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Para analista, declínio de Piñera abriu espaço para direita xenófoba e bolsonarista

Piñera sempre teve um conflito latente entre a política e os seus negócios. Sua carreira política, a partir de que foi senador e duas vezes presidente do Chile, esteve na corda bamba entre a política e os negócios
Leonardo Wexell Severo
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

“O presidente Sebastián Piñera é viciado em um jogo em que só ele, sua família e amigos ganham, e o Chile sempre perde. Nenhum deles está preso. O problema é que são centenas de milhões de dólares, principalmente com o domínio político do sistema financeiro, mas há também a manipulação de informações privilegiadas em proveito próprio, para enriquecimento ilícito, enquanto a população se vê abandonada. Como analista, diria que o povo chileno decidiu dar um basta neste tipo de abusos”.

A afirmação é do chileno Nicolás Retamal Rivera, formado em História, com especialização em relações internacionais contemporâneas pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA-Brasil), em Direitos Humanos pela Fundação Henry Dunant (Chile) e mestrado em Comunicação Estratégica, que fez uma breve análise sobre o desgoverno de Piñera e suas implicações para as eleições presidenciais do próximo 21 de novembro.

Piñera sempre teve um conflito latente entre a política e os seus negócios. Sua carreira política, a partir de que foi senador e duas vezes presidente do Chile, esteve na corda bamba entre a política e os negócios

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Nicolás Retamal Rivera

Diálogos do Sul | Os Piñera papers trouxeram à tona, com farta documentação, o que a oposição chilena denunciava sobre os vínculos entre o enriquecimento do presidente e a sua forma de fazer “política”. Como analista internacional, qual a sua opinião sobre o assunto?

Nicolás Retamal Rivera | Como dizem os advogados, em primeiro lugar há uma questão que precisamos distinguir: como presidente, Piñera sempre teve um conflito latente entre a política e os seus negócios. Sua carreira política, a partir de que foi senador e duas vezes presidente do Chile, esteve na corda bamba entre a política e os negócios. Ele nunca deixou clara a linha divisória entre os dois, chegando ao ponto de que quando foi presidente da LAM (atual LATAM) ter sido multado pelas autoridades chilenas pelo uso de informação privilegiada. Então, já como empresário estamos falando de alguém que não tem regras, não atua do ponto de vista da ética e da moral. E este tipo de atitude, Piñera também tem adotado na vida política, transgredindo a ética e a moral.

São essas acusações graves que impulsionaram a frente de oposição a anunciar para a próxima semana o pedido de impeachment.

Exatamente. Tanto é assim que nos anos 90, quando Piñera era senador e presidente de seu partido de direita, o Renovação Nacional, ele deixou claro este conflito entre o político e o empresário. Ele foi denunciado fazendo manobra de manipulação de entrevista para atacar uma candidata que estava lutando pela liderança da direita. Isso se chama em Chile o quiotazo (soco). Isso foi transmitido pela televisão. Então, as atitudes que vêm tendo ao longo da sua vida, tanto pública como empresarial, sempre estiveram carentes de ética.

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E sempre com um discurso como se fosse agir como um justiceiro.

Exato. Durante sua primeira presidência, ele sempre utilizou um discurso muito violento dizendo: “delinquente, acabou a festa”. Este era o seu lema de campanha. Agora vemos na realidade quem é o verdadeiro delinquente. Então, para quem acabou a festa? Aos que estão na periferia e roubam uma carteira ou aos que roubam milhões de dólares?

Em relação aos Pandora Papers, Piñera se desculpa dizendo que há uma gama de documentos e ações que teriam sido repassadas aos seus filhos. Mas o que ficou claro é que usufruiu de regras políticas a seu favor, bem como das instituições políticas que têm o ramo financeiro.

Afora o impeachment, como a Justiça pode intervir neste caso?

Este é um projeto estrutural que temos desde os anos 2000 com o governo da Concertação. Há poucas penas de prisão para os empresários, porém há uma pena imensa para quem romper uma catraca do metrô. Porque desde 2019, quando houve o levante social, muitas pessoas se encontram presas sem condenação, o que é uma afronta a vários acordos de direitos humanos. Temos muita gente que está nos cárceres sem nenhum delito comprovado, enquanto temos um presidente com um problema de ludopatia financeira [Transtorno reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na sua classificação Internacional de Doenças, que afeta as pessoas de forma patológica, as quais ficam reféns da compulsão pelo jogo]. Este tipo atua na Bolsa de Valores, joga na Bolsa, o país perde milhões, e nenhum deles está preso. Como analista, eu diria que o povo chileno se cansou deste tipo de abusos.

Havia toda uma propaganda sobre o êxito chileno dos anos 90. O que realmente aconteceu?

Nos anos 90 o crescimento dos governos da Concertação se sustentou sob três paradigmas: trabalhas, democratiza teu crédito e paga os teus débitos. Essa geração dos anos 90, que cresceu sob esses três princípios, ficou toda endividada com a promessa de que viria a ser uma classe ascendente, porém teve que se endividar. Em primeiro lugar, a educação era paga; o único acesso era mediante o crédito. Também não havia outro tipo de acesso à saúde, precisando ser pago o seguro privado.

Então essas gerações que vieram depois são as que tomaram em suas mãos a batuta das mobilizações sociais pelas quais hoje passa o Chile. Isto começou em 2001, com o que os estudantes chamaram o mochilazo (levante das mochilas), que foi a primeira revolta durante o governo da Concertação contra o aumento da tarifa da passagem de ônibus. Posteriormente, em 2006, houve a revolução estudantil dos Pinguins (revolta secundarista contra o ensino pago). Estes mesmos Pinguins de 2006 estiveram em 2011, na universidade, e chegaram em 2019. Então o que está se passando do ponto de vista cíclico é que estas gerações, os filhos dos que cresceram em 90, estão vendo que seus pais cumpriram à risca, cada um deles, o padrão que lhes vendiam que daria certo. E agora veem que, com o neoliberalismo, não tem acesso à casa, não tem acesso a crédito, não tem acesso a nada.

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E pelas manifestações de 2019 pudemos ver o quanto este sentimento se ampliou e aprofundou...

Sim. Isso teve um apoio popular importante eu diria da grande massa dormida do Chile, coisas que a Concertação disse que ia ajudar, mas não fez. Disse que iria fazer transformações radicais profundas, mas o que fez foi administrar um modelo neoliberal e aprofundá-lo ainda mais. Eu diria que Piñera é consequência desse falso sucesso que disseram ter havido no Chile, da miragem dos US$ 30 mil per capita que não se vê refletida nas ruas, que não se vê refletida nos serviços sociais.

Em relação ao que passou, seja em 2018, 2019 e eu diria até em 2020, tem se tratado agora de manejar ou ocultar todos esses erros políticos com uma boa gestão das vacinas da pandemia da Covid. Existiu um grande oportunismo por parte dos governistas. O governo de Piñera vinha se mantendo até a explosão dos Pandora papers com uma certa popularidade e apoio, principalmente midiático, basicamente por ter tido uma exitosa política de vacinação.

E daqui para diante?

Não estamos falando de políticas sociais, de política econômica. O país tem entrado numa situação de estagflação econômica [situação simultânea de estagnação, ou até mesmo recessão, e altas taxas de inflação].  à qual se soma agora a acusação constitucional contra o presidente. Primeiramente, eu diria que esse é um problema para Piñera, porque ele não sabe, não tem controle político, suas equipes são empresariais, desconhecem, estão completamente deslocadas de toda a realidade territorial e local chilena.

É por isso que nas pesquisas presidenciais que podem ser vistas agora, seu candidato, Sebastián Sichel, ficou em segundo lugar mesmo na direita. Quem está em primeiro lugar na direita é José Antonio Kast, um sujeito que passeou com Eduardo Bolsonaro aqui no Chile. O declínio de Piñera gerou o declive desta ala empresarial e abriu espaço para esta direita xenófoba e bolsonarista por meio de Kast. Mas creio que isso só demonstra seu desespero. Acredito que a unidade das forças progressistas derrotará o fascismo, contribuindo para a construção de novos tempos para o Chile e para a nossa América.

Leonardo Wexell Severo é jornalista e colaborador da Diálogos do Sul


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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