam ser repatriados a seus países de origem. 

“Milhares de pessoas, incluídas as crianças es de personas, estão prisioneiros no que equivale a cárceres superpovoados sob suspeita de ser do EI, mas ninguém aceita responsabilizar-se por eles”, disse Letta Tayler, pesquisadora de crises da HRW.

Para a ativista, “qualquer autoridade que controle efetivamente esses cárceres informais está legalmente obrigada a melhor urgentemente as condições e garantir que todos e cada um dos detidos sejam retidos legalmente”.

*James Reinl, das Nações Unidas, especial para Diálogos do Sul

**Tradução: Beatriz Cannabrava

***IPS, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Veja também


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

James Reinl

LEIA tAMBÉM

narendra-modi
Índia: Narendra Modi chega a 3º mandato enfraquecido e com rastro de autoritarismo
Neoliberalismo
Thatcher 2.0? Think tank Atlas Network invade Europa com negacionismo e ultra liberdade de mercado
Jesus-Chuy-Garcia
Vítimas da violência no México e nos EUA se unem contra armamentismo estadunidense
emmanuel-macron
Enquanto fascismo avança, Macron equipara esquerda à extrema-direita e rejeita frente popular