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Paixão por comunicar

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

stela02Ela cobriu  muitos dos principais conflitos que sacudiram a América Latina no século XX e é dona de uma prosa ágil e poética que não perde o rigor jornalístico. Stella Calloni completa sua sexta década na atividade que ama e reivindica seu compromisso político em meio ao julgamento do Plano Condor, tema que está investigando há mais de 30 anos. Conhece o preço de colocar o corpo no campo de batalha, mas diz que não teve medo, e repassa sua vida na qual figuras como Evita, Kadafi y Walsh não são meras aparições, mas influências certeiras e definitivas. Representa Diálogos do Sul na Argentina.

Flor Monfort*

“A vida é muito diferente quando se nasce no campo: eu nasci em Leguizamón, um povoado fundado por meu avô em Entre Rios. Tenho 77 anos. Nós, mulheres, escondemos um pouco a idade, mas chega um momento em que se diz: “tudo bem”. Eu me sinto tão bem com o que fiz e com o que tenho, praticamente 60 anos dedicados ao jornalismo. Minha mãe era diretora de uma escola, então aprendi a ler e escrever aos 4 anos. Foi uma das primeiras professoras da escola normal criada por Sarmiento em Paraná, e a escola estava dentro de uma estância que tinha sido do meu avô. E aí em Leguizamón viviam meus avós, tinham terras, todas essas coisas das quais depois não sobra nada. Meu pai era italiano e na minha família todos liam muito. No primário fui com minhas tias estudar em Paraná. Éramos seis irmãos, apenas um homem, coitado. Foi uma vida muito sadia e muito mágica, porque no campo a gente vive escutando lendas, o alimento para um espírito poético. Ficava fascinada com os contos das pessoas: as figuras noturnas, o homem enormemente alto que passava e se perdia, o que se afogou mas caminhava pelas águas… e a gente via, não é? Eu tenho um livro de contos que se chama O homem que foi jacaré, que é um pouco esse mundo do campo. Todo um mundo que hoje me serve muito porque estou voltando ao que mais gosto, que é a literatura.

Eva, etérea

Comecei a fazer poemas aos 8 anos. Fiquei encantada com a figura de Eva Perón: eu estava em Paraná e ia à missa muito cedo com minhas tias e a essa hora chegavam umas meninas de um asilo que usavam aventais cinzentos e tinham a cabeça raspada. Todos os domingos à tarde eu tinha febre, acho que porque sentia falta da minha mãe, mas também por causa dessas meninas. Eu me sentia muito mal e ficava triste ao vê-las. No campo a gente aprende a ver coisas muito dolorosas: as pessoas que vêem à escola sem sapatos, e a morte, não é? A morte por picada de cobra, como um raio mata uma ovelha, você vê tudo isso, é familiar, a natureza maravilhosa, mas também impiedosa. Por isso eu senti que tinha sido atendida quando Eva decidiu fechar esse asilo e fez um lindo lar infantil. Seria lá por volta de 1949. Aí eu fiz um poema para Evita. Além disso, uma vez ela veio a Paraná e eu a vi de perto: essa figura etérea era incrível, parecia um ser de outro mundo. Depois eu via essas mesmas meninas e sua vida tinha mudado, agora com seus vestidinhos lindos, com seus laços de fita.

Eu não pensava em ser jornalista, mas sim em escrever histórias das pessoas. Minha avó foi muito forte porque ficou viúva muito jovem e nessa época as mulheres não iam estudar, mas minhas tias e minha mãe foram para a escola normal e todas eram professoras. Isso já era desafiador.

Uma velha infantil

Na adolescência ganhei um concurso sobre a guerra gaúcha, tive um professor que me estimulou muito a escrever. Foram coisas que aconteceram comigo e que estavam ligadas. No começo estava decidida a estudar medicina, mas percebi que eu queria estudar para ir à África e curar gente. Meu pai, junto com outros italianos, ouvia em ondas curtas as notícias da guerra. Eu devia ter uns 10 anos e já me interessavam essas notícias. Ficou gravada a imagem de uma revista sobre os campos de concentração: as pessoas com roupas listadas recostadas em catres. Até hoje eu as tenho na cabeça. Então comecei a estudar medicina em Rosario e depois vim para Buenos Aires com outra tia, Manuela. Era uma vida de convento. Então fui para uma pensão de estudantes onde me senti muito bem, já crescida. A partir dos 15 eu já dava aulas para estudantes de primário para pagar minhas coisas; desde essa idade sou independente.

Depois fui me matricular em jornalismo. Percebi que o que eu gostava na medicina era ir ver as crianças no hospital e contar-lhes histórias. Já me juntava com muita gente que escrevia. Publiquei uns poemas em uma revista que se chamava  “Hoy en la Cultura”, que era do Partido Comunista. Caiu Perón, a Libertadora teve uma forte conotação para nós. A família com a qual vivia em Rosario também era peronista e quando veio o golpe foram perseguidos. Aqui comecei a visitar os alunos da minha mãe e todos viviam perto das fábricas, no sul. E aí acabei conhecendo gente da resistência peronista que saia dos frigoríficos, das fábricas e isso me encantou. Eles foram muito valentes e muito pouco valorizados na história porque era preciso resistir a isso: as pessoas escondiam em buracos os retratos da Eva e do Perón. Foi incrível como experiência política; nesse momento eu via isso como um ato de justiça, mas a partir de então elaborei minha posição e comecei a olhar para a América Latina. No Partido Comunista conheci muitos escritores, pintores, gente importante como Olga Orozco, de quem fiquei amiga. Comecei a escrever algumas declarações das pessoas desses bairros que eram publicadas em panfletos, eram histórias de vida, e se fosse preciso fazer um comunicado no partido, era eu que fazia. Eu não vivia como uma pessoa da minha idade, na realidade nunca vivi como uma pessoa da minha idade, por isso sempre digo que sou uma velha infantil.

Viver na selva

Em 1954 foi a invasão à Guatemala. Eu tinha ido morar com uma filha do poeta Pedroni que depois se casaria com um guatemalteco, assim que me uni a eles por essa amizade. E soube de todas essas histórias. Fazíamos uns boletins com tudo o que nos chegava da Guatemala e era uma constante: encontravam cadáveres de camponeses o tempo todo. Eu pensava: quando vai terminar essa matança? E escrevia sobre isso, juntava tudo o que recebia e distribuía para organismos de direitos humanos. Do Paraguai também. Anos depois criamos um movimento de unidade latino-americana  onde estavam Gregorio Selser, Jorge Greco, Marcelo Quiroga Santa Cruz, Zelmar Michelini… Nossas vidas foram se enredando com tudo isso. Em 1959 fui levar uns medicamentos a uns companheiros no Paraguai e por isso o exército argentino começou a me procurar como se eu fosse um correio russo. Uma enfermeira que eu havia conhecido, e que depois mataram, tinha me pedido isso, porque havia uma guerrilha no Paraguai; e assim tive que passar um ano escondida em Misiones . O que o exército argentino fez foi se infiltrar em um dos movimentos dos paraguaios, o 14 de Março, e eu creio que os entregaram. Essa é uma história pendente que tenho que escrever, porque é terrível que se tenha esquecido tanta gente que morreu tentando derrubar o Stroessner. Isso me fez conhecer a selva onde havia muita gente refugiada. Meu livro de contos “O homem que foi jacaré” é sobre isso. Foi muito bom como experiência, mas emagreci muito e num dia de Natal sai com outros a que haviam dado uma espécie de anistia e voltei para Buenos Aires; reencontrei minha mãe que tinha procurado por mim muito preocupada. A adrenalina não permite que você tenha medo, eu fiquei no meio de tiroteios e passei momentos muito difíceis. Eu percebo agora que vejo de longe: não sentia medo porque não tinha tempo de ter medo e dou risada quando alguém quer ensinar a ser correspondente de guerra; ninguém pode ensinar isso. Só quando você está aí provocando é que entende como se faz. O jornalismo é prática.

A Bota-bombas

Um tal de Zarriategui –parece que é um marinheiro– colocou no Google que eu não faço mais bombas porque estou muito velhinha. Nunca fiz uma bomba na vida. Acho que se confundem muito porque eu me chamo Stella e havia una Estela do movimento montonero da Nicarágua, então me atribuem coisas dela. Dou risada. Eu como boa pessoa que nasceu no campo tenho terror aos aviões, porque penso: “o que estará fazendo isso aí, no meio do ar, suspenso, se não é um pássaro?” Minha primeira cobertura importante foi o triunfo de Allende em 1970. Aí conheci o Victor Jara, me hospedei com gente amiga dos Parra, foi muito impressionante. Falei um pouquinho com Allende, não foi uma entrevista, mas uma pequena reunião, ele era uma pessoa maravilhosa. Aquela noite do triunfo foi tão impactante, quando fomos para a Alameda as pessoas cantavam “quem não salta é “momio” e você percebia que eram “rotos” de verdade. Eu tenha começado a ir aos bairros, às “callampas”  e havia entrevistado muita gente do MIR, pessoas do povo. Eu sou muito intuitiva e havia acabado de ler toda a história da América Latina, então quando via aquelas mulheres que se vestem de negro, como se estivessem de luto, de um conservadorismo tão brutal, de um fascismo tão duro, me sentia mal. E me diziam;  “ não, Stella, isto não é como lá, como na Argentina” e era verdade que nós havíamos tido um golpe atrás do outro, mas eu ficava em dúvida, pensava na Guerra do Pacífico, em como o exército chileno tinha sido tão duro com os peruanos e os bolivianos e hummmmmm… Quando me aproximei dessas mulheres, o ódio que elas tinham era comparável ao da oligarquia argentina diante dos “cabecitas negras”. Por isso hoje quando escuto as pessoas dizerem que isto é uma ditadura gostaria de pôr todos eles debaixo de uma ditadura… Porque muita gente conhece isso do outro lado, não do lado do povo, que é o que paga sempre. Então eu tive a intuição. Diziam : “este exército é constitucionalista” mas eu via um governo popular, socialista e por muito menos que isso invadiu-se a Guatemala. Os constitucionalistas estavam lá – era verdade – mas depois os mataram. Essa para mim foi A COBERTURA: uma grande festa e nos dias seguintes pensar “não é possível que tenhamos ganhado”; havia tal presença política nas comunidades, nos bairros, nos territórios, muito forte. Era um povo que havia despertado.

O jornalismo militante

Este é o período de maior concentração de poder dos meios de comunicação. Está documentado que a Guerra da Guatemala, para dar um exemplo, foi montada através dos meios,mas antes não existia esse nível de dominação global dos meios de comunicação de massa. Isto é um discurso único desde a central da informação. Podemos ver claramente nos enlatados que nos vendem: todos repetem a mesma coisa.

O jornalismo militante, como eu o encaro, não é ser de um partido, é militar com a verdade. Burlar-se do jornalismo militante dessa maneira, como está acontecendo agora, é desacreditar o jornalista que luta pela sua verdade. Isso de ser K ou “não K”  é de uma pobreza, de uma mediocridade total. O jornalismo tal como está funcionando hoje, com esse poder hegemônico por trás, que transforma a notícia em mercadoria ou em uma arma de guerra, está matando a notícia em si mesma. Antes as agências européias eram mais livres e agora estão encapsuladas nesse discurso único. Os entretenimentos estão todos dirigidos à degradação da sociedade. A gênese do programa “Bailando por um sueño” é a do sonho da fama de um dia sem importar a humilhação que se tenha que sofrer. O Grande Irmão (Big Brother) é uma das mais selvagens expressões de como se pode vigiar uma sociedade: você se acostuma a não ter vida privada e percebe que por esse minuto de exposição você mostrou tudo. Está pensado para que a sociedade se acostume à humilhação. Há graves violações aos direitos humanos: o jornalista que mente sobre um tema de guerra é tão responsável por um massacre como o militar que atirou.

O destino latino-americano

Outro dia, John Kerry, secretário de Estado dos Estados Unidos, falando com congressistas disse uma frase muito forte: “A América Latina é o nosso quintal”. Aquela coisa que nós que estudamos esse tema sabemos há muito tempo: nunca deixaram de nos considerar como quintal. Pensam que nós somos antigos, setecentistas, que estamos perdidos em uma nuvem como se não víssemos o avanço brutal dessa historia de expansão daqueles primeiros tempos do século XX. E todo o sangue que correu na América por essa condição de quintal. Ou seja, não conseguimos ainda nossa independência. Do que falam nossos presidentes quando falam deste processo emancipatório que é a integração atual? Estamos vivendo um processo de emancipação, por isso se fala de uma segunda independência. Porque a primeira foi absolutamente frustrada pela entrada em cena dos Estados Unidos em um momento de desenvolvimento do capitalismo selvagem. Nossa situação foi sempre de dependência e cada vez que apareceu algo que desafiou essa dependência teve a cabeça cortada. Por isso a resistência de Cuba é assombrosa, é como uma família que ficou fechada em sua casa rodeada de meliantes. Vão sobrevivendo com o que têm, mas não podem nem olhar pela janela. Podem me desenvolver as teorias que queiram, mas eu estive lá dentro nos momentos difíceis e há que ver como Cuba resiste ao bloqueio. Havia que estar aí para ver o que acontecia quando não entreva nem uma aspirina. Cuba é gloriosa.

stella03A Arte de escutar

O que eu mais gosto no jornalismo é a pesquisa, porque creio que é o que está mais ligado à poesia, porque você vai se metendo e vai descobrindo coisas e é uma maravilha abrir caminhos. Eu entendi o valor da crônica jornalística lendo Kapuscinski; é aprender a dizer com beleza e dando informação. Assim fiz as da guerra na Nicarágua, o primeiro natal sem Somoza, os primeiros tempos da revolução. Hoje em dia também há um desgaste da crônica, lamentavelmente, porque creio que dizer duas ou três coisas não é fazer uma crônica. Eu jamais entrevistei alguém exigindo uma resposta: Você não é um juiz, não é policial, é jornalista. Tirar o outro do plano que costuma manejar, porém bem, respeitosamente, sem interromper. Ninguém vai responder o que você quer saber se você agride. Eu era um pouco anarquista, pensava que as grandes revistas iam me fazer escrever o que elas queriam, então nunca ia pedir trabalho lá. Eu acho engraçado esse jornalismo em que todos caem um por cima dos outros, me parece que copiaram dos filmes estadunidenses; a avalanche é grotesca e brutal. Haver deixado que se diga “fazedor de notícia”  a um repórter é rebaixar infinitamente seu gênero: isso implica que alguém escreverá uma notícia tal como é ditada pelo editor. É grave, porque já não se está dando um lugar de seriedade, é uma competição para ganhar a primeira palavra, e o jornalismo sério não é chegar primeiro, mas que o que você escreve tenha conteúdo. Você pode chegar por último e a sua notícia ser a primeira.

A entrevista mais difícil

Em 1984 fui à Líbia para entrevistar Kadafi para “El periodista” de Buenos Aires e outros meios da Nicarágua e do México. Pensei que não ia acontecer nada porque a televisão francesa estava indo embora: não tinham conseguido. Eu disse a mim mesma: vou ficar tranqüila e esperar. Queria conhecer o lugar, ver como se comportava essa sociedade, como viviam as pessoas; estavam construindo muitos edifícios porque ele havia decidido que cada líbio tivesse sua casa e seu carro. Depois vi que havia muitas mulheres no exército então comecei a entrevistá-las. Havia mulheres na universidade e também havia quem colocasse lençóis nas sacadas para que as mulheres não fossem vistas. Havia convivência de tudo isso. Depois percebi que eram muitos os serviços de inteligência. Por essa época havia uma tentativa de matar Kadafi. De repente me convocaram. A primeira surpresa foi que seus guarda-costas eram todas mulheres porque ele confiava mais nelas, e elas me encheram de perguntas: o que eu pensava de Fidel Castro, de Bishop, e eu lhes dizia o que pensava, mas elas eram bem duras, e depois uma delas me disse: “Nós temos que ser assim porque é a única forma de fazer com que nos respeitem”. O assunto era que eu já tinha um montão de informações por causa dos dias que tinha ficado em Tripoli. Finalmente a entrevista foi muito boa; ele me contou como era difícil para as pessoas passarem de ser colônia para ser uma nação. As pessoas caçoavam muito de seu Livro Verde, onde dizia que uma mulher não é uma ovelha: “Eu estava falando de nosso povoado, onde uma mulher era trocada por uma ovelha”, me disse. Por isso, todas as mentiras que foram ditas sobre a invasão na Líbia me pareceram ferozes, porque qualquer pessoa que tenha ido lá sabe que era o país mais avançado da região: repartia-se uma verba especial pelo petróleo, havia saúde e educação gratuitas, todos tinham sua casa. Eu sabia que enfrentava muitos problemas por dizer isso, mas eu me enfrento a qualquer poder, não vou deixar de dizer o que eu vi.

 Jornalismo por mulheres

Creio que nós como mulheres no jornalismo temos que começar a insistir, reunir-nos mais, exigir mudanças de programação. Que a mulher não seja tratada como objeto tão degradado… tanto que lutamos pela independência, pelo reconhecimento e há mulheres que aceitam que a tratem de gatos! Minha maior aprendizagem em toda a vida de jornalista é a luta pela linguagem não colonial. Ser mulher no jornalismo é difícil. Na dinâmica do tipo de jornalismo que eu fiz, cobrindo guerras e tudo o mais, você está no mesmo nível que os homens. Mas é mais difícil nas redações por essa coisa machista intelectual e que você percebe quando quer opinar. Por exemplo, em política internacional você tem que enfrentar  uma tremenda quantidade de obstáculos. Suportar perguntas como: “e o que aconteceu com o Kadafi?”, como se uma mulher que fosse mais ou menos linda, ou graciosa, tivesse que ganhar não por sua inteligência, mas porque “claro, como ele não vai dar uma declaração pra ela?” Dizem como se fosse de brincadeira, mas não é não.

O labirinto do Condor

O Condor e a contra- insurgência são meus temas, porque se você não entende isso não pode entender muitíssimas outras coisas que aconteceram com estas ditaduras, por exemplo, como é que Stroessner pode ficar de 1954 até 1989 no Paraguai. Em 1975 escrevi um livro sobre o canal do Panamá. E em 1976 mataram Letelier em Washington. Esse foi o primeiro grande esboço do que era o Condor. Desde esse momento comecei a juntar tudo o que tinha que ver com essa operação. Quando Walsh escreve a carta aos militares, há uma parte na qual as pessoas não se detiveram muito e diz: “estão sendo feitas operações internacionais”. Ele estava se referindo a isso, ele já sabia. Quando em 1992 foram descobertos os arquivos no Paraguai, eu já levava 15 anos estudando, amontoando coisas. Quando fomos e encontramos que estava dito tudo aquilo que eu suspeitava juntando pontas, foi impressionante. Em 1993 escrevi Os Anos do Lobo que primeiro foi um caderninho e agora é um livro reeditado e traduzido a seis idiomas. O Plano Condor é um labirinto, uma operação para obter informação sobre os dissidentes políticos, sobre as esquerdas, faz parte dos planos da Guerra Fria e do inimigo interno, mas foi um pacto para gerar operações conjuntas. Foi um plano muito bem organizado e provado, porque houve um pré Condor que foram todos os crimes cometidos entre 1973 e 1976. O Condor não é a única operação desse tipo, mas as características do Condor são únicas: as minúcias, a ilegalidade total. Por isso tem complexidades, porque para levar isso à justiça há que estudar todos esses passos. Neste momento está acontecendo o primeiro julgamento do Condor, mas há antecedentes: em 1999 foi apresentada uma denúncia e aí foram sendo reunidos materiais. Foi passando de um juiz para outro e em 2001 um juiz determinou que o Condor é uma associação  ilícita das ditaduras do Cone Sul para sequestrar, torturar, entregar, matar e desaparecer pessoas, e pede a extradição de Videla, de Stroessner, de Pinochet. É claro que não deram, mas ficou a proposta. Por Automotores Orletti, um centro do Condor, passaram várias pessoas e acaba de aparecer o último tonel com cimento no canal de San Fernando onde estavam os corpos de dois diplomatas cubanos desaparecidos em 1976. Foram julgados e castigados alguns dos responsáveis, mas ainda falta estabelecer o que aconteceu com mais de 200 uruguaios que ali desapareceram. Videla morreu poucos dias depois de ter ido dar declarações nesse julgamento e há vários chefes militares sendo julgados. Eu sou testemunha de conceito e há muito que dizer: a conexão com a CIA, , Kissinger, etc. Nos Estados Unidos ainda há muitos arquivos; é muito importante encontrar documentos para pedir a desclassificação de outros. Ainda não terminamos.

*Fonte: Pagina 12 – junho de 2013 – Imagem: Constanza Niscovolos


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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