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Paraguaios se unem para ratificar lei que devolve Curuguaty aos sem-terra

Martina Paredes e Dario Asuncion, da Associação de Familiares e Vítimas do Massacre de Curuguaty, recebem solidariedade da CUT-A Paraguai e da ANDE
Leonardo Wexell Severo
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Com o apoio e a participação dos mais amplos setores da sociedade paraguaia, a Associação de Familiares e Vítimas do Massacre de Curuguaty voltou a montar, nesta quarta-feira (27), sua “Tenda da Resistência” na Praça de Armas, em frente ao Congresso Nacional, em Assunção.

“Em defesa da democracia e da justiça”, a mobilização é uma resposta ao veto do presidente Mario Abdo Benítez ao Projeto de Lei (PL) que transfere 1.748 hectares de Marina Kue, no distrito de Curuguaty, ao Instituto Nacional de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert).

Aprovado por deputados e senadores no final do ano passado, o PL possibilita que as cerca de 160 famílias de camponeses que reivindicam as terras que foram cenário do massacre sejam beneficiadas com a reforma agrária, tendo acesso a serviços básicos.

Mesmo após se referir à aprovação do reconhecimento de Marina Kue como uma “medida de justiça”, logo depois, pressionado pelos latifundiários, Mario Abdo voltou atrás e vetou a redistribuição. Em função disso, o parlamento voltará a analisar a situação na próxima quarta-feira (3), com os sem-terra somando forças junto aos mais amplos setores da sociedade civil, nacional e internacional, para fazer valer seu clamor.

“É completamente inadmissível esta postura do governo, não se pode entender tamanho retrocesso, pois nossas terras nos dão de comer e haverá pobreza com tal situação. Este é um atropelo aos nossos direitos”, declarou Martina Paredes, coordenadora do movimento. Martina perdeu dois irmãos no massacre – Fermín e Luis Agustin – e tornou-se, ao lado de seu marido Dario Asuncion, símbolo de resistência dos acampados à fúria dos sucessivos governos neoliberais.

O local foi cenário do massacre de 15 de junho de 2012, onde foram mortas 17 pessoas – 11 camponeses e seis policiais – em um suposto “enfrentamento” com as digitais dos Estados Unidos. O sangrento conflito armado levou à destituição do presidente Fernando Lugo, ocorrida uma semana depois por meio de um golpe jurídico-midiático- parlamentar.

Para termos a dimensão do “confronto”, ele envolveu de um lado 324 policiais, tropas de elite treinadas pela CIA e pelo exército dos EUA, armadas com fuzis, bombas de gás, capacetes, escudos e até helicóptero. De outro, 60 trabalhadores sem-terra, metade deles mulheres, crianças e anciãos, e algumas garruchas de caça que nem chegaram a disparar. O sangue inundou o campo e os noticiários, os mesmos que se tornaram cúmplices, silenciando não só sobre a real situação dos camponeses, como da fome na mesa dos paraguaios.

Martina Paredes e Dario Asuncion, da Associação de Familiares e Vítimas do Massacre de Curuguaty, recebem solidariedade da CUT-A Paraguai e da ANDE

Leonardo Wexell Severo
A mobilização é uma resposta ao veto do presidente Mario Abdo Benítez ao Projeto de Lei

Fome e abundância

Embora produza alimentos para mais de 70 milhões de pessoas, o país tem parcela expressiva de seus 7,1 milhões de habitantes faminta. Outra parte paga preços absurdos por produtos que servem tão somente para enriquecer – e engordar – uma minúscula casta de nacionais e estrangeiros.

Pelos próprios cálculos oficiais, somente 2% da população concentram 78% das terras cultiváveis, produzindo fundamentalmente para a exportação (94%). A irracionalidade que impede os camponeses de trabalharem as suas terras é a mesma que prorroga as isenções fiscais e a superexploração da sua mão de obra. É a mesma que potencializou na última década o avanço do agronegócio, com destaque para o arroz (240%) e a soja (180%).

A manutenção desta política se dá com a manipulação da opinião pública, condena o pesquisador Amado Arrieta, frisando que a elite empresarial controla os principais meios de comunicação do país. Um levantamento realizado recentemente pela equipe RTV, explicou, aponta que o grupo de Horacio Cartes, presidente de 2013 a 2018, controla os jornais Diários ADN, La Nación, Crónica e Popular, as rádios 970 AM, Montecarlo FM, Hoy Digital, Rádio Láser, HEI Radio e as emissoras HEI TV, Vint, Tropicalia, Red Paraguaya de Comunicación, Estación 40, Unicanal e GEN. A companhia Vierci detém os jornais Diário Última Hora, Extra, Telefuturo, La Tele, Red Guarani, Canal Noticias Py, Monumental AM, Urbana FM, Estación 40, Radio Palma, Radio Virtual FM e Paraguay.com. O grupo empresarial Zucolillo manipula o jornal Diario ABC, ABC TV, ABC Cardinal, ABC Digital e Canal Pro. Já a corporação “González”, detém o SNT Cerro Corá, Paravisión, CN9, Paraná TV, Sur TV e Rádio PQR.

“Todos são parte do mesmo clube de pecuaristas e plantadores de soja e maconha, todos com a mesma linha editorial de silenciar os camponeses. O fato é que não há liberdade de expressão no Paraguai, nenhuma. O que existe é o interesse deles, que eles defendem por todos os seus meios de comunicação. Da nossa parte, temos alguns poucos jornalistas que escapam”, denunciou Guillermina Kanonnikoff, do Movimento de Solidariedade aos camponeses de Curuguaty e ex-presa política da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989).

Conforme Guillermina, o fato do veto presidencial voltar a ser avaliado na próxima quarta-feira, 3 de fevereiro, é “extremamente significativo”. “Qual é a representação desta data para os paraguaios? O 3 de fevereiro [de 1989] é o dia da caída da ditadura stroessnista, após 45 longos anos (1954-1989). Este dia tem um valor especial, portanto, para derrubarmos o voto de censura a Marina Kue, para passar uma mensagem clara a Marito, o atual presidente, que é um stroessnista, pois foi ele quem vetou”, assinalou.

Veto discriminatório e racista

Na avaliação de Guillermina, “o veto representa algo discriminatório e racista, totalmente antidemocrático, que atenta contra a Humanidade e os direitos humanos”. “Agora precisamos igualar direitos. Porque o governo e sua mídia  têm tratado o camponês como criminoso e devastador, enquanto foi o agronegócio que, com suas máquinas, desflorestou o país, agindo irresponsavelmente para a contaminação dos bosques e rios. São eles quem impulsionam o desastre climático”, frisou.

“Nossa mobilização defende uma lei que iguale direitos, que caia igualmente sobre todos. Não podemos perdoar aos que devastam a terra e precisamos valorizar primeiro os que têm interesse em cuidá-la. Isso é o que nos ensinaram os indígenas e é o que temos defendido. Se não fossem eles, já estaríamos vivendo em cápsulas, por falta de oxigênio”, acrescentou Guillermina.

Nestes mais de oito anos de luta de familiares e vítimas do massacre, no episódio de maior violência na luta pela terra na nação guarani, participei como observador internacional e publiquei dois livros “Curuguaty, carnificina para um golpe” e “Curuguaty – O combate paraguaio por Terra, Justiça e Liberdade”, contribuindo com a campanha pela elucidação dos fatos. Está mais do que passada a hora de se fazer justiça.

“Para vencermos esta luta de uma vez por todas, é o momento de retomarmos, com força, a campanha de solidariedade, com a mesma unidade e amplitude da que quando retirarmos da prisão os camponeses injustamente presos. Esta é uma questão de democracia, de justiça e de direitos humanos. Abaixo o stroessnismo! Viva o 3 de fevereiro!”, concluiu Guillermina.

Leonardo Wexell Severo, colaborador da Diálogos do Sul


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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