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Outra vez candidato a reeleição, Morales está há treze anos em campanha eleitoral

Nunca o Ministério de Propaganda (mal chamado de Ministério de Comunicação) teve tanto dinheiro na Bolívia
Alfonso Gumucio

Tradução:

O jornal que recebo por baixo da minha porta está cada dia mais cheio de surpresas. Gostaria de comentar todos os temas, mas hoje me limitarei a um que é digno de Ripley.

Mesmo que você não acredite… ministros, governadores e diplomatas são obrigados a fazer campanha para Evo Morales (e todos os funcionários abaixo deles). A ninguém lhe ocorreria pensar, nem sequer por um mínimo de decência e dignidade: “Sou servidor do Estado, não agente do MAS ou empregado do Evo Morales”. Todos farão campanha por um partido político e por um candidato usando recursos públicos.

Nunca o Ministério de Propaganda (mal chamado de Ministério de Comunicação) teve tanto dinheiro na Bolívia

José Cruz/Agência Brasil
O presidente da Bolívia, Evo Morales

Antes que o maltratado Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) dominado pelo MAS (Cruz é delegada presidencial, Mamani pintava consignas azuis à noite, Choque trocou o vestido pela pollera para estar mais de acordo com o regime) dite sua resolução sobre a candidatura de Evo Morales, e apesar do NÃO majoritário no referendo de 21 de fevereiro de 2016, o autocrata –que se aferra ao poder com unhas e dentes, decidiu que funcionários públicos pagos com nossos recursos, devem fazer campanha a seu favor, usando o tempo e os bens do Estado como se fossem propriedade de um partido político. Mesmo que você não acredite…

O aparelho do Estado a serviço de uma pessoa

O MAS não só comprou a sigla da Falange Socialista Boliviana (FSB), como também lhe comprou a ideologia e as práticas fascistas de apropriar-se do aparelho do Estado em benefício próprio e sem transparência.

O autocrata no poder não se envergonha em visitar Buenos Aires (sem licença do presidente da Argentina) para fazer campanha na numerosa comunidade boliviana durante a entrada folclórica que lhe serviu de ato de proclamação. 

Muitos votos na Argentina

Enquanto o soberano cacique salta de um lado a outros como pavão, exibindo avião presidencial de luxo, helicópteros, museus dedicados à própria glória e palácios fálicos, no país onde as crianças consomem menos leite na América Latina, a morte espreita os enfermos. A debacle do sistema de saúde é notícia cotidiana: os doentes de câncer (uma doença que o presidente “não conhecia”) morrem todos os dias porque no país não há aceleradores lineares que poderiam ser comprados com o que custa umas quantas horas de voo do soberbo presidente em seu luxuoso avião. O demagogo está há treze anos no poder e promete que a saúde pública “será melhor que a privada”.  Mesmo que você não acredite…

Evo Morales e as crianças com câncer (desenho de Abecor)

Enquanto é mobilizado todo o aparelho estatal para proclamar ilegalmente o binômio Morales-García, o país se desmorona: Argentina nos compra cada vez menos gás e se vende ao Chile…La Haya  só serviu para pôr em evidência a demagogia triunfalista, mas Morales ficou mal parado  e agora, como de costume, “não aceita a decisão”. 

Os maus perdedores buscam rapidamente manchetes para fazer acreditar que têm todo o poder, mas cada tiro lhes sai pela culatra: trem bi oceânico, relações com os países vizinhos, preços das matérias primas em baixa, etc. O autocrata recorre a espetáculos de massa para anunciar medidas e obras economicamente insustentáveis: dupla gratificação de natal (mesmo em empresas deficitárias como Huanuni), bônus Juancito Pinto, teleféricos, “perdão” tributário, seguro universal de saúde (que já prometeu há dez anos)… 

Obrigam-se as crianças nas escolas a declamar poemas com louvações ao autocrata e a levantar o punho, o que identifica os militantes do MAS. Os eventos esportivos levam o nome de Evo Morales, do mesmo modo que coliseus, hospitais, mercados, pontes, bairros e escolas, entre outros. Até no serviço de bordo da linha aérea BOA aparece o selo característico com o rosto do autocrata. Em países democráticos está expressamente proibido que obras do Estado tenham o nome de funcionários do governo  em exercício.

Nunca o Ministério de Propaganda (mal chamado de Ministério de Comunicação) teve tanto dinheiro. Em termos absolutos e relativos, o que tem dilapidado em 10 anos essa oficina de culto à personalidade de Evo Morales supera em muito a soma de tudo o que foi gasto em propaganda por todos os governos anteriores em toda a história da Bolívia.  O culto de Evo Morales só é comparável à dinastia de Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un na Coreia do Norte. Não existe outro país em todo o mundo onde a imagem de um presidente seja tão avassaladora: está em todas as obras do Estado como se elas fossem um presente pessoal do autocrata.

Só assim se pode elevar como semideus a um personagem que não tem nenhuma qualidade pessoal que valha a pena destacar; não é carismático, não é inteligente, não é honesto, não é trabalhador, não é criativo, não é solidário… Não representa nenhum valor humano de que possa sentir-se orgulhoso. Mas é astuto, solapado e arteiro. Morales leva treze anos de campanha eleitoral usando nossos recursos, mas o número 13 não vai lhe trazer boa sorte, que comece a se despedir.

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“A lógica é clara e simples: a propaganda é para a democracia o que o cassetete é para o estado totalitário”.
Noam Chomsky 

*Colaborador de Diálogos do Sul, de La Paz – Bolívia


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Alfonso Gumucio Boliviano. Cineasta e documentarista. Especialista em comunicação para o desenvolvimento com experiência mundial em comunicação participativa, mobilização social e desenho da estratégia. Foi Diretor de Comunicação da UNICEF na Nigéria e no Haiti

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