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Paraguai: Oviedo teria sido assassinado

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

José Antonio Vera*

Lino Oviedo

Lino César Oviedo, ex-general paraguaio e candidato à presidência da República nas eleições de domingo, 21 de abril, morto algumas semanas atrás com a queda de seu helicóptero, teria sido assassinado, segundo sua filha, deputada Fabiola Oviedo, que afirma ter, a autoria do crime, nome e sobrenome, com um grande país por trás, e pormenores que ainda não pode revelar “por respeito à investigação em andamento”.

Essa hipótese, “compartilhada por toda a família”, surgiu em grande parte da cidadania imediatamente após o falecimento do controvertido homem público, sem o peso da clara alusão feita pela filha, sem nomeá-lo, a Horacio Cartes, candidato do Partido Colorado e favorito nas pesquisas e nos seus apoiadores externos, os Estados Unidos, mencionado como potencia estrangeira.

Oviedo foi um agressivo militante muito badalado pela mídia, impulsor  de ideias hitlerianas, de família humilde mas em posse de uma das grandes fortunas do país, cuja origem continua sendo um mistério, tal como a da maioria dos multimilionários paraguaios, cuja acumulação tem relação com o tráfico ilegal de drogas, armas e o contrabando em massa de todo tipo de mercadorias, por água, terra e ar, parte dum projeto de dominação do país vigente até agora.

Sua morte despertou a suspeita de que foi um atentado, produto de sua desobediência a seguir a determinação dos Estados Unidos para que o protegido Cartes seja o próximo mandachuva do Paraguai, e com isso aumentar sua forte presença no país, entregando para o Exército o controle da cidadania hoje em mãos da polícia e, junto com isso, a instalação de uma base militar em solo chaquenho (pantanal paraguaio), próximo à fronteira com Bolívia, Argentina e Brasil, e ao riquíssimo e cobiçado território amazônico.

Cartes, está recebendo o apoio público de conotados padrinhos da máfia, como o Fadh Jamil, confesso admirador do sinistro general Alfredo Strossner que, juntamente com o Partido Colorado e ao binômio Exército-Empresários, subjugou o povo entre 1954 e 1989, quando foi expulso do poder por seus amigos mais próximos, entre eles Oviedo, por decisão de Washington que, depois de tê-lo utilizado para quanta barbaridade foi possível durante 35 anos, como a Operação Condor e o massacre de milhares de camponeses e militantes de esquerda, entendeu que já não servia mais e mandou-o para o acostamento.

A declaração de Fabiola Oviedo, amparada em sua autoridade parlamentar, ocorreu no mesmo momento em que a viúva do general, Raquel Marín, do Partido Unace, abraçada ao candidato liberal Efraín Alegre, entre os dirigentes de ambas as organizações, anunciou que haviam chegado a um acordo para somar os votos de seu eleitorado contra a candidatura de Cartes. O fim justificaria os meios, ainda que ambos estejam revestidos de imoralidade e de miséria humana.

Cartes, coincidindo com o  restante das forças políticas, respondeu de imediato que esse pacto é produto dos 12 milhões de dólares que o governo golpista (que Cartes ajudou a instalar nove meses antes), acaba de pagar por uma terra que tinha como proprietário o pai do presidente do Senado, Jorge Oviedo Mato, escrivão e sócio de Oviedo e um dos membros da ultradireitista Unace, que aparece como o próximo ministro do Interior no caso de que essa aliança ganhe as eleições e dê prosseguimento e aprofunde a política do usurpador Federico Franco.

A Comissão da Verdade e Justiça, depois de quatro anos de estudos, constatou que neste país sem Cadastro Nacional, há entre oito e doze milhões de hectares ocupados de forma ilegal, com títulos apócrifos e fotocopias multiplicadas que circulam como documentos autênticos, que nos últimos 60 anos foram passando de avós para netos e a numerosas mãos, muitas estrangeiras, sob a cínica etiqueta governamental de reforma agrária, entregando a 2.5% dos residentes, 86% da terra mais fértil, numa realidade de desigualdade social das mais atrozes do mundo.

A cidadania está convocada para eleger as novas autoridades nacionais, Presidente, Senadores e Deputados, um dia antes de completar dez meses de um dos capítulos mais vergonhosos da história paraguaia moderna, o golpe de estado parlamentar do dia 22 de junho que terminou com o primeiro governo eleito democraticamente nas últimas sete décadas.

Com esse golpe contra a estabilidade que reinava no país havia quatro anos, seus autores violaram claros preceitos constitucionais, incorreram em traição a acordos políticos alcançados com muito esforço e incontáveis concessões dos setores mais progressistas ao Partido Liberal, e terminaram com o governo presidido pelo ex bispo Fernando Lugo, representando uma ampla aliança multipartidária e social.

Até ai quase nenhuma novidade excepcional, posto que governos caem constantemente mundo afora, em geral os mais bem intencionados e mais ingênuos ou capituladores, mas a diferença essencial é que o que se produziu no Paraguai nestes nove meses é que os golpistas cortaram arteiramente e com grosseiro fanatismo anti-povo, um processo de câmbios políticos e sociais como a população paraguaia não desfrutava em mais de um século. Sem dúvida que as falhas de seus dirigentes alimentaram a cobiça inimiga.

O golpe encabeçado pelo vice-presidente Federico Franco, enfermo de inveja e faminto de poder e riqueza, em representação de um amplo leque de s capitalistas nacionais e estrangeiros temoroso diante do forte despertar da consciência cidadã, que conformam os aparatos de mando de liberais e colorados, as cúpulas empresariais oligárquicas e sem pátria, os núcleos que vivem do contrabando e do narcotráfico e as corporações transnacionais das plantações e os extrativistas que destroçam a natureza, todos para cumprir a vontade imperial, que insiste em sua estratégia de recolonização da América do Sul.

Paraguai não é uma exceção, pois a direção dessa quadrilha inimiga do bem-estar dos povos é a mesma que se manifesta contra todos os governos progressistas da América Latina e do Caribe, com a diferença de que alguns suplentes em décadas passadas agora são titulares,  abraçados todos na santa missão de massacrar a milhares de milhões de pobres deste território, mas também da África, Ásia e ultimamente da orgulhosa Europa, em uma demencial teimosia por manter vigente este sistema produtivo e social injusto de estrutura decomposta.

Os dois candidatos com mais possibilidades de ganhar, Cartes e o renegado Alegre, coincidem em muitas coisas, como levar um projeto de mais miséria e de estar imersos na corrupção, a julgar por suas próprias reprimendas e em sua alienação ideológica de privatistas  tresnoitados com a incultura dos caudilhos divisionistas, sem nenhuma sensibilidade social nem interesse pela prosperidade do país.

Padecem de autismo diante da profunda desigualdade e exclusão social, as angustias provocada pela miséria de uma quinta parte dos paraguaios e da pobreza de outro tanto, uns 300 mil camponeses convertidos em párias, extrema exploração laboral com só 30% de trabalho formal, muitos dos quais cumprem jornadas de até 16 horas diárias em empregos domésticos e nos supermercados, com 65% da População Economicamente Ativa sem qualquer previsão, nem seguro médico nem aposentadoria, sem sequer diante dos acidentes de trabalho em empresas que se negam a olhar como seres humanos a seus operários.

Entre 150 países estudados por Transparência Internacional, Paraguai é o segundo mais corrupto da América do Sul, onde a administração da Justiça não existe e a delinquência é a profissão predominante para exercer o poder do Estado, fazendo do saqueio sistemático do erário público a principal ferramenta política da máfia de mandachuvas, em uma demencial corrida pelo enriquecimento individual e das cúpulas partidárias.

Em meio a tanta sombra e mentira, insurgem vozes e atos cuja transcendência ainda é difícil de avaliar e quantificar, mas algo que está claro no panorama político do Paraguai é que o verticalismo está morto e, ainda que o autoritarismo cultural continue forte, muitas expressões entre os jovens, alentam a ideia de que se estaria abrindo fossas para enterrar a velha massa passiva e acrítica, indispensável para que se desenvolva uma resposta cidadã como escudo aos planos repressivos do continuísmo golpista.

 

*jornalista uruguaio radicado no Paraguai, ex correspondente de IPS na França, especial para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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