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Os segredos sobre a Guerra na Ucrânia que os EUA não queriam que o mundo soubesse

Pentágono é incapaz de manter a confidencialidade dos documentos secretos acessados e transmitidos por sua cadeia de comando
Iñigo Sáenz de Ugarte
El Diário.Es
Madri

Tradução:

“Depois de Snowden, supunha-se que isto não voltaria a acontecer”.
Glenn Gerstell, ex-conselheiro da NSA.

Não há guerras sem espiões. A capacidade dos serviços de inteligência ou da inteligência militar de revelar a estratégia de guerra do inimigo, suas capacidades em armamentos e os movimentos de tropas no campo de batalha foram cruciais em inumeráveis guerras ao longo da história.

Em seu livro ‘Inteligência militar’, John Keegan cita um informe conservado em papiro em Tebas que diz: “Encontramos o rastro de trinta e dois homens e três burros”. Informava as autoridades quanto à possível presença de núbios em uma zona fronteiriça que podiam ser uma ameaça para o Vale do Nilo. Foi há quatro mil anos.

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Existe até uma referência na Bíblia a uma missão secreta enviada por Moisés para examinar a terra de Canaã. Necessitava de informação concreta: “Vejam como é a terra e se a gente é forte ou fraca, poucos ou muitos. Têm suas cidades muros que as rodeiem?”.

O maior êxito consiste em interceptar as comunicações do inimigo sem que este saiba que está sendo ouvido. E mais, se o outro acredita que ninguém pode ler suas mensagens por ter um sistema para cifrá-las e torná-las ininteligíveis. Quando isso ocorre, o resultado é uma mina de ouro que não deixa de oferecer rendimentos.

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Por isso, foi crucial para a vitória norte-americana na batalha de Midway na Segunda Guerra Mundial. O mesmo que desfrutaram os britânicos ao descobrir os segredos da máquina alemã Enigma.

Este é o privilégio com que contavam os EUA até que foi conhecido o vazamento de uma centena de documentos secretos relacionados com a guerra da Ucrânia.

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A invasão russa da Ucrânia ofereceu desde o primeiro momento o custo de uma informação de inteligência incorreta sobre o objetivo. O FSB russo tinha como uma de suas principais missões vigiar a situação política da Ucrânia.

A agência de espionagem informou o Governo de Putin que a maior parte da população ucraniana receberia de braços abertos as tropas russas. Logo se viu até que ponto estava equivocada. O mesmo que sucedeu aos norte-americanos no Iraque.

Pentágono é incapaz de manter a confidencialidade dos documentos secretos acessados e transmitidos por sua cadeia de comando

El Diario
Militar ucraniano examina o armamento de um helicóptero MI-8 (imagem ilustrativa)




Capacidade de espionagem

Moscou deve estar consciente de que os Estados Unidos contam com imensas capacidades para espionar aliados e inimigos por meios eletrônicos, sem necessidade de que um espião atravesse uma fronteira e comece a operar de forma encoberta. Obviamente, seus serviços de contraespionagem tem como missão impedi-lo, em especial se o presidente do país é um antigo espião que não convém decepcionar.

O vazamento conhecido nas duas últimas semanas revela que os EUA tiveram acesso a planos militares russos, às vezes inclusive em tempo real, por meio da interceptação de suas comunicações.

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“A comunidade de inteligência dos EUA penetrou nos militares russos tão profundamente que pôde avisar a Ucrânia com antecedência sobre os ataques e avaliar com segurança a força e as debilidades das forças russas”, segundo The Washington Post, que pôde ler dezenas destes documentos.


Informações privilegiadas

Washington soube que o FSB está muito descontente com a cúpula militar devido à escassa informação que fornece sobre a marcha da guerra a outros organismos de segurança russos. Isso inclui o próprio número de baixas. Que Putin se reuniu com o ministro da Defesa e o dono do Wagner para que resolvessem suas diferenças.

Que as unidades de elite do Exército sofreram tal perda de efetivos nos combates que demorarão anos para recuperarem-se. Que os espiões russos acreditam ter chegado a acordos de colaboração muito frutíferos com os Emirados Árabes, um aliado tradicional dos EUA no Oriente Médio. Que o Egito, outro aliado, estava disposto a vender munição a Moscou.

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Os documentos ofereceram uma prova documental sobre o número de tropas de países da Otan que operam em território ucraniano. Concretamente, 97, segundo um informe de 28 de fevereiro, procedentes do Reino Unido – que contava com o maior número, 50 –, EUA, Letônia e França. É exagerado considerar isso um salto qualitativo que pudesse provocar uma resposta dos russos. Muitos deles são membros das Forças Especiais que protegem os altos cargos políticos e militares que visitam o país ou suas embaixadas. O dado não admite comparação com a imensa ajuda militar que os governos ocidentais entregaram à Ucrânia.


Espionando os ucranianos

O vazamento também permite saber que os EUA estão espionando os ucranianos, a quem entregaram uma incrível quantidade de ajuda militar para a guerra. A razão reside em um fato surpreendente mencionado por vários meios de comunicação que tiveram acesso ao vazamento: “O material reforça a ideia que fontes de inteligência já tinham reconhecido. Os EUA têm um conhecimento mais claro sobre as operações militares russas do que sobre os planos ucranianos”, chegou a dizer o The New York Times.

O mais prejudicial para a relação entre Washington e Kiev é que se confirma o que até agora tinha aparecido em alguns artigos citando fontes anônimas que o explicavam com cautela e sem vontade de provocar uma manchete espetacular.

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A inteligência dos EUA duvida que a ofensiva ucraniana de primavera tenha êxito, segundo um documento marcado como “top secret”, datado de fevereiro. A fortaleza das defesas russas, preparadas há muito tempo, “unida às deficiências ucranianas no treinamento (das tropas) e o fornecimento de munições provavelmente tornarão difícil o avanço e aumentarão as baixas durante a ofensiva”.


Contraste

A avaliação contrasta claramente com os comentários públicos dos altos cargos norte-americanos, que se mostram confiantes em que a ajuda militar entregue sirva a Kiev para expulsar os russos de seu território, inclusive da península da Crimeia. O documento, pelo contrário, só acredita que a ofensiva permitirá “ganhos territoriais modestos”.

Se esta ofensiva que ainda não ocorreu tem poucas possibilidades de êxito, é mais provável que a guerra continue ao longo deste ano e se prolongue até 2024, uma perspectiva muito deprimente que teoricamente poderia questionar a política favorável à Ucrânia de alguns países europeus.

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Há outro dado que traz dúvidas quanto ao futuro militar que aguarda a Ucrânia. A rede de defesa antiaérea do país encontra-se no limite de sua capacidade, devido à carência de mísseis. No final de fevereiro, calculava-se que os mísseis, que correspondem a 89% destas defesas contra aviões, poderiam acabar no princípio de maio, no ritmo em que estavam sendo consumidos nessa data. Sem esta proteção, a Força Aérea russa poderia ser um fator decisivo na guerra, o que não foi até agora.


Força Aérea

Segundo uma estimativa do Pentágono, a Rússia conta com 485 aviões no cenário ucraniano contra 85 ucranianos. “O Exército russo foi destroçado. A Força Aérea russa, não”, disse em fevereiro o general Mark Milley, chefe das Forças Armadas nos EUA.

Esses documentos partem de informações obtidas por agências como a CIA ou a NSA que são enviadas ao Pentágono, razão pela qual não há porque tomá-los como fatos irrefutáveis. Os espiões também se equivocam, como foi demonstrado na história. O maior fracasso consiste em ser incapaz de manter a confidencialidade de sua transmissão na cadeia de comando.

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Os EUA se mantêm no pior dos mundos. Um sistema que classifica como secreto ou confidencial um número exagerado de documentos e que, ao mesmo tempo, se vê obrigado a permitir que centenas de milhares de pessoas precisem contar com acesso a todo ou parte deste material.


Manning

Há doze anos, Chelsea Manning era um cabo locado em uma unidade de inteligência militar no Iraque. Em seu computador podia ler e guardar cópias dos telegramas diplomáticos enviados pelas embaixadas desde anos atrás. Seu trabalho o obrigava a saber o que estava acontecendo a menos de cem quilômetros de Bagdá, mas ocorre que também podia acessar o conteúdo do que as embaixadas em Paris ou Ancara enviavam a Washington.

A situação repetiu-se agora, embora o perfil da pessoa responsável supostamente pelo vazamento seja muito diferente. Jack Teixeira era um jovem militar de 21 anos de baixo nível na Guarda Nacional Aérea de Massachusetts. Como se ocupava de tarefas de manutenção dos servidores de seu departamento de inteligência, tinha acesso a toda a rede de comunicações da inteligência militar e das dezessete agências de inteligência dos EUA.

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A sua não foi uma operação de espionagem digna de um filme. Baixou os documentos que lhe interessavam, imprimiu-os, dobrou os papéis, fotografou-os em casa e levou as capturas ao fórum de um grupo de ‘gamers’ que também se interessavam por assuntos relacionados com armas e guerras. For the lulz. Para impressionar os amiguinhos.

A CIA e a NSA estão muito interessadas em recrutar jovens para seus departamentos tecnológicos. Ainda não controlam bem a cultura de internet.

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Talvez ocorra que haja rincões da internet que nem mesmo o Governo dos EUA pode acessar, simplesmente porque são muitos. “Depois dos vazamentos de Snowden em 2013, supunha-se que isto não voltaria a acontecer”, disse a este diário Glenn Gerstell, conselheiro geral da NSA entre 2015 e 2020.

Voltou a acontecer e em meio a uma guerra. É evidente que a máquina militar e de inteligência dos EUA gera mais segredos de que pode digerir.

Iñigo Sáenz de Ugarte | ElDiário.Es
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Iñigo Sáenz de Ugarte

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