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Pandora Papers põem em dúvida honestidade de líderes de Azerbaijão, Cazaquistão e Ucrânia

Países do espaço pós-soviético se valeram de paraísos fiscais para adquirir propriedades no Reino Unido, evadir impostos e até enriquecer segunda esposa
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Os Pandora Papers, a julgar pelo publicado até agora, põem em dúvida a honestidade dos governantes do Azerbaijão, do Cazaquistão e da Ucrânia, países do espaço pós-soviético, que se valeram de paraísos fiscais para adquirir propriedades no Reino Unido, evadir o pagamento de impostos e, em um caso, até enriquecer uma segunda esposa não oficial, entre outros artifícios que acreditaram que nunca iriam ser sabidos. 

Assim, segundo as revelações do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos que analisaram os arquivos, a família do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, aparece em operações de 84 companhias offshore das Ilhas Virgens Britânicas que se especializaram em adquirir propriedades em zonas exclusivas de Londres. Se estima que houve um momento em que o valor total das compras alcançou o equivalente a 700 milhões de dólares e se diz que, ao despencar os preços do petróleo em 2015, a família teve que vender algumas casas para investir o dinheiro em outros âmbitos e diversificar os negócios. 

Países do espaço pós-soviético se valeram de paraísos fiscais para adquirir propriedades no Reino Unido, evadir impostos e até enriquecer segunda esposa

Montagem Diálogos do Sul
Kassym-Jomart Tokayev, Volodimir Zelenskiy e Ilham Aliyev presidentes de Azerbaijão, do Cazaquistão Ucrânia

Muitos dos ativos estão em nome dos filhos do mandatário, que se convertem em milionários quase desde que aprendem a andar, como é o caso de Geidar, de nome igual ao do avô, o qual antes de ser presidente do Azerbaijão foi primeiro secretário do partido comunista dessa república na época soviética. 

Quando Geidar, o neto, ainda estava no curso primário, recebeu como presente paterno sua primeira companhia offshore e, com apenas 11 anos de idade já era dono de um edifício na capital britânica, cujo preço estimado ascende a 44 milhões de dólares, enquanto a filha do atual mandatário, Arsu, ao completar 19 anos, tinha propriedades em Londres por 7 milhões de dólares e uma fábrica de materiais de construção. 

Esqueça Mônaco: EUA se tornaram um dos maiores paraísos fiscais do planeta

Nursultan Nazarbayev, líder vitalício do Cazaquistão desde antes do colapso da União Soviética, que se afastou da presidência sem soltar as rédeas do poder enquanto termina de escolher quem será seu sucessor dentro de seu clã, figura nos Pandora Papers por outro motivo, embora a imprensa britânica tenha publicado, em fins do ano passado, que sua filha Dariga é a misteriosa proprietária da mítica casa localizada no número 221B de Baker Street, onde se supõe que vivia Sherlock Holmes e agora é museu, mas também dona das casas dessa rua, entre os números 215 e 231, adquiridas por apenas 140 milhões de libras esterlinas.

Os Pandora Papers trazem à luz pública a riqueza de outra mulher, Asel Kurmanbayeva, que aos 18 anos ganhou um concurso de beleza e recebeu a coroa de Miss Cazaquistão.

Os rumores nesse país centro-asiático identificam a Kurmanbayeva como a segunda esposa do velho cacique, entre outras razões pelo costume no país de pôr como sobrenome dos filhos o nome do pai. Nos documentos de identidade de seus dois filhos, publicados nos portais de notícias, eles aparecem com o sobrenome Nursultanul, derivado de Nursultan.  

Mas poderia ser uma simples coincidência, mas não é isso que demonstram os arquivos: Kurmanbayeva recebeu de alguns magnatas do país doações — formalmente ações de uma empresa que só existe no papel — por 30 milhões de dólares. A senhora é dona de outras empresas que mantêm estreitos nexos com a Fundação de Nazarbayev e há contratos que mostram vários negócios conjuntos. 

Pandora Papers: Investigação revela os paraísos fiscais dos milionários

Por último, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, ganhou as eleições acusando o magnata Petro Poroshenko de ser um evasor fiscal que explora o povo, enquanto desde 2012 todos os ganhos que gerava seu programa de televisão como comediante e de sua equipe de colaboradores, iam parar a uma rede de firmas offshore, que foram usadas para comprar várias casas em Londres e que era dirigida presumidamente por Ivan Bakanov, que atualmente é diretor do Serviço de Segurança da Ucrânia. 

Pouco antes de ser eleito presidente, Zelensky cedeu sua participação nas companhias que tinha em paraísos fiscais a Serguei Shefir, neste momento uma espécie de secretário particular com poderes especiais. De acordo com os arquivos encontrados, essa rede pode continuar pagando benefícios a empresas que pertencem oficialmente à esposa do mandatário, Olena.

Antes das eleições, os adversários de Zelensky o acusaram de receber de Igor Kolomoisky 40 milhões de dólares, soma que supostamente foi roubada pelo polêmico multimilionário. Nos Pandora Papers não foram encontradas provas de que esse dinheiro tenha sido roubado, embora as companhias offshore onde se perdeu a pista deles pertenciam ao atual presidente ucraniano. 

*Tradução Beatriz Cannabrava

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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