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Pandemia do coronavírus põe em evidência crise sanitária do capitalismo

Costuma-se dizer que das piores experiências, podem-se extrair valiosas lições. A crise desatada em nossos países pelo novo vírus é um exemplo
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

A epidemia desatada na cidade chinesa de Wuhan, desde dezembro do ano passado, já gerou severos prejuízos no país asiático que, no entanto, conseguiu superar o mal. O pior, entretanto, é que se expandiu a outros continentes, e hoje ataca virtualmente o mundo todo. América Latina a sente na própria carne.

Tem-se discutido muito a respeito da verdadeira origem da pandemia atual. O governo chinês a situa em um evento militar realizado em seu território ao qual compareceu um nutrido destacamento dos Estados Unidos da América do Norte. Eles trouxeram o vírus e o inseriram aqui – disse um recente comunicado das Forças Armadas da República Popular da China-. E o fato não seria uma surpresa. 

Os Serviços Secretos dos Estados Unidos têm cultivado diversas especialidades para assegurar êxitos no confronto que mantêm pela hegemonia mundial. A guerra bacteriológica é uma delas. Contra Cuba, por exemplo, puseram em prática a Dengue Hemorrágica, a Febre Porcina, a Gripe Aviária e outras pragas que afetaram a produção agrícola e até a vida de diversas espécies na ilha.

Costuma-se dizer que das piores experiências, podem-se extrair valiosas lições. A crise desatada em nossos países pelo novo vírus  é um exemplo

Reprodução: publicdomainpictures
Mercado chines

Hoje, no afã de debilitar o gigante asiático, a administração Trump não teria escrúpulo algum em fomentar agressões desse tipo não só para distrair a atenção de Pequim, mas também debilitar a imagem da República Popular no cenário mundial. Se Paris bem vale uma missa, como diz o dito popular, a defesa do sistema de dominação mundial capitalista justifica mais que isso. 

No entanto, o fenômeno trouxe à tona duas maneiras de enfocar as coisas. Enquanto o mandatário norte-americano no princípio desestimou a gravidade da epidemia, o governo de Cuba abriu os braços a todos os países em clara expressão de solidariedade. 

O incidente com o barco britânico “Braemar”, demonstrou isso. Enquanto as autoridades estadunidenses negaram a chegada aos seus portos por ter entre seus passageiros alguns infectados, o governo de Cuba acolheu as quase mil pessoas que viajavam no navio.
Na quarta-feira passada, diante do assombro do mundo, tripulantes e passageiros do transatlântico desembarcaram no porto de Mariel e horas depois, do aeroporto José Martí de Havana, todos partiram a Londres, sãos e salvos. Nunca será esquecido esse maravilhoso gesto de Cuba.

No que a nós se refere, já o Primeiro Ministro, Antonio Zeballos informou o apoio de Cuba, tão oportuno e eficiente sempre. Ninguém poderia desestimá-lo.

Mas o tema em nossos países reveste também outras considerações. E põe em evidência a crise do capitalismo dependente que os povos hoje questionam. 

Embora a medicação mais simples para enfrentar o mal, seja lavar as mãos, em Lima há dois milhões de pessoas que não têm abastecimento de água. Se do que se trata é dispor de uma “alimentação balanceada”, 60% de nossas crianças sofrem desnutrição crônica. Se o que se requer é um atendimento hospitalar adequado, todos sabemos que os serviços médicos são elitistas e caros. Se as pessoas devem ficar em casa, a realidade é que 9 milhões de peruanos vivem “dia após dia”. Se não trabalham hoje, hoje não comem. 

E não podemos esquecer tampouco o drama das populações das zonas marginais da capital: Collique, Jicamarca, as ladeiras de Chillón, Ticlio chico, y outras; sem esquecer dos milhões de peruanos que vivem em condições de virtual abandono no interior do país. Programas sociais de assistência são indispensáveis. 

Todos sabemos também que em momentos de crise há aqueles que buscam usá-la em seu próprio benefício. Há aqueles que se aproveitam para especular com os preços dos produtos de primeira necessidade; para ocultar bens de consumo e revendê-los sem controle; para despedir trabalhadores alegando que não podem pagá-los se não produzem. Para cúmulo, a CONFIEP exige que os trabalhadores mineiros não acatem a quarentena porque “a mineração não pode parar”. E o governo “acata”.

Mas há, ademais, outros dramas que se ocultam: o das crianças de Cerro de Pasco afetados pela Leucemia, produzida pelos restos (relaves) das minas; e a Dengue, que já afetou mais de três mil pessoas no oriente peruano. Não podemos permitir que se ocultem esses fatos. É dever de todos promover a solidariedade ativa com todas as vítimas destes fenômenos terríveis. 

O mesmo tempo, devemos ressaltar o papel que estão cumprindo segmentos particularmente sacrificados da sociedade peruana: os profissionais de saúde, médicos e enfermeiros, assim como os trabalhadores dos hospitais que arriscam suas vidas a cada dia para salvar as vidas de outras pessoas. Os bombeiros também fazem parte dessa realidade.   

Um exemplo alentador foi o comportamento dos policiais e militares que subiram às unidades de transporte para falar com as pessoas e explicar a perigoso situação criada e a necessidade de assumir um comportamento diferente. 

Essa constitui uma boa base para iniciar a reconstrução de um “modelo” quase esquecido: a unidade do povo e forças armadas como instrumento de libertação social e desenvolvimento. E é preciso usar a conjuntura em melhores termos para consolidar um vínculo de solidariedade social e comportamento humano, para fardados e civis.

Ainda é prematuro adiantar julgamentos. Não se sabe quando demorará o país para reverter a situação criada. Mas a tarefa está colocada e cada um tem que cumprir com as responsabilidade que lhe competem.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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