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Palestina: Como "lavar as mãos" diante da limpeza étnica promovida por Israel em Gaza?

Em tempos de pandemia, como manter distanciamento social, dar atendimento médico e salvar vidas no maior campo de concentração controlado por Israel?
Bárbara Caramuru
Brasil 247
Brasília (DF)

Tradução:

O termo “limpeza étnica” utilizado por Ilan Pappé, no livro “The Ethnic Cleansing of Palestine”, 2006, segue sendo uma das maiores, senão a mais clara elucidação do projeto político sionista, quando em 1948, ano da Nakba 2, grande parte da população Palestina foi sistematicamente expulsa de suas terras, casa por casa, aldeia a aldeia.

Desde o gérmen do movimento sionista, em seus escritos, hoje amplamente conhecidos, Theodor Herzl propôs em seu projeto a expulsão e expropriação de terras da população local, do povo palestino, como podemos ver no seguinte trecho retirado de seu diário em 12 de junho de 1895, onde ele afirma:

“Devemos expropriar com cuidado”, “tentaremos expulsar a população miserável para além da fronteira […] negando-lhe qualquer emprego em nosso país […] Tanto o processo de expropriação como a retirada dos pobres deve ser executada de maneira discreta e circunspecta”.

Possivelmente, Pappé, entre outros intelectuais, como Nur Masalha e Walid Khalid, que entendiam o massivo “deslocamento” de palestinos em 1948 como ações organizadas de expulsão dessa população de seu território, conhecida como “limpeza étnica”, não previram como parte deste projeto político de expulsão dos palestinos o uso de uma pandemia, de um vírus de alcance devastador, como “arma biológica” na execução do projeto sionista. De forma alguma adoto uma teoria a qual acuse um governo de produzir um vírus mediante engenharia genética para uma ação direcionada de limpeza étnica. Longe disso, teorias como tal, inclusive, já foram desconstruídas por especialistas da área da saúde as quais afirmam que o SARS-COV-2, causador da pneumonia COVID-19, “não é uma construção de laboratório ou um vírus propositadamente manipulado”.3

Meu intuito neste texto é demonstrar como determinadas ações recentes do governo de Israel permitem-nos perceber a utilização de um vírus, ocasionalmente disseminado de forma global, como “arma biológica” utilizada no processo de limpeza étnica dos palestinos, em Gaza e na Cisjordânia.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), “Os coronavírus são uma grande família de vírus que podem causar doenças em animais ou humanos. Em humanos, sabe-se que vários coronavírus causam infecções respiratórias que variam do resfriado comum a doenças mais graves, como a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). O coronavírus descoberto mais recentemente causa a doença de coronavírus COVID-19. […] Este novo vírus e doença eram desconhecidos antes do início do surto em Wuhan, China, em dezembro de 2019.” 4

Nesta última semana de março, foram noticiados primeiramente dois casos de COVID-19 em Gaza, que em 30 de março, segundo Midle East Monitor, saltam para 9, somando o total de 104 casos na Palestina.5

Nas últimas semanas, algumas notícias acerca de uma colaboração mútua Israel-Palestina no combate ao vírus, bem como um cessar-fogo por parte de Israel, foram amplamente veiculadas em diversos periódicos pelo mundo. Todavia, a mídia deixou de lado algumas ações do Estado de Israel fundamentais para o entendimento do argumento em questão.

Vejamos, recentemente alguns eventos significativos ocorreram que demonstram como Israel segue atuante oportunizando as circunstâncias da pandemia: No dia 26 de março militares israelenses, munidos de uma escavadeira e caminhões destruíram uma clínica comunitária que estava sendo construída na vila Palestina de Khirbet Ibziq, no Norte do Vale do Rio Jordão, Cisjordânia. O material recolhido pelos caminhões tratava-se de lençóis, madeira, um gerador, concreto e cimento que seriam utilizados na construção de uma clínica comunitária de emergência, bem como uma mesquita e abrigos para palestinos expulsos de suas casas devido aos conflitos na região. No dia 27, aviões israelenses atacaram a Faixa de Gaza, mais especificamente o noroeste de Gaza e o leste da cidade de Jabalya.6

Para além disso, tão logo se estabeleceu mundialmente a situação de pandemia, o governo israelense fechou os checkpoints e bloqueou a passagem de palestinos, gerando o isolamento da população.

Ironicamente enquanto o mundo vive seu primeiro grande isolamento social, a Faixa de Gaza segue isolada desde 2006, após sofrer bloqueio e sanções por parte do Estado de Israel. A crise agravou-se após a eleição (democrática) do partido Hamas, atual governo de Gaza. Segundo o site Palestine Chronicle, “enquanto a Cisjordânia e Jerusalém estão em quarentena, o Centro Palestino de Direitos Humanos registrou na semana passada que os israelenses realizaram 59 ataques domiciliares e 51 prisões”.7

Em tempos de pandemia, como manter distanciamento social, dar atendimento médico e salvar vidas no maior campo de concentração controlado por Israel?

Palestina LIbre
O Centro Palestino de Direitos Humanos registrou na semana passada que os israelenses realizaram 59 ataques domiciliares e 51 prisões

Isolamento como arma de limpeza étnica

Ações como estas, noticiadas quase que exclusivamente por mídias árabes e palestinas, denunciam o uso de Israel do isolamento e do bloqueio como instrumentos no projeto sionista de limpeza étnica. Deve-se considerar também a ausência de informações midiáticas em relação aos conflitos e também aos casos de Covid-19 na Palestina e a complexidade desses números.

O renomado site da Johns Hopkins University & Medicine foi alvo de polêmicas após retirar do mapa mundial de contágio da doença a identificação “Palestina”, deixando nos dados apenas “West Bank and Gaza”.

A destruição do hospital provisório, o bloqueio à Gaza, onde vivem atualmente dois milhões de pessoas altamente dependentes de ajuda humanitária internacional, com escassez de abastecimento autônomo de água, alimentos, remédios, somada à restrição de circulação de palestinos – mascarada pela condição do isolamento e uma mídia altamente parcial vendendo uma imagem positiva de Israel – são medidas que propiciam maior contágio e menor possibilidade de tratamento adequado dos palestinos, ocasionando mortes por Covid-19.

Não podemos isolar destas ações o respaldo que o governo israelense recebe do governo de Donald Trump. As relações amistosas entre os Estados Unidos da América e Israel são de longa data, remontam à criação de Israel, no ano de 1947. Deve-se considerar também, acerca dos territórios ocupados, e neste caso do Vale do Rio Jordão, que, recentemente, no projeto de acordo nomeado “Paz para a prosperidade uma visão para melhorar as vidas de palestinos e israelenses”, chamado também de “Acordo do Século”, dentre as inúmeras propostas, Trump propõe a anexação da região do Rio Jordão pelo Estado de Israel.

Na sequência da proposta, veementemente rechaçada pelos palestinos, pelas comunidades palestinas internacionais e pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, o então primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, fez uma declaração informando que iniciaria o cumprimento proposto no projeto de Trump, a começar pela anexação do Vale do Rio Jordão.

Por outro lado, devemos considerar que mesmo em condições não ideais, na Palestina os casos são significativamente inferiores aos de Israel. Iniciativas comunitárias e dos governos palestinos colaboram para a contenção da disseminação do vírus com ações de controle, contenção e isolamento.

Números da Covid-19 na região

Israel na data de 30 de março tem 4695 casos e 16 mortes, segundo o próprio Johns Hopkins 8, o mesmo site noticia que na Palestina existam 116 casos e somente uma morte (informado como West Bank and Gaza, como já referido anteriormente). Fontes locais informam, inclusive, que as medidas de contenção Palestina têm sido mais efetivas que as adotadas pelos israelenses.

Outro problema é a condição dos trabalhadores palestinos nos territórios ocupados, segundo essa entrevista replicada no site Palestine Chronicle: “Enquanto os israelenses ficam dentro de suas casas, eles estão nos colocando para trabalhar para que as coisas não entrem em colapso”, disse Kareem – um trabalhador palestino da construção civil – ao Middle East Eye, tudo “para salvar sua economia”.10

Como é possível lavar as mãos quando o abastecimento de água é precário?

Como manter o distanciamento social quando Gaza é reconhecida hoje como o maior campo de concentração a céu aberto?

Como é possível seguir as instruções de prevenção de contágio quando dois milhões de pessoas vivem em uma pequena faixa de terra, sob cerco militar israelense, com acesso limitado a alimentos e, menos ainda, ao “novo ouro”, o álcool em gel?

Quando o mundo enfrenta mais de um milhão de casos confirmados de Covid-19, mais de 50 mil mortes confirmadas e 203 países afetados 11, isolar palestinos, bombardeá-los, manter o cerco a Gaza sem o provimento mínimo de auxílio médico, sem o devido abastecimento de água, alimentos, medicamentos assistência médica, etc. têm sido a maior demonstração atual da intenção de limpar as ruas, de limpar à terra para ampliar o projeto de limpeza étnica sionista.

Bárbara Caramuru, doutoranda em Antropologia Social pela UFSC


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Notas:

1 Doutoranda em Antropologia Social na Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC. Mestra em Antropologia pela Universidade Federal do Paraná e graduada em História na mesma instituição. Autora da dissertação “La tierra Palestina es, mas cara que el oro: Narrativas palestinas em disputa”, 2017, atualmente é coordenadora do Núcleo de Estudos Palestinos Latino-Americano, NEPLA.

2  “A ocupação israelense da Palestina ocasionou a Nakbah, a Catástrofe Palestina, ocorrida em maio de 1948. Esse processo resultou na expulsão de aproximadamente 80% da população Palestina do período, o que gerou enormes desdobramentos para o que consideramos a “causa Palestina”, que dentre outras coisas se define pelo direito a terra, o direito de retorno a Palestina. (HOURANI, 2006; SAID 2012)” (Caramuru, B.T., 2017) Disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/53294/R%20-%20D%20%20BARBARA%20CARAMURU%20TELES.pdfsequence=1&isAllowed=y
Acessado em: 30 Mar 2020

3 https://www.nature.com/articles/s41591-020-0820-9
Acessado em: 30 Mar 2020

4 https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses
Acessado em: 30 Mar 2020

5 https://www.monitordooriente.com/20200330-palestina-relata-seis-novos-casos-de-coronavirus/
Acessado em: 30 Mar 2020

6 Disponível em: https://www.palestinechronicle.com/amid-coronavirus-fears-israeli-warplanes-artillery- attack-locations-in-gaza/
Acessado em: 29 Mar 2020

7 https://www.palestinechronicle.com/land-day-2020-in-the-time-of-the-coronavirus/
Acessado em 30 Mar 2020

8 https://coronavirus.jhu.edu/map.html
Acessado em 30 Mar 2020

9 https://www.dw.com/en/coping-with-covid-19-in-gaza/av-52950266?maca=en-Whatsapp-sharing
Acessado em 29 Mar 2020

10 https://www.palestinechronicle.com/land-day-2020-in-the-time-of-the-coronavirus/
Acessado em 30 Mar 2020

11 https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019
Acessado em 30 Mar 2020

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Bárbara Caramuru

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