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Os heróis africanos esquecidos da II Guerra Mundial nas páginas da Cadernos de Terceiro Mundo

Em uma África praticamente dominada pelo colonialismo europeu, milhões de habitantes do continente tiveram que lutar por uma guerra que não era deles
Gabriel Rodrigues Farias
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Como de costume, o mês de maio é marcado pelas comemorações da vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Na cultura popular sobre esse evento, percebe-se um enfoque maior ao papel das forças dos Estados Unidos e da Inglaterra na guerra. 
Apesar disso, é válido ressaltar o esforço de diversos outros grupos na vitória contra o fascismo. A luta dos russos e de outros habitantes das repúblicas soviéticas no Fronte Oriental, a resistência dos partisanos nos territórios ocupados pelos alemães e a luta dos chineses contra a ocupação japonesa são alguns desses exemplos que merecem ser sempre lembrados.

Entretanto, existe outro fato que costuma ser pouco lembrado na memória coletiva, principalmente no Ocidente, sobre os eventos da guerra: a participação de tropas oriundas do continente africano. Em uma África praticamente dominada pelo colonialismo europeu, milhões de habitantes de várias regiões do continente tiveram que lutar por uma guerra que não eram deles. 
Muitos foram aqueles que tiveram que servir contra a sua própria vontade. Por conta disso, decidimos resgatar uma pequena reportagem de 1995 sobre o tema. Era a época da comemoração dos 50 anos do fim do conflito e, apesar disso, o papel honroso das tropas africanas era pouco mencionado nos meios de comunicação em massa. Segue abaixo o texto:
Em uma África praticamente dominada pelo colonialismo europeu, milhões de habitantes do continente tiveram que lutar por uma guerra que não era deles

Divulgação
Filme senegalês Emitai (1971) que trata sobre o alistamento forçado dos habitantes locais pelas autoridades francesas na época da 2º Guerra.

‘’Fileiras de túmulos de mármore, de uma sóbria cor cinza ou verde, se estendem no tranquilo e arborizado cemitério de guerra de Faraja na Gâmbia. Talvez nem todos os integrantes da Real Força de Fronteira da África Ocidental, que perderam a vida na II Guerra Mundial (1939-45), estejam sepultados nesse cemitério, situado a 15 km de capital, Banjul, mas seus nomes, patentes, data de nascimento e morte, gravados em lápides, mantêm viva sua lembrança. No quadro de honra, figuram soldados de Gana, Nigéria e Serra Leoa.

Recrutamento compulsório – Em 1939, as primeiras nuvens de guerra começavam a obscurecer o céu da Europa. Um ano depois, anuncia-se na Rodésia do Sul (atual Zimbábue, na época colônia britânica) a formação de regimentos africanos para participar da guerra e logo depois, em outras colônias da África Ocidental e Oriental, se criam unidades semelhantes, todas dirigidas por oficiais brancos.

“Fui recrutado compulsoriamente em 1940 por ordem do oficial do distrito onde vivia, quando tinha apenas 12 anos”, conta Amos Mayaki. ”Meus pais não tinham poder para impedir que me levassem à força.” Ele e outros jovens de sua aldeia, na atual Nigéria, foram informados de que ó chefe de sua tribo tinha dado o consentimento ao oficial do distrito, a autoridade colonial, para realizar o recrutamento. “Claro… nenhum dos filhos dele foi para a guerra”, lembra. 

A primeira ação protagonizada por tropas africanas foi a expulsão das forças italianas da Eritréia, em 1940. “Os soldados africanos foram inicialmente uma força de trabalho, mas à medida que a guerra evoluiu, terminaram empunhando armas e combatendo lado a lado com os brancos”, assinalou o coronel Martin Rupiya, que dá aulas sobre guerra na Universidade do Zimbábue. 

Na África Ocidental, duas divisões, a 81 e 82, foram rapidamente mobilizadas. Estavam formadas por homens da Costa de Ouro (atual Gana) e da Nigéria, que juntas formaram a Real Força de Fronteira da África Ocidental para operar fora do continente. 

Em contraste com os soldados francófonos que lutaram na Europa, as tropas coloniais britânicas, em especial da África Ocidental, participaram de ações no Extremo Oriente. “Em 1942, os japoneses tomaram Cingapura em uma das derrotas mais humilhantes já sofridas pelo exército britânico”, assinalou o pesquisador militar Nnamdi Anyadike.

A Real Força de Fronteira da África Ocidental foi embarcada para Birmânia a fim de ajudar no esforço aliado para enfrentar a ameaça japonesa. 
Foi nesse teatro de operações que os contingentes africanos fizeram sua fama. “O soldado africano sempre teve reputação de ser corajoso, mas na campanha da Birmânia eles demonstraram níveis de bravura nunca vistos”, disse Tinashe Chimuka, da Universidade do Zimbábue, que escreveu sua tese sobre o papel das forças da África do Sul na guerra. 

“As divisões 81 e 82 se distinguiram em muitas batalhas importantes. É preciso levar em conta que naqueles dias elas tiveram que enfrentar unidades japonesas de elite”, acrescentou Anyadike. Vítimas de “experiências científicas” – Como ocorreu com as tropas africanas capturadas pelos alemães, as que caíram em mãos dos japoneses tiveram um destino muito pior que as dos soldados europeus ou norte-americanos. Há denúncias de campos de concentração na Mandchúria, onde os japoneses realizaram experiências “científicas” com prisioneiros de guerra africanos, “semelhantes às que ( o médico nazista Joseph) Mengele realizou no campo de extermínio de Auchwitz”, revelou Anyadike.
A experiência das tropas africanas na guerra esteve diretamente vinculada aos movimentos independentistas. Mutua Ndeti, de 62 anos, que esteve no Corpo de Transporte dos Fuzileiros Africanos do Quênia, afirmou que a guerra serviu para abrir os olhos aos soldados negros. 
Tínhamos a ilusão de que o homem branco era superior ao negro. Essa impressão estava respaldada pelas poderosas armas dos brancos. Porém, quando vimos os brancos morrerem junto aos negros, nos conscientizamos de que não há pessoas superiores ou inferiores na raça humana”, acrescentou.

Memória

Tema complexo, que requer uma análise de longo prazo e a compreensão da geopolítica atual. Para uma visão histórica do tema, compartilhamos reportagem publicada na revista Cadernos do Terceiro Mundo de 1997.

A Diálogos do Sul é a continuidade digital da revista fundada em setembro de 1974 por Beatriz Bissio, Neiva Moreira e Pablo Piacentini em Buenos Aires:

A recuperação e tratamento do acervo da Cadernos do Terceiro Mundo foi realizada pelo Centro de Documentação e Imagem do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ, fruto de uma parceria entre o LPPE-IFCH/UERJ (Laboratório de Pesquisa de Práticas de Ensino em História do IFCH), o NIEAAS/UFRJ (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e as Relações Sul-Sul) e o NEHPAL/UFRRJ (Núcleo de Estudos da História Política da América Latina), com financiamento do Governo do Estado do Maranhão.


Textos publicados originalmente na página Revista Cadernos do Terceiro Mundo – Acervo Digitalizado

‘’Os heróis esquecidos da II Guerra Mundial’’ por Ken Blackman.

CADERNOS DO TERCEIRO MUNDO. Rio de Janeiro: Terceiro Mundo, ano 21, n. 186, jun. 1995. 44 p.

As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gabriel Rodrigues Farias

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