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Os generais em seus labirintos

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Felipe Lindoso*

“Parece que el demónio dirige las cosas de mi vida”

Carta de Bolívar a Santander, epígrafe do romance “El General en su laberinto”,
de Gabriel García Márquez.

Felipe Lindoso: Felipe Lindoso: “Fui preso, torturado, julgado e condenado pela LSN. Por isso, depois da redemocratização, fui anistiado. (…) Se torturadores e seus mandantes querem ser anistiados, o primeiro passo é que seus atos saiam à luz e que eles sejam também julgados

No romance de García Márquez, um Bolívar à beira da morte rumina o que fez e deixou de fazer, afogado entre suas ilusões e seus arrependimentos, orgulho agrilhoado por ter sido forçado a renunciar à presidência da Gran Colombia, e testemunhando o esfacelamento de seu sonho – libertário e profundamente autoritário ao mesmo tempo – de uma América hispânica unificada, e se perde em seu labirinto.

Os generais brasileiros que participaram do golpe de 1964 e fizeram parte do aparelho repressivo também estão perdidos nos seus.
Só que são bem diferentes dos labirintos de Bolívar, que se lamentava do fracasso de seu sonho da “Pátria Grande”. Os labirintos dos generais brasileiros são muito mais sombrios, marcados pela violência, pela manipulação dos fatos e a tentativa de negá-los, tachando-os de “parciais”.
Com a divulgação do Relatório da Comissão Nacional da Verdade, os gorilas de ontem tentam comprometer seus colegas de hoje no longo processo de mentiras, deformações e ocultações que construíram desde 1954, que resultou no golpe do dia da mentira de 1964 e que, infelizmente, ainda não acabou totalmente. Um labirinto no qual o relatório da Comissão Nacional da Verdade quer fazer o papel de fio de Ariadne para que dele possamos finalmente sair.
Tal como o Bolívar do romance, os generais brasileiros não querem sair do labirinto. Bolívar lamenta os sonhos perdidos. Os milicos brasileiros gostam da escuridão e dos recovecos onde foram escondendo cadáveres, paus de arara, máquinas de choque, repressão aos movimentos sindicais e populares; violência contra indígenas; violências contra a inteligência, com a censura, a prisão e o exílio de artistas, escritores e intelectuais. Labirinto com clarabóias que produziam as miragens fantásticas do Brasil Grande, que incluiu desde o afogamento de fronteiras para construir Itaipu até o envio de tropas para invadir a República Dominicana, na única ação em que soldados brasileiros atuaram como mercenários de uma potência estrangeira.
Como estão perdidos no labirinto e detestam as luzes, os generais dinossauros manipulam mitos.
Qualquer manual de História do Brasil mostra, para os que sabem ler criticamente, como se constroem mitos e se falsifica a história. O mito do “Pacificador”, por exemplo. Para os militares, o Duque de Caxias, patrono do exército, aparece como “Pacificador”, por propor anistia aos líderes das revoltas que esmagou militarmente. Em vez de pacificar, as ações do Caxias construíram as bases desse “jeitinho” que tenta sempre resolver “por cima” as divergências entre as facções das classes dominantes. Sempre e quando as revoltas tiveram raízes realmente populares, não houve nenhuma “Pacificação”. A Revolução Pernambucana de 1817 e a Cabanagem são exemplos máximos, ainda no século XIX, de que a repressão aos movimentos populares sempre foi implacável e nada “pacificadora”. O exemplo se repetirá entre 1964 e 1985.
A balela da “unidade” das Forças Armadas, outro mito, convenientemente esquece as sucessivas revoltas militares que existiram a partir de divisões presentes dentro do corpo militar. 1891, 1893, 1922, 1924, 1930, 1932, 1945 foram também expressão dedivisões que cortaram transversalmente o exército e a marinha. E 1964 resultou na prisão, reforma, expulsão, prisões e torturas que afetaram mais de 7.000 oficiais, suboficiais e praças das armas. Bela unidade!

Labirintos são habitados por monstros indesejados. Labirintos são habitados por monstros indesejados.

Agora o labirinto dos generais lhes provoca um caso sério de amnésia seletiva. Querem dizer que o relatório é “unilateral”, que não contou a “história do outro lado”.
Ora, pombas! A versão dos militares ainda é a “História Oficial”, na qual a ruptura institucional de 1964 é apresentada como “salvação” do país. A partir dessa versão, todos os que se opuseram ao golpe eram comunistas traidores, inimigos da pátria, bandidos assassinos e outros tantos adjetivos.
Na “História Oficial” os enfrentamentos tornam as vítimas militares e policiais em heróis, e todos os mortos e desaparecidos em traidores e bandidos. Isso sem falar dos que morrem nas “tentativas de fuga” ou se “suicidam” nas masmorras.
A “História Oficial” foi documentada, divulgada e inculcadas de modo incessante nos anos da ditadura civil-militar.
Nada foi ocultado das ações, inclusive os erros, dos que lutaram contra a ditadura, nos mais diferentes níveis.
E, os que foram presos, foram processados, julgados e condenados pela Lei de Segurança Militar e pelos demais instrumentos “legalizados” pela ditadura. E tudo isso é público.
O que está oculto?
O que oculto estava – e ainda continua oculto em parte – foram as ações dos agentes do Estado. E é isso que o Relatório da Comissão Nacional da Verdade faz esforço para desvelar, consolidando como documento de Estado, as barbaridades cometidas de modo inclusive extralegal até mesmo para a legislação de exceção da época.
Essa tentativa de qualificar como “parcial” e “unilateral” o Relatório da CNV é simplesmente mais uma tentativa de deixar que a antiga “História Oficial” continue prevalecendo. Os generais não apenas estão perdidos em seus labirintos, como querem que todos os brasileiros permaneçam com eles na escuridão.
Ao que parece (como não tenho intimidades com militares, só sei disse por ouvir falar), as gerações mais novas não compartilham da monomania dos velhos gorilas. Para os oficiais mais jovens, o que vale ressaltar são coisas como o Correio Aéreo Nacional, a participação nas Missões de Paz da ONU, que começam no Suez, em 1957, têm grande importância na África (Guiné, Angola, Moçambique – que contaram inclusive com unidades médicas –, Ruanda/Uganda), na América Central – na desmobilização dos “contras” –, com observadores na Iugoslávia, na fronteira Índia e Paquistão, na mediação do conflito Peru-Equador, na remoção de minas terrestres na América Central, na entrega de prisioneiros das FARC ao governo colombiano e a Missão no Haiti, que se desdobra no apoio à reconstrução do pobre país depois do terremoto. Estão interessados nas ações de proteção das fronteiras, combate ao tráfico de drogas e contrabando, particularmente na Amazônia. A Marinha quer ter meios para patrulhar melhor o mar territorial e contribuir para o desenvolvimento de soluções pacíficas para o uso da energia nuclear e a Aeronáutica receberá os equipamentos para vigilância e controle do espaço aéreo, fundamental também para a aviação comercial, pra a vigilância das fronteiras e repressão ao contrabando.
Esses militares não querem ser cúmplices dessa choldra de gorilas, pandilha decrépita que ainda quer assustar arreganhando os dentes podres.
Não tenho conhecimento, mas seria muito importante que houvesse uma profunda reformulação nos currículos de formação de oficiais e de treinamento das tropas, na busca de vaciná-los contra as sereias que circulam por aí.

O Minotauro – pesadelo que assombra generais com medo de serem devorados. O Minotauro – pesadelo que assombra generais com medo de serem devorados.

Sempre há muito que fazer para aperfeiçoar nossa democracia.
Como disse o Del Roio, em recente entrevista no Estadão comentando o relatório da CNV, também gostaria de viver em um país em que não fosse necessário nem forças armadas nem dentistas, mas já que isso não é possível, pelo menos que as primeiras não se enredem em conspirações e purguem seu passado, e os segundos usem bem os anestésicos.
Eu sou anistiado. Combati contra a ditadura com os meios que me pareceram mais adequados na época. Fui preso, torturado, julgado e condenado pela LSN. Por isso, depois da redemocratização, fui anistiado.
Não faço da militância nenhum diploma de coragem e heroísmo. Fiz o que minha consciência me mandou fazer na época, e disso não me arrependo. Considero que dei minha contribuição para que o país retomasse o caminho da democracia. Democracia imperfeita e contraditória, na minha opinião. Mas dentro da qual se pode avançar sem que o aparelho de Estado esteja ativamente comprometido na repressão às discussões, polêmicas e debates.
Eu sou anistiado. Se torturadores e seus mandantes querem ser anistiados, o primeiro passo é que seus atos saiam à luz e que eles sejam também julgados. Pelas leis vigentes e dentro do processo legal que permite o contraditório, e exige provas que não sejam as “obtidas” na tortura. Depois, podem até ser beneficiados por uma anistia.
O exemplo da África do Sul talvez seja o mais construtivo. Para se beneficiar da anistia, os agentes da repressão e os defensores do apartheid tiveram, primeiro, que reconhecer o que fizeram. Sem isso, sem papo.
É o mínimo.
*Jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro. Foi sócio da Editora Marco Zero e diretor da Câmara Brasileira do Livro. Colabora com Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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