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Pandemia apenas acelerou e ampliou recessão provocada pelo neoliberalismo radical

“Todos estamos enfrentando a mesma tormenta, mas nem todos estão no mesmo barco. A desigualdade produziu duas pandemias muito diferentes"
Nils Castro
Diálogos do Sul Global
Cidade do Panamá

Tradução:

No dia 8 de junho, o National Bureau of Economic Research – a máxima autoridade acadêmica no estudo dos ciclos da economia dos Estados Unidos — determinou que esse país entrou em recessão em fevereiro de 2020, pela primeira vez desde 2009.

Mas a notícia foi difundida com algo suspeito: o NY Times, a agência AP e outros meios agregaram que isso aconteceu pelo fechamento da economia estadunidense devido à pandemia da covid-19, o que é mentira. Essa falsidade insinua que o problema não reside em um esgotamento estrutural da economia estadunidense, mas sim nessa fortuita praga biológica. 

Não obstante, os analistas costumam considerar recessão o efeito de dois quadrimestres consecutivos de contração econômica, o que situa as origens da crise econômica no último período do ano de 2019, antes que esse vírus entrasse em cena.

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No entanto, nessa época as notícias sobre a iminência de uma recessão nos Estados Unidos – e na Europa – já eram frequentes na imprensa internacional. E para os latino-americanos a questão era ainda mais evidente, porque nossas economias já vinham de mal a pior desde muito antes. 

“Todos estamos enfrentando a mesma tormenta, mas nem todos estão no mesmo barco. A desigualdade produziu duas pandemias muito diferentes"

Youtube / Reprodução
Não cabe atribuir à covid-19 uma recessão que começou em fevereiro

O silêncio dos não tão inocentes

Esse equívoco pouco tem de inocente. O primeiro doente por covid-19 nos Estados Unidos foi anunciado em 21 de janeiro de 2020 e foi um viajante que tinha regressado há pouco tempo de Wuhan ao estado de Washington.

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Mas não foi senão até 30 de janeiro e 26 de fevereiro que os Centros de Controle e Prevenção de Enfermidades (CDC) confirmaram o primeiro e o segundo casos de pacientes sem exposição ao vírus por viagens ou contacto com alguma pessoa infectada. Até essa data, os demais casos conhecidos correspondiam a indivíduos que recém haviam visitado a China. Só no final de fevereiro, no dia 19, se deu no estado de Washington a primeira morte por covid-19 nos Estados Unidos.

Recessão começou antes da pandemia

Estatisticamente, a curva dos casos de doença e de falecimento de vítimas da pandemia nesse país permaneceu baixa até meados de março, quando disparou, tornando-se muito alta em abril. Portanto, não cabe atribuir à covid-19 uma recessão que começou em fevereiro.

Porque essa contração econômica surgiu antes e devido a causas endógenas. O que não é uma observação casual: assinala que quando a pandemia tiver concluído, as causas originais da crise econômica ainda seguirão ativas, posto que têm outra origem. Para quando isso passe não será fácil definir se isso corresponderá à velha ou a uma nova “normalidade”. 

Isto, obviamente, não implica que esta pandemia seja alheia ao atual fenômeno. Pelo contrário, ao expandir-se, ela em seguida acelerou a recessão, lhe imprimiu insólita complexidade e agravou suas repercussões. A soma da recessão mais a pandemia – com os efeitos tanto da paralisação de atividades como do alto risco de sua reabertura – logo implicou que a economia estadunidense retrocedesse ainda mais, antecipando uma queda adicional do PIB. A taxa de desemprego subiu de 3,5% de janeiro a 14,7% em março, a maior registrada desde a Grande Depressão.

Recessão globalizada 

O Banco Mundial afirma que esta será a pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial, já que este ano a economia estadunidense se contrairá 6,1% e a da Zona do Euro 9,1%, enquanto o crescimento econômico da China será 1% mais lento. Se bem que o Banco espere que em 2021 a economia mundial possa repontar 4,2%, a pandemia ainda será uma ameaça para o mercado financeiro e para o comércio mundial.

Por sua vez, a OCDE prevê uma crise mundial sem precedentes, com duas opções: com ou sem rebrotes ao serem reiniciadas as atividades. Enquanto isso, seguirá na corda bamba da incerteza até que haja uma vacina ao alcance de todos. Mas prediz que o PIB mundial vai se contrair 7.5%, inclusive se não houver rebrotes. 

Anthony Fauci, o principal responsável científico da luta contra a covid-19 nos Estados Unidos, advertiu que esse país “ainda está no início” da pandemia. Embora ela continue causando estragos, os estados de União continuam sem contar com um critério unificado, nem sequer para aumentar os testes, indispensáveis para combater a doença.

É um vírus novo, facilmente transmissível, que além de afetar as vias respiratórias pode causar outros danos aos doentes, e Fauci se reconhece surpreendido pela “rapidez com que se estendeu pelo planeta”. Os especialistas reiteram que a falta de uma estratégia nacional – coisa que o presidente Trump está longe de aportar – deixa os estadunidenses abandonados à própria sorte. 

Pandemia assimétrica

Mas nem todos passam mal. Segundo um informe do Institute for Policy Studies e de Americans to Tax Fairness, entre meados de março e meados de maio – durante a quarentena parcial – os estadunidenses mais ricos aumentaram suas fortunas em 434 bilhões de dólares.

Embora haja quem diga que o vírus não discrimina entre classes e fronteiras, ao mesmo tempo, 38,6 milhões de trabalhadores perderam seus empregos nos Estados Unidos, e o nível de insuficiência alimentar cresceu. 

Como escreveu o analista acadêmico e ex-secretário do Trabalho, Robert Reich, “Todos estamos enfrentando a mesma tormenta, mas nem todos estamos no mesmo barco. A desigualdade econômica nos Estados Unidos produziu duas pandemias muito diferentes: em uma, os multimilionários estão se isolando em seus iates no Caribe, e as famílias ricas podem passar a quarentena em mansões multimilionárias. No outro barco estão as pessoas que arriscam a vida por seu emprego e as pessoas sem renda que estão passando fome”.

Poucos x muitos

Mais lacônico, mas não menos eloquente foi o senador Bernie Sanders, que comentou que “uma nação não é sustentável quando tão poucos têm tanto enquanto tantos têm tão pouco”. 

Em semelhantes circunstâncias como se pode estranhar que o brutal assassinato de George Floyd, seja a gota que transbordou o cálice, após ultrajar a toda a sociedade, mobilize a milhões de mulheres e homens brancos, latinos, indígenas, mestiços, classes médias, trabalhadores, empregados precários e intelectuais de toda cor, junto aos negros, igualmente fartos de semelhante regime de extrema desigualdade e múltiplas discriminações, que insiste em retornar à sua “normalidade”, que – crise atrás de crise – uma e outra vez quer voltar. 

Nils Castro, Colaborador de Diálogos do Sul, da Cidade do Panamá.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Nils Castro Um dos mais prestigiados intelectuais da região. É autor do livro “As esquerdas latino-americanas em tempo de criar”

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