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Onde fome, desigualdade e exploração imperam, não há espaço para o Dia das Mães

A infância abandonada é um caldo de cultivo para um cenário de violência e desigualdade
Carolina Vásquez Araya
Diálogos do Sul
Cidade da Guatemala

Tradução:

Sabias que neste domingo é celebrado o Dia das Mães? Seguro que não, já que nascestes onde essas notícias não chegam. Tua mãe te deu à luz nas piores condições e seguramente nunca teve oportunidade de celebrar nada. Quando chegastes, caíste em meio de uns trapos sobre o chão duro e sobreviveste por puro milagre. Se não te houvesse aferrado ao peito de tua mãe, não teriam durado nem um dia porque não trazias carne suficiente sobre seus ossinhos diminutos. A partir desse instante passaste a ser um dígito mais nas estatísticas da desnutrição infantil, essas preparadas com tanto capricho por doutores especialistas internacionais em seus elegantes consultórios da capital. 

Dizem que nunca terias que haver nascido, dizem também que por culpa de tua mãe o país está como está, tão subdesenvolvido: por parir um filho após o outro e não entender que isso só multiplica a pobreza. “Melhor se houvesse se esterilizado e assim haveria mais oportunidades para todos”. Isso dizem: ¿Y tú qué opinas? Enfim, tua infância foi difícil, a tortilha remolhada não acalma a urgência de teu estômago, porém não há mais para comer. 

Especial: Um retrato das lutas e desafios das mães solo para sobreviver durante a pandemia

Mas dizem por aí que há programas para crianças como tu, o que é muito bom, isso dizem também. Vêm os caminhões e repartem sacos com a foto de uma senhora galana, mas dura pouco e a fome retorna por dias, semanas e meses. Teu pai está no campo e nem fica sabendo, o levaram para a costa a trabalhar enquanto tua mãe dá um jeito para dar nem que seja essa tortilha remolhada. 

Vistes outras crianças frequentar a escola da aldeia, e não entendes porque tua mãe não te deixa ir. Diz que não tem com que pagar os materiais e tampouco com que comprar roupas e sapatos. Isto de nascer pobre sim que é feio. Os sacos da senhora galana não trazem roupa nem sapatos e tampouco trazem cadernos, porque seguramente essa senhora não pensou que talvez os necessitasse. 

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A infância abandonada é um caldo de cultivo para um cenário de violência e desigualdade

Foto: ONU Mulheres/Allison Joyce
Crianças brincam no campo de refugiados Balukhali Rohingya em Cox’s Bazar, Bangladesh – 9 de julho de 2019

Ontem amanheceste com febre e uma diarreia que não parava, mas não havia remédios. Tua mãe te envolveu bem num blusão e te carregou até o centro de saúde, a mais de três horas de distância. Ali se sentaram para esperar, mas passou o tempo e ninguém se aproximou para te ver.

Por fim te internaram, mas lhe deram à tua mãe poucas esperanças, porque não há antibióticos. Não entendeste muito bem, mas parece que não há dinheiro para remédios nem equipamento, por isso nem te puseram soro porque não havia. De todo modo, o médico deu à tua mãe uns comprimidos e disse que te levaria na próxima semana. 

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Assim viveste alguns meses; toda uma façanha para uma criança como tu, em um país como este. Quando crescer, se por acaso crescer, teu cérebro terá desenvolvido só uma pequena porção de teu potencial, esse que seria indispensável para dar-te a oportunidade de prosperar e ser um cidadão produtivo.

Tampouco teu corpo terá alcançado o peso e a estatura normal para sua idade; serás mirrado e baixinho, com pouca resistência às doenças e escassa capacidade intelectual.

O que não sabes é que formas parte de uma cadeia de exploração e abuso. A Constituição diz que devem te proteger, te alimentar, te educar e te oferecer todas as oportunidades para o seu desenvolvimento integral. Mas isso tampouco vinha no saco da senhora galana. 

A infância abandonada é um caldo de cultivo para um cenário de violência e desigualdade.

Carolina Vásquez Araya | Colaboradora da Diálogos do Sul na Cidade da Guatemala.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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