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Para a grande mídia do Peru, execuções de civis por policiais e militares são meros "excessos"

Cabe recordar que em todas as cidades do país as manifestações foram pacíficas, e só se tornaram violentas quando os manifestantes foram agredidos
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

Estava ainda quente o sangue dos caídos em Juliaca e Puno quando Alberto Otárola e os seus incursionaram na sede do Legislativo, no último dia 10, em busca de um Voto de Confiança. Embora inicialmente tenham sido desalojados do hemiciclo pelo repúdio ostensivo de um bom grupo de parlamentares, finalmente os visitantes tiveram êxito e obtiveram um voto de confiança estendido por 73 congressistas. As razões da “confiança” não foram claras. Se esconderam atrás de grandes palavras: democracia, ordem, respeito, propriedade; mas não puderam ocultar sua essência. Deram-lhes a confiança, porque sabiam que poderiam confiar que continuariam matando peruanos, em consideração aos altos valores esgrimidos.

Teria sido pertinente que, nesse fragoroso cenário, que algum congressista tivesse apresentado uma Moção de Ordem do Dia outorgando um Voto de Confiança ao Povo, por sua valorosa luta contra a usurpação, o crime e a barbárie. Tal iniciativa, seguramente desestimada, teria posto ainda mais em evidência os áulicos do regime ali presentes.

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A Grande Imprensa fala já de 50 “mortos” como um modo de ocultar a realidade: Não foram mortos, mas sim assassinados. Cabe sublinhar a diferença. Nessa linha, a Classe Dominante insiste que o que a polícia e a Força Armada fazem é “preservar a ordem” e, eventualmente, incorrem em “alguns excessos”. Com relação ao primeiro há que recordar que em todas as cidades do país, as manifestações foram pacíficas. E só se tornaram violentas, quando os manifestantes foram agredidos. Além disso, cabe sublinhar que foram atacados com perdigões e bombas, disparadas desde helicópteros que, ao mesmo tempo, transportavam efetivos e materiais que iam acrescentar a capacidade repressiva do Estado.

Quanto aos “excessos” – palavra usada inclusive por Monsenhor Barreto – cabe mencionar que não pode ser usada. “Cair em excessos” é outra coisa. Tomar 5 garrafas de cerveja é um excesso que gerará um ostentoso porre; ingerir três pratos de feijão, é outro excesso que provocará severas desordens estomacais; Monsenhor Barreto, poderia oferecer uma missa dominical, mas se rezasse dez, ficaria esgotado; mas matar não é um excesso. É um crime.

Quando se advertem às crianças que devem cuidar-se e não exagerar, porque “tudo em excesso prejudica”, se alude ao que afeta o mortal comum; bebidas, comidas, prazeres, jogos; mas não se pensa na morte; matar não é “um excesso”. Nenhum adulto o imagina em tal sentido.

Cabe recordar que em todas as cidades do país as manifestações foram pacíficas, e só se tornaram violentas quando os manifestantes foram agredidos

Reprodução – Twitter | CGTP PerúÉ bom perguntar: até quando haverá de durar tudo isso?




Muitos artifícios

A classe dominante se vale de muitos artifícios. A Grande Imprensa encheu seus noticiários com os presumidos vândalos que assaltaram armazéns comerciais em Juliaca e Puno sem que nenhum deles fosse capturado. Dois dias mais tarde, descobriram muitos dos objetos roubados em poder do Chefe da Polícia local. E a propósito: acaso não se descobriram que houve inclusive em Lima atos de vandalismo executados por integrantes do Grupo Terna, policiais civis a serviço do regime?

Porém há mais, a cidadã Fanny Mayta Porto afirmou que a PNP utiliza foto de seu primo falecido há uma semana em Chiclayo, o tenente Oliver Quispe Aliaga, como o suposto policial queimado vivo em Puno, cujo cadáver foi recolhido sem a presença de um promotor. Pode-se acreditar, então, na “versão oficial” que nos transmitem “os meios”?

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Em todo caso, nem a “Grande Imprensa” recolheu a versão, nem as autoridades tiveram o trabalho de desmenti-la e explicar o que foi que ocorreu na madrugada da terça-feira passada – nas horas do toque de recolher – quando foi queimado o veículo policial com um cadáver dentro.


Até quando?

De toda maneira é bom perguntar: até quando haverá de durar tudo isso? Enquanto “os de baixo” choram pelo sangue derramado, “os de cima” choram pelos milhões de dólares perdidos. Assim se poderia perfilar a diferença entre um voto de confiança aos ministros, e o outro, que bem mereceria o povo.

Quando no último dia 9 os porta-vozes de distintos estamentos reunidos no Acordo Nacional intercambiavam ditirambos referidos à governabilidade, as coisas tomaram um rumo diferente. Aos ilustres assistentes, ninguém jogou neles um copo de água fria na cara, mas sim vários litros de sangue quente, para devolvê-los à realidade.

É curioso. Nessa mesma circunstância, Dina Boluarte disse “não entender” o que pediam os manifestantes em diversas cidades do país. Como uma maneira de combater o incremento do Produto Interno Bruto, que parece haver crescido desmedidamente a partir de 7 de dezembro passado, já vários – com paciência de professor serrano – lhe explicaram que o que pedem todos é sua renúncia ao cargo. Claro que para ela essa decisão não será fácil. Implicaria não só admitir sua derrota, mas também escapar de uma responsabilidade que a acompanhará a vida inteira.


Além das fronteiras

A questão é que os delitos de Lesa Humanidade vão além das fronteiras, e não prescrevem.

Um consolo, no entanto, haverá de ter: por mandado do artigo 128 da Constituição vigente, seus ministros – inclusive Otárola – são solidamente responsáveis pelos crimes cometidos e pelos acordos adotados pelo Conselho que integraram, salvo que renunciassem a ele. O titular do Trabalho, “saiu”. Irão os demais ao “bote”.

Por tudo isto, esse Gabinete não merece confiança. O povo, sim. 

Gustavo Espinoza M. | Colaborador da Diálogos do Sul em Lima, Peru.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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