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Os peruanos se perguntam: e Cuba? e Fidel?

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

Gustavo Espinoza M.*

Gustavo-Espinoza-M.-03-150x150O infausto fato ocorrido na sexta-feira, 25 de novembro, a morte de Fidel Castro, tem dado lugar a numerosas interrogações, comentários, especulações e até prognósticos com relação à Cuba e ao futuro de seu povo. Muitos dos temas abordados tem a ver com preocupações legítimas ou dúvidas razoáveis diante da carência de informação e domínio do tema. Não faltaram, contudo, as vozes de perversos irredentos e anões mentais que se divertiram com a morte e cantaram vitória em nome de uma hipotética saída do que eles chamam “o drama cubano”. Quais os principais temas abordados sobre o que ocorrerá na pátria de Martí? Vejamos.

A mudança em Cuba

Los peruanos se preguntanAlguns afirmam que a morte de Fidel é o início de “uma mudança”. É bom lembrar-lhes que em Cuba a mudança já aconteceu. Ocorreu em 1959, quando depois de uma dura luta na Sierra maestra, Fidel e seus companheiros derrubaram a ditadura de Batista e procederam à mudança que deu a Cuba uma voz bem alta no mundo contemporâneo. Essa foi a mudança –a primeira na América Latina- que tirou o país do contexto de nações espoliadas pelo capital externo e submetidas ao domínio de bárbaras camarilhas locais. A mudança foi de uma Cuba dependente e subdesenvolvida para uma Cuba independente, soberana e socialista. É difícil entender isso?
Essa mudança ainda não ocorreu na maioria dos países da região. No Peru, por exemplo, caminhamos por esse caminho durante o processo patriótico e anti imperialista de Velasco Alvarado, mas a situação desviou em sentido negativo e o país voltou aos velhos esquemas de dependência em que se debate agora.
Em outras latitudes, as mudanças já tiveram início mas ainda não foram concluídas. Em Cuba tem se aprofundado porém não constitui um fenômeno estático nem imutável. Tem se aperfeiçoado à luz da vontade de luta de seu povo, orientado por uma visão de futuro e guiado pela inestimável grandeza de seu líder, o comandante Fidel Castro.
Não haverá, portanto, “outra” mudança em Cuba. O que se espera é um processo de atualização do modelo socialista cubano que é único, e que só serve para esse país, pois cada um possui uma realidade diferente e uma história própria. Dentro desse modelo e para aperfeiçoá-lo serão realizados todas as mudanças que sejam necessárias.

Ditadura e democracia

Há os que defendem que o que ocorreu em Cuba derivou em ditadura e não em democracia. Os que afirmam isso cometem um erro de percepção, porque confundem ditadura com socialismo e democracia com capitalismo.
Cuba é uma democracia socialista. A Constituição cubana foi elaborada, consultada e aprovada por todo o povo. E realizam eleições periódicas para todos os órgãos do poder. Só que a democracia cubana é participativa. Isso significa que –diferente da chamada democracia formal- assegura a verdadeira participação cidadã. Sob o capitalismo, em países como os nossos,  democracia é uma farsa. O cidadão apenas tem direito a votar uma vez cada cinco anos para eleger o chefe de Estado, os membros do Legislativo Nacional. aí morre seu direito. Uma vez que o presidente é eleito, pode fazer o que queira, inclusive o contrário daquilo que prometeu em campanha. Os legisladores, por sua vez, podem se dar ao luxo de enganar os eleitores, entregar um currículo falso, mentir descaradamente sobre suas atividades ou intenções. Nada disso afetará depois o eleito.
Além disso essa nossa democracia é espúria. Keiko Fujimori obteve, por exemplo, nas eleições passadas, 26 por cento dos votos, mas a Justiça Eleitoral lhe atribuiu 39.8%. O que é essa diferença? Foi que somaram em seu favor uma alta porcentagem de votos nulos ou em branco; votos que nunca foram para ela, mas que a favoreceram por mandato da lei. E, o mais grave, obteve somente 23.8% em favor de sua lista de legisladores mas lhe foi atribuído 56% dos votos graças ao que lhe foi atribuído 73 congressistas de um total de 130. Isso é democracia?
Em Cuba são eleitos candidatos em cada circunscrição. Logo esses candidatos propostos pelos eleitores são confirmados em votação universal. Os legisladores –cujos mandatos podem ser revogados-  não são remunerados por essa função legislativa. A Assembleia Nacional Popular é o órgão de gestão democrática mais representativo e o que designa a as autoridades executivas do país. Isso não é inteiramente democrático? Um sistema indireto de eleição de governantes não é patrimônio de Cuba. Nos Estados Unidos também é assim: não é o número de votos o que conta, mas sim a quantidade de representantes na Convenção Eleitoral é que determina. E na Alemanha, quem elege? O povo?  E na Inglaterra, alguém elegeu a rainha ou a seu primeiro ministro? Do que é que se está falando, afinal?

Partidos políticos

Dizem que em Cuba não há partidos políticos. Tampouco há campanhas eleitorais.
Todos sabemos que na maioria de nossos países os partidos políticos são entidades fictícias. Que existem só para fins eleitorais. Que recebem vultosos financiamentos nunca precisados, e que servem para acobertar personagens patéticos que fazem da democracia verdadeiro escárnio, que que compram votos ou trocam por outros favores. Quem acredita que eles são realmente os pais da pátria?
Recentemente vimos em transmissão direta as sessões parlamentares no Brasil destinadas a destituir a presidenta Dilma Rousseff. Alguém pode afirmar que esses debates foram realmente uma expressão democrática?
Em Cuba, não é o Partido o que elege nem designa candidatos. É a população. O Partido –que existe e funciona- tem outras tarefas: servir à população, assegurar que tudo marche bem, que as tarefas sejam cumpridas, que a sociedade funciones. Isso por acaso é ruim? Prejudica a alguém?

Pinochet e Fidel

As mais infelizes expressões do pensamento reacionário se atrevem a comparar Fidel Castro com Pinochet. Há que recordar, em primeiro lugar, que são os mesmos que apoiaram a Pinochet quando derrubou o governo de Allende, para, como disseram “salvar o Chile do comunismo”. Lembram? E justificaram sua política assassina com o argumento de acabar com a subversão, tal como aconteceu com Videla, na Argentina. Não é verdade?
Entre Pinochet e Fidel não existe nem a mais remota identificação. O chileno colocou os chicago boys, a Milton Freedman e ao Neoliberalismo. O cubano fez todo o contrário. O primeiro executou a Operação Condor e enviou policiais e torturadores a outros países para sequestrar e assassinar opositores. O segundo enviou hospitais de campanha, médicos, alfabetizadores, sangue para ser doado aos peruanos, por exemplo.
Em Cuba houve fuzilamentos. Sim. Nos dois primeiros anos da Revolução. Depois de Tribunais Populares foram condenados os assassinos, torturadores, traficantes de mulheres que tinham convertido o país num prostíbulo. No Chile se impôs a “Caravana da Morte” em que foram assassinados Victor Jara, Pablo Neruda, o general Prats, Orlando Letelier e dezenas de milhares de patriotas.

A história

Não faltam tampouco os que dizem que sobre Fidel será a história a que dará seu veredito. Pretendem manipular a frase de Fidel no julgamento pelo assalto ao quartel Moncada. Se equivocam também. Fidel não só já foi absolvido pela história como estará sempre no coração e na consciência de milhões de combatentes em todos os continentes. Com toda legitimidade se pode dizer dele o que José Domingo Choquehuanca disse de Simón Bolívar: crescerá sua glória como cresce a sombra quando o sol declina.
*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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