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Para Kremlin, protestos que pedem liberdade de Nalvany são impulsionados pelos EUA

Os protestos, pela segunda semana consecutiva, deixaram de ser um fenômeno exclusivo da capital Moscou e se interiorizaram
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Nem as numerosas detenções prévias nem o desmesurado aparato policial impediram que neste domingo dezenas de milhares de pessoas saíssem às ruas para protestar em pelo menos 85 cidades da Rússia, sem temor a se expor à brutal repressão que costuma ser habitual em qualquer manifestação não autorizada, e que nesta ocasião teve um novo recorde de detidos, pelo menos 5.135, em uma primeira estimativa com dados que chegam de todos o país. 

Somente em Moscou a organização não governamental OVD-info reportou 1.635 detidos às 23:45, hora local, deles 82 jornalistas que cobriam as marchas de inconformados com a política do Kremlin, a maior parte estudantes universitários, conscientes de que podiam sofrer detenções, surras, multas elevadas e inclusive condenações a vários anos de prisão. 

Os protestos, pela segunda semana consecutiva, deixaram de ser um fenômeno exclusivo da capital e as mostras de rechaço ao presidente Vladimir Putin começam a cobrar força no interior do país, em alguns lugares mais que em outros. 

Para o Kremlin as manifestações que pedem a liberdade do líder opositor Alexei Navalny –que se encontra em prisão preventiva desde o dia de seu regresso de Berlim, 17 de janeiro, e na espera de um julgamento, na terça-feira próxima, que pode condená-lo a anos de prisão – são impulsionadas desde o exterior, em particular pelos Estados Unidos ao qual atribui uma “grosseira ingerência” em seus assuntos internos, ao mesmo tempo em que justifica o uso desproporcional da força por serem protestos ilegais, ao não contar com a licença das autoridades devido à “situação epidemiológica”, razão pela qual há dias condenaram à detenção domiciliar os principais colaboradores de Navalny.

Difícil saber se os protestos deste domingo podem ser equiparados em número aos do sábado anterior, mas – a julgar pelo que aconteceu em Moscou, São Petersburgo e Yekaterinburg, as cidades mais povoadas do país – é óbvio que durante pelo menos seis horas os manifestantes não puderam ser freados e puseram de prontidão a polícia, as unidades antidistúrbios e a guarda nacional, que desde cedo bloquearam o centro dessas cidades, fecharam dezenas de estações de metrô, modificaram o trajeto do transporte público de superfície, instalaram valas nas ruas e estacionaram dezenas de caminhões para transportar os eventuais detidos

Os protestos, pela segunda semana consecutiva, deixaram de ser um fenômeno exclusivo da capital Moscou e se interiorizaram

Twitter / Reprodução
Manifestações de rejeição do presidente Vladimir Putin começam a ganhar força no interior do país

Organização horizontal sem “líderes visíveis”

Em Moscou – com uma surpreendente organização horizontal sem líderes visíveis, mediante breves mensagens em redes sociais que a polícia tratou de silenciar -, as colunas de manifestantes não se concentraram em um só lugar, mas se converteram em uma autêntica dor de cabeça para as forças da ordem ao se separarem em numerosos grupos para avançar por outras zonas da capital e mais pra frente voltar a se juntar, e assim vários vezes, provocando o deslocamento frenético de um lugar a outros dos fardados. 

Várias centenas de manifestantes conseguiram romper o cerco policial e se aproximaram da prisão de Matroskaya Tishina, onde se acha recluído Navalny, para lançar consignas em seu apoio. Na próxima terça-feira, por convocatória dos colaboradores de Navalny que estão na clandestinidade ou conseguiram se refugiar em outro país, como Iván Zhdanov e Leonid Volkov, muita gente tratará de se aproximar ao tribunal que julgará o opositor para exigir sua liberdade. 

Os atuais protestos obedecem também à indignação que causou em muitos russos, jovens sobretudo, o suposto palácio que Navalny atribui a Putin, em um vídeo disponível no YouTube que está para aproximar-se dos 106 milhões de visualizações. 

Os desmentidos do Kremlin não foram convincentes e a mais recente tentativa parece a enésima confirmação de que às vezes é pior o remédio que a doença: o magnata da construção e banqueiro Arkadi Rotenberg, amigo de infância de Putin desde que ambos são aficionados ao judô, disse na sábado passado ser o dono do polêmico palácio. 

Rotenberg concedeu apenas uma breve entrevista a um meio eletrônico que conta com o beneplácito do Kremlin e se limitou a afirmar que o palácio é seu e que não há nada de ilegal nisso, sem mostrar nenhum documento que o demonstre, nem precisar quando o comprou, quanto lhe custou, quem o vendeu, que relação tem ele com as empresas em paraísos fiscais que figuram como proprietários; por que várias empresas do setor público financiaram sua construção ou como é que outros potentados e amigos de Putin fizeram generosas doações. 

Rotenberg tampouco esclareceu quem autorizou que o presumido hotel que agora quer construir aí tenha heliporto e vinhedos próprios, como é que a vigilância da propriedade de um particular está a cargo dos serviços secretos que protegem os mais altos funcionários ou porque está proibido o acesso por terra, mar e ar, entre muitas outras perguntas que o jornalista não considerou necessário fazer.

Juan Pablo Duch correspondente de La Jornada em Moscou.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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