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Pandemia, racismo estrutural e violência policial sacodem os Estados Unidos há 100 dias

Em meados de março, foi declarada oficialmente uma emergência nacional e os Estados Unidos se converteram no epicentro da pandemia mundial
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O passado e o futuro se enfrentam nas ruas, dentro do que é de fato um “Estado falido” (que não pode ou não quer solucionar as necessidades básicas de seu povo), onde um regime com traços neofascistas, a cada dia mais desesperado portanto mais disposto a fazer o que era antes impensável para manter seu poder, se enfrenta com uma onda inovadora de rebeldes e dissidentes que buscam transformar, por fim, um sistema de violência social, econômica e política.

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Ou seja, o sistema estadunidense está (como evitar essa palavras já muito usada e quase eterna “crise”?)  em um momento de implosão – algo que poderia ser muito perigoso para todos, além das fronteiras, se resultar ser uma explosão – ou de transformação. 

Em meados de março, foi declarada oficialmente uma emergência nacional e os Estados Unidos se converteram no epicentro da pandemia mundial

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Os Estados Unidos se converteram no epicentro da pandemia mundial

Ainda não se sabe qual.  

A defesa do passado é coordenada por um bully assustado em um bunker subterrâneo na Casa Branca. O comandante das forças obscuras do passado é responsável de mais de 100 mil mortes evitáveis (mil delas de mexicanos nos Estados Unidos) por seu manejo criminoso da pandemia.

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É também responsável, por algo entre 20 e 40 milhões de desempregados, de um aumento nos crimes de ódio racial, do fortalecimento, segundo o FBI, de propiciar atos de terrorismo por parte de agrupações de ultradireita, de colocar famílias com crianças em jaulas, de qualificar todos seus opositores como “traidores” do país (inclusive seu antecessor), de ameaçar reprimir com forças militares a cidadãos estadunidenses que se manifestam nas ruas, de acusar os imigrantes de todos os crimes, das violações, e agora com a Covid-19 de desmantelar normas e medidas para proteção do meio ambiente e da saúde pública, sem falar da destruição de acordos e normas multilaterais.

É seguramente o único presidente que conseguiu que coincidam desde ex-generais, incluindo chefes do Estado Maior, a figuras como Noam Chomsky e Angela Davis de que Trump é uma ameaça à democracia dos Estados Unidos e à sobrevivência do planeta – uma amplíssima gama de vozes concluíram que é “o presidente mais perigoso da história dos Estados Unidos”. 

Essa defesa do passado de domínio branco e do mais selvagem do capitalismo implica esmagar todas as forças que se recusem a submeter-se, suprimindo suas vozes, ameaçando com repressão ou deportando-os do país – o presidente tem declarado a todos que o questionam ou se atrevam a freá-lo como “inimigos do povo”.  

O resgate do futuro está agora mesmo nas ruas com um grito de basta já (com 400 anos de ecos) contra a violência racista sistêmica. Embora as expressões massivas nas ruas que duram mais de um mês sem parar tenham sido detonadas por mais outro ato de violência racista oficial, o novo movimento surge de anos de organização por vários setores que de repente se encontram nas ruas.

E é uma resposta que evolui de um incidente de violência da polícia a um contra a violência de um sistema econômico, político e social, construído desde suas origens sobre a submissão e a exploração brutal violenta de escravos africanos, de indígenas estadunidenses e depois, até hoje, de ondas de imigrantes de todo o mundo.  

É essa história de violência que está mudando nestes dias, até de maneira física. Não apenas se seguem derrubando símbolos da história racista e imperial, mas obrigou-se a instituições de cúpula e da elite reconhecerem sua cumplicidade histórica. Por exemplo, nesses últimos dias, a Universidade Princeton anunciou que tiraria o nome do Presidente Woodrow Wilson de suas instalações e programas por sua história imperial e racista.  

Em meados de março, foi declarada oficialmente uma emergência nacional e os Estados Unidos se converteram no epicentro da pandemia mundial, como resultado da tardia e caótica implementação de medidas de mitigação, o que provocou uma magna crise econômico; e há um mês, um homem afro-estadunidense com um joelho de um policial no seu pescoço articulou suas últimas palavras “não posso respirar”. São 100 dias que sacudiram os Estados Unidos. 

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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