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Peru: A respeito da autoproclamada e autodiferenciada esquerda democrática

Essa “Esquerda democrática” proclama sua intenção de “diferenciar-se” da “outra”. Cabe perguntar-se: alguém lhes conferiu esse “dom” privilegiado?
Gustavo Espinoza M.
Lima

Tradução:

“Dizem que o mar é violeta, dizem que a Terra é plana, que caiu neve em Havana, que existe só um planeta. Que Homero não foi poeta, que Goya se cortou um pé, que nunca existiu Fouché, que  Aquiles morreu do cotovelo. As Fake News mudam tudo. E há quem acredite.”
Yoerky Sánchez

A expressão “Fake News” representa um contrassenso. Trata-se de “notícias falsas”. Em outras palavras, notícias inventadas. E é um contrassenso porque a notícia é a versão de um fato. E um fato pode ser bom ou mau, mas não falso. Se fosse falso não seria um fato, mas sim uma invenção. Por isso se diz que as Fake News são “notícias inventadas”.  E como afirma Yoeky Sánchez, há quem acredite. Acreditam no que lhes diz a “Grande Imprensa” e o que vêm repetindo os poderosos há muitos anos. Por isso, sustentam hoje a ideia de uma imaginária “nova” esquerda, que é uma expressão bastante antiga.

A Esquerda – como reflexo do sentimento e da vontade popular mais positiva e progressista – não pertence nem ao futuro, nem ao passado. Tem passado, e também futuro, é verdade. Mas não é a mesma coisa.  É que tanto no passado, como no futuro, alimenta suas ações com acertos e erros, com aventuras e desventuras, com avanços e retrocessos. Mas caminha como a velha toupeira da história, essa à qual aludia Carlos Marx, ainda embaixo da terra.

Um artigo de Rocío Silva Santisteban e publicado recentemente em “La República”, sustenta o ponto de vista do que se proclama entusiasticamente como a “futura esquerda democrática do Peru”. Vale a pena formular algumas observações.

A primeira, tem a ver com o estilo leve do qual ela se orgulha, não na forma, mas na essência. Sustenta, efetivamente, que a esquerda peruana “deve muito mais a Arguedas que a Stálin”. É claro que isso ninguém poderia negar, mas carece de essência e é apenas uma concessão à frase. E é que entre Arguedas e Stálin não há termo de comparação, como não poderia haver entre Einstein e Cesar Vallejo, ou entre Madame Curie e María Elena Moyano. Trata-se de personalidades distintas, surgidas em cenários diferentes, e portadoras de mensagens e lições que poderiam ter uma base comum – humana e social – mas conteúdos dissimiles.  Por isso não podem ser situados no nível da contradição, procurando que uns sejam “arguedianos” e outros “estalinistas”. Não tem sentido igualar nem contrapor uns aos outros. 

Diz Rocío que a esquerda peruana – que considera extinta – não é condizente “com a heterogênea realidade de nossa esquerda múltipla”.  Aqui tampouco cabe uma comparação. O universo político – no qual coexistem diversas expressões de direita ou esquerda – sempre foi e será heterogêneo e múltiplo. E esse traço não lhe confere primazia, nem inferioridade, a ninguém. É apenas um sinal vital que mostra a luta de ideias, e o desejo dos homens de encontrar explicação para seus desafios. 

Essa “Esquerda democrática” proclama sua intenção de “diferenciar-se” da “outra”. Cabe perguntar-se: alguém lhes conferiu esse “dom” privilegiado?

MAS / Movimento Esquerda Socialista
Para os povos, não há alternativa. Ou lutam contra a opressão do Império, ou perecem. O resto é literatura

O que não é válido é desqualificar as pessoas em função dos anos que têm e considerar “gerontossauros” aqueles que têm ideias que se julgam “antigas” – como a luta de classes, por exemplo. Mas há que deslindar. Alguns são os expoentes dessa Esquerda que se considera “obsoleta” e outros, os representantes da “estela mortal senderista”. O “senderismo” – ou seja, o terrorismo – não é uma ideologia, mas sim uma metodologia, uma vontade distorcida, perversa e destruidora, incompatível com qualquer concepção que busca a libertação humana. O inimigo procura mimetizar uns com outros, mas essa é tarefa do inimigo. Não de uma “esquerda renovada”.

No entanto, essa confusão subsiste em algumas pessoas. E é por isso que se fala – de forma superficial – de uma “esquerda racista, machista e extrativista” para contrapô-la a outra que – imaginamos – não adoece de tais “pecados”. Trata-se simplesmente de ofensas, porque uma Esquerda Revolucionária não pode ser – e nunca foi– racista, machista ou extrativista. Esses são traços de um comportamento pouco desenvolvido, e apareceram na história humana em diversas etapas e em diferentes segmentos. Em nenhum caso expressam uma vontade da “esquerda”. As provas sobram desde Espártaco até nossos dias, passando pelas vivências heroicas de cada um dos povos. Neles, homens e mulheres de todas as cores e raças combateram pela liberdade e contra a opressão. E se é preciso “definir responsabilidades” se poderia revisar a história, quando não os textos de Marx ou de Lênin para encontrar expressões de “racismo” ou “machismo”. 

Um velho estratagema do debate político consiste em “contrapor” representantes de uma luta com os expoentes de outra. Isso se costuma fazer exaltando a uns e maculando a outros. Assim, se idealiza Hugo Blanco afirmando que hoje “luta pela humanidade” – o que implicaria uma “evolução” em suas ideias porque antes “lutava pelos camponeses”.  E este é outro artifício. 

Os comunistas, por exemplo, lutamos contra o fascismo em suas expressões mais perversas; e não foi essa luta em defesa da humanidade? A União Soviética não salvou o mundo da barbárie hitlerista? No Peru combatemos ditaduras opressoras. Não defendemos os peruanos? Ou é que agora, em nome da “modernidade” se quer dizer que o fascismo foi derrotado pelos ianques, e as ditaduras simplesmente pelos “democratas”? 

Essa “Esquerda democrática” proclama sua intenção de “diferenciar-se” da “outra” para que se diga “indigenista”, “feminista” e “ecologista”. Cabe perguntar-se: alguém lhes conferiu esse “dom” privilegiado? Por que motivo se supõe que a Esquerda Marxista e Leninista não se importa com as populações originárias, nem com as mulheres, nem com a biodiversidade? Em que está baseado tamanho despropósito? 

Toda esta “teoria” tem outro propósito: guardar distância do Processo Emancipador Latino-americano agredido pelo Império. Como não há razão teórica para essa opção, usam-se os argumentos da reação: “ditaduras que reprimem e assassinam os que se mobilizam nas ruas”. Em que baseiam esses boatos? Nas “Fake News” inventadas pelo inimigo e com as quais justificam sua política genocida. E essas são pagas pela USAID, e se difundem através de ONGs, regiamente financiadas.

Hoje o que está em jogo é a Paz e não o Maduro. A ameaça contra o mundo provém da guerra, que é a arma do Império, e não do povo da Venezuela. É difícil entender? Se lhes resulta difícil no plano da análise teórica, haverão de compreender quando vejam as cidades arrasadas e os países destruídos, quando o pranto das crianças os desperte de suas ilusões e entendam finalmente que, para os povos, não há alternativa. Ou lutam contra a opressão do Império, ou perecem. O resto é literatura. Quanto ao papel da violência, a história o dirá. Quem a emprega e para que?

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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