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Peru: a fera ferida

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

Gustavo Espinoza M*

Dizem por aí, e é verdade, que uma fera é muito mais perigosa e agressiva quando está ferida. Pois bem. É isso precisamente o que ocorre no Peru com a Máfia apro-fujimorista no afã de recuperar seus privilégios e destruir a expectativa dos peruanos por um país melhor, mais humano e mais justo. Para bem entender a natureza dos acontecimentos de hoje há que ver a partir dos elementos mais apremiantes constantes no debate entre os peruanos.

Milagros Leiva foi despedida. Milagros Leiva foi despedida.

O primeiro se relaciona com a jornalista Milagros Leiva. Até há poucos dias ela foi figura proeminente na televisão privada. Teve dois programas políticos na “América TV” e “Canal N” e as colunas escritas no decano da imprensa nacional, a versão peruana de “El Mercúrio”, de Chile. Ela subitamente caiu em desgraça.
Para surpresa de todos foi acusada de utilizar procedimento pouco éticos para obter informações. As primeiras indagações puseram a descoberto que de fato ela tinha viajado sigilosamente em cinco oportunidades para Bolívia e proporcionado vultosas somas de dinheiro a Martin Belaunde rossio para “conseguir” confissões. Falou-se, inicialmente, em 30 mil dólares e logo de 60 mil, sem que fosse possível ver a entrega desse dinheiro. Não obstante, soube-se que se dispuseram a assegurar uma entrevista a esses meios pelo já foragido da justiça.
Pelo rumo das entrevistas – foram duas – se tem uma ideia clara do “pactuado”: O dinheiro foi entregue para que envolvessem a Nadine Heredia, a esposa do presidente Humana. Se Balaunde não tivesse aceito isso, não teria se beneficiado com o acordo, porque ali estava o dinheiro que deveria sustentar a campanha que a jornalista fazia em seus programas contra a presidenta do Partido Nacionalista e segunda figura em importância na política peruana.
O tema, a propósito permite que se pergunte se Leiva pagava pacotes de dinheiro para formular acusações ou suspeitas contra a primeira dama da Nação? Quantas outras declarações do mesmo teor terão sido formuladas com o mesmo procedimento?
Ela pagou ao senhor Belaunde para fazer o que fez? Não teria pagado também a empregada da família Humana que “roubou as agendas hoje em discussão na justiça, ou ao senhor Quintana, ex líder nacionalista e a vários outros que passaram pela mesma rota e compareceram diante das câmeras para declarar contra Nadine Heredia?
E esse procedimento generoso e lucrativo não terá sido utilizado por alguns dos furibundos comentaristas da televisão que dia após dia e todas as horas, destilam o mesmo ódio e repetem as mesmas arengas com o mesmo propósito?
Basta com perceber o fato de que hoje vários dos meios ligados à Máfia pretendem endeusar a Leiva proclamando-a “paradigma do jornalismo investigativo” e “mártir da imprensa nacional”. E saber também que ela contratou – talvez por uma soma maior- o advogado Nakazaki -o mesmo de Alberto Fujimori– que que “a defenda” diante de eventuais processos judiciais.
Vale explicar, nesse contexto, porque a senhora Leiva caiu em desgraça e foi despedida injustamente pelos meios que como ela têm os mesmos objetivos. Vale recordar frase de Juan Domingo Perón: “cuando una espiga sobressai num campo de trigo, o melhor é cortar-lhe a cabeça”. É, foi isso. Os métodos que regulam as relações entre os membros da classe dominante não consideram lealdade nem respeito. São os interesses que se impõem.
E a senhora Leiva, que hoje acusa o governo de ter tramado sua demissão, devia ter percebido isso antes.
Um segundo caso se refere ao recentemente capturado Gerald Oropeza, o chamado “Tony Montana peruano”, interceptado por efetivos da polícia equatoriana e peruana quando vivia escondido em um balneário de Guayas. A detenção do foragido era esperada desde abril mas segundo seus familiares tinha “passado à clandestinidade” e estava bem guardado. Sua mãe assegurou que ela o tinha “protegido”, e que “não o entregaria a justiça” por ser ele inocente.,
Na verdade é um dos mais questionados personagens da vida nacional. Acusado por múltiplos delitos escapou graças a recursos e conexões também políticas. Geral, filho de um conhecido líder aprista, se viu beneficiado com vultosos contratos; teve como “assessor legal” a Facundo Chinguel, processado pelos narcoindultos; e manteve outros vínculos de amizade e familiares com o ex presidente e seus apaniguados partidários. Sua captura foi surpresa. E hoje é qualificada como “uma cortina de fumaça” utilizada pelo governo para encobrir suas “torpezas”.
Se isso não tivesse ocorrido, estariam falando da “incapacidade” do governo para reprimir delinquentes e garantir a segurança à cidadania.
A detenção de Oropeza, não obstante, permite uma reflexão. Bem observado a coisa, o governo de Correa teve uma participação decisiva em sua captura; do mesmo modo que o governo de Evo interveio e entregou Martin Belaúnde; e o de Chávez permitiu trazer a Valdemiro Montesinos. Contrariamente ao que a Máfia assegura obsessivamente, foram os governos progressistas de América os que ajudaram o Peru a capturar e processar a esses pitorescos personagens. Deviam agradecer-lhes em lugar de enlamear-los como fazem diariamente.
O que fica claro é que uma investigação séria sobre o tema teria de levantar tremendas acusações contra a corrupta direção do Para que não sabe como “limpar” sua já embolorada imagem.
Um terceiro elemento tem a ver com o caso da um policial de segurança, Emerson Fasabi, que morreu surpresivamente há pouco tempo. A campanha em torno desse fato se orienta a assegurar que Ollanta Humala tem a responsabilidade principal pela morte desse personagem. Inclusive ventilam a ideia de que o matou ou fez com que o matassem. Por isso insistem em “investigar a morte”, via parlamentar além da judicial. É para a Máfia um morto apetitoso.
Sem dúvida se esclarecerá o que ocorreu nesse casa, mas, o primeiro que salta é referente a entrega do cadáver de Fasabi, que permaneceu 15 dias na morgue de Lima sem que ninguém reclamasse. Dizem que com dinheiro de Humana e por ordem dele o corpo foi entregue a sua mãe em um inóspito casario na selva central.
Alguém que estivesse direta ou indiretamente implicado com a morte de alguém e não quisesse responder por isso, teria feito qualquer coisa, menos entre ar os restos do morto. Deixaria a “prova do delito” a disposição. Os mortos falam. Porém, como diz o fujimorista Aguinaga, “a dúvida já foi semeada”. E para eles, isso é o que importa.
Procuram relacionar a morte de Fasabi com a truculenta história das “agendas de Nadine”. Elas foram subtraídas há mais de oito meses. E estiveram de posse de diferentes pessoas que as manipularam como quiseram o que é muito fácil.
Agora ocorre que as “agendas” são algo assim como o computador de Reyes, comandante das Farc, assassinado na Colombia. Desse computar se extraiu toda tipo de documento. A Cia é especialista nisso. Fez antes com os documentos de Rancagua. Depois com os de Miami e em seguida com os do economista cubano Ceptro Bonilla que morreu num acidente aéreo ocorrido nas proximidades de Lima no início dos anos 1960.
Essas agendas poderiam originalmente ter sido de Nadine porém, sem dúvida, foram manipuladas até a exaustão e hoje devem conter todo tipo de letra e também de conteúdo. O especialista disse ter estudado dez páginas  para certificar que é sua letra. As outras quase 200 páginas ficam a cargo de quem queira.
Nesse convulso marco político crescem os rumores de Golpe de Estado. Para alguns é a maneira mais rápida de “acabar” com Humana – como que sonham ardentemente. A denúncia contra Nadine, aprovada no Congresso, é um passo adiante. E é também uma maneira de botar lenha na fogueira. E em todos os casos, é procedimento utilizado anteriormente e que se conheceu em diversas capitais: Honduras, Paraguai e mais recentemente na Guatemala.
Não se pode baixar a guarda.
*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima Peru


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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