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Paris, Beirute, Mariana e as vidas humanas: observações sobre o incomparável

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

marianaSylvia Moretzsohn*

A ênfase da cobertura jornalística aos ataques terroristas em Paris, que, segundo as primeiras informações, mataram pelo menos 129 pessoas e deixaram mais de 350 feridos, provocou a previsível reação nas mídias sociais entre os contestadores do “sistema”: como em episódios semelhantes, multiplicaram-se os comentários que acusavam a relativização da importância da vida humana e a indignação seletiva diante da tragédia, tendo em vista o silêncio ou a naturalização sobre o que ocorre em outras partes do mundo.

Foram muitos os protestos contra a disparidade de tratamento, por exemplo, entre o que ocorreu em Paris e em Beirute, onde, na véspera, um ataque da mesma índole matou 43 pessoas e deixou quase 240 feridas. Da mesma forma, proliferaram as comparações com a situação dos mortos e desabrigados na recente catástrofe ambiental em Mariana, ou com a rotina de mortes violentas no Brasil, que em 2014 fez 160 vítimas por dia.

São duas questões distintas, mas que remetem ao mesmo apelo humanitário, tão sensível quanto pouco esclarecedor: de fato, do ponto de vista humanístico, nenhuma vida deveria valer mais (ou menos) que outra. Entretanto, não foi assim ao longo da história, e menos ainda no capitalismo, que tende a transformar tudo e todos em mercadoria: não é muito difícil constatar que as vidas têm valores muito diferentes conforme a posição social que se ocupa.

Numa crítica mordaz aos critérios de notícia que orientavam?—?e orientam?—?a imprensa, Alexander Cockburn dizia que “os editores devem se lembrar de que há extensas partes do mundo nas quais as pessoas não existem a não ser em grupos de mais de 50 mil”. Recordei a atualidade deste comentário, publicado há quatro décadas, quando escrevi sobre o abismo entre a comoção provocada no início do ano pelo ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo, também em Paris, e o massacre de 2 mil pessoas promovido dias antes pelos fundamentalistas do Boko Haram em Baga, na Nigéria. Tentei então demonstrar que a lógica perversa apontada pela ironia de Cockburn fazia sentido do ponto de vista geopolítico (e jornalístico): o que ocorre nos países mais importantes tem mais relevância, inclusive pelos desdobramentos políticos que esses acontecimentos podem provocar.

Paris e Beirute: diferenças

É fundamental noticiar o que ocorreu em Beirute para que sejamos capazes de apreender a tragédia da guerra que se desenvolve na região. Mas a rotina da guerra é a rotina de tensões, desespero, mortes: fora os grandes massacres, só um esforço de redirecionamento da cobertura poderia tentar chamar a atenção do público não afetado diretamente por esse drama.

Já os ataques perpetrados em Paris rompem a rotina. Além do sentido simbólico da violência contra um ícone do iluminismo e contra a cidade que há muito tempo é o principal destino turístico no mundo, têm outra dimensão política: trazem consigo o crescimento da onda de xenofobia que se alastra pela Europa, aumentando o drama dos refugiados dos conflitos no Oriente Médio e da África?—?tanto os que estão em trânsito quanto os que já vivem em acampamentos?—?e afetando os imigrantes já estabelecidos; o recrudescimento de medidas de vigilância na França e nos demais países potencialmente visados, que restringem os direitos dos cidadãos e alimentam um clima de insegurança e desconfiança, prato cheio para a manipulação do medo social; e o incremento da guerra contra o Isis, o “Estado Islâmico”, com a consequência trágica previsível.

O alarde em relação ao ataque permitiria pôr em causa a discussão fundamental sobre quem financia o terrorismo?—?em suma, os laços entre os Estados democráticos e a indústria armamentista no estímulo ao nascimento desses grupos que depois vêm atacá-los, o emaranhado de interesses envolvidos na promoção de guerras, o próprio terrorismo de Estado convenientemente dissimulado como forma legítima de combate. E é claro que, exatamente por esses motivos, seria preciso contestar o comportamento do âncora que olha muito sério para a câmera e avisa que somos “nós contra eles”, a civilização contra a barbárie.

Paris e Mariana: disparates

Se são claras as diferenças de ênfase entre o que ocorreu em Paris e em Beirute, que estão no mesmo contexto, mais ainda deveriam ser as diferenças entre a carnificina na capital francesa e a tragédia ambiental em Mariana. Comparar um ato de terrorismo com uma catástrofe provocada pela ganância empresarial e esse misto de negligência e conivência do poder público com interesses privados é ignorar uma distinção fundamental da origem e das consequências de cada fato. O que aconteceu em Mariana, e que até o momento mereceu uma cobertura pífia da nossa mídia hegemônica, é de uma gravidade incomensurável, mas nada tem a ver com ataques terroristas, nem pode provocar consequências semelhantes. Tampouco o absurdo índice de mortes violentas no Brasil ou, mais especificamente, a situação da periferia das grandes cidades do país, pode servir como elemento de comparação para os atentados de Paris. Porque só é possível comparar o que tem a mesma substância.

Uma das inúmeras manifestações no Facebook recordou as famosasMeditações de John Donne, depois tratadas como poema, sobre o pertencimento de cada pessoa ao gênero humano: “no man is an island entire of itself, every man is a piece of the continent…”. Por isso não faria sentido perguntar por quem os sinos dobram: “eles dobram por ti”.

Deplorar o sangue derramado é uma necessidade em qualquer circunstância. Mas, do ponto de vista da política, as circunstâncias fazem toda a diferença. É isto que o bem intencionado apelo humanitário ignora, ao promover essa generalização que só ajuda a confundir e dificulta a luta necessária por um mundo menos desigual e violento.

*Sylvia Moretzsohn é jornalista, professora de jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Publicado originalmente no blog “Quem tem medo da Democracia?”

 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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