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Perú Libre, Juntos por el Perú e a ruptura da esquerda que facilita ofensiva contra Castillo

Se algo a ultradireita aprendeu com eleição de Castillo foi que, ao invés de se dividir, deveria dividir aqueles que considera inimigos
Jorge Rendón Vásquez
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

Esta agressão começou cedo, quando Pedro Castillo ganhou as eleições no primeiro turno no ano passado. A ultradireita não podia acreditar: um professor de escola primária e além disso mestiço havia ultrapassado seus candidatos. Tão segura estava de manipular os votos populares, os únicos que finalmente se contam em uma eleição no Peru, que apresentou vários.

Sua primeira reação foi gritar contra o triunfador, qualificando-o de terrorista, comunista, inepto, recém-chegado e outros epítetos mais, e advertindo que ele tiraria a todos até seus menores bens. Mas essa maligna campanha foi insulsa, pois o professor de escola primária ganhou no segundo turno e foi proclamado Presidente

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Se algo a ultradireita aprendeu dessa derrota foi que lhe era prejudicial dividir-se e que, pelo contrário, devia dividir aqueles que considerava seus inimigos: o partido Perú Libre, o novo Presidente da República e o movimento Juntos por el Perú. Desde os tempos da velha Roma se sabe: divide et impera. Portanto, suas baterias apontaram para esse objetivo.

A faina de demolição foi encarregada à sua imprensa e TV, pertencentes a não mais de cem pessoas que utilizam, como alto falantes, a uns cinquenta jornalistas e formadores de opinião alugados, e a operação de assalto aos seus parlamentares, que somam 43, e que poderiam ser reforçados por algumas dezenas de aventureiros. 

Esta colocação deu à ultradireita resultados favoráveis graças ao baixo nível de formação política e econômica, e a inexperiência e ingenuidade de seus adversários, os quais em lugar de unir-se frente ao ataque romperam sua frente e se dispersaram, fazendo concessões à ultradireita com o propósito evidente ou subliminar de convencê-la de que eram bons meninos e que podiam confiar neles. Se os dirigentes de Perú Libre e Juntos por el Perú e seus parlamentares se houvessem empenhado em constituir um só bloco, a situação política no Peru seria outra agora.

Anulados do jogo Juntos por el Perú e Perú Libre, sobrou como objetivo Pedro Castillo, aparentemente só e isolado. 

Se algo a ultradireita aprendeu com eleição de Castillo foi que, ao invés de se dividir, deveria dividir aqueles que considera inimigos

Hora do Povo
A pergunta que surge é: como os grupos Perú Libre e Juntos por el Perú reagirão diante dos ataques da ultradireita a Castillo?




Oligarquia branca

A velha oligarquia branca está habituada a dominar o poder desde o vice-reino e durante a República. Se não o tem algum dos seus, sabe como submeter a outros que o tenham, por um ou outro meio, por bem ou por mal, e, sobretudo, pela corrupção. 

Um de seus planos contra Pedro Castillo foi muito simples. Pouco depois de haver chegado este à Presidência, lhe infiltrou a certos sujeitos de traço simples que, por seu aspecto, podiam assemelhar-se aos amigos e simpatizantes daquele, com cujas intrigas posteriores e “revelações” poderiam construir depois um caso penal.

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O momento chegou quando assumiu a Promotoria da Nação uma advogada de méritos intelectuais desprezíveis (entre seus antecedentes figura um doutorado pela excelsa universidade Asas Peruanas, com uma tese discutível e cujo conhecimento dos dois idiomas estrangeiros para obtê-lo ignora). Então, o Ministério Público, convertido já em um fator político, se lançou à ofensiva contra o Presidente da República e contra vários membros de sua família, brandindo a arma que possui: sua faculdade de revistar locais e residências, deter e acusar. 

É claro que esta ofensiva foi informada até a saciedade pela imprensa e pela TV da ultra direita, enchendo suas páginas e espaços para tratar de criar um clima de indignação entre a população.


Oligarquia e ultradireita

À oligarquia branca e sua ultradireita não lhes importa que a Promotora da Nação tenha acusado o Presidente da República, infringindo o artigo 117 da Constituição Política, uma acusação que constitui o delito de prevaricação. Já apareceram alguns “constitucionalistas” que se encarregaram de justificar essa acusação e, contra natura, mostrá-la como legal. 

O campo onde se joga essa partida é de novo o Congresso da República. De um lado estão os três grupos da ultradireita, mais os seus aliados das outras agrupações, e do outro o Presidente da República. Todos esses contra um, e sem árbitro. E, de novo, há um projeto para retirar o Presidente da República de seu cargo por “incapacidade moral”. 

A pergunta que surge é: como reagirão diante disso os grupos Perú Libre, Juntos por el Perú ou seus restos?

As recentes eleições regionais e de governos locais provam o que sucede no Peru desde sempre: as eleições têm resultados aluviais, determinados por certas circunstâncias que não se repetem e que, diante da ausência de partidos políticos com doutrina e quadros bem treinados, ganham os aventureiros que, obviamente, não voltam a triunfar. Só um partido saiu dessa regra, mas terminou por afundar em uma impopularidade irremediável pela perseverança de seus dirigentes em roubar ao Estado por todos os meios e em todos os setores e níveis aos que puderam chegar. 

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Há, no entanto, no Peru, outra constante nas eleições: é a aspiração de uma parte crescente do eleitorado popular a crer em grupos e candidatos que poderiam dar-lhes alguns direitos e oportunidades. Esta parte do eleitorado se acha conformada por trabalhadores dependentes e independentes, pequenos proprietários de empresas e terrenos, condôminos e aposentados, muitos de fora da capital, que aspiram a um destino melhor, e creem ou querem crer que os candidatos das agrupações denominadas de esquerda ou independentes serão sérios e cumprirão suas ofertas. Apesar das traições e frustrações, esta fé e confiança não chegou a desvanecer-se, e essa parte do eleitorado seguiu acreditando em outros personagens e candidatos, mais que nas agrupações, e insistiu em dar-lhes seu voto. 

É evidente que a maneira em que as agrupações Perú Libre, Juntos por el Perú e outras semelhantes tratem a guerra contra o Presidente Castillo neste momento definirá seu futuro e suas possibilidades de seguir existindo. Além deles se levanta no panorama político a figura de um novo ator e seus seguidores como a versão futura de uma nova esperança chamada a recolher o voto aluvial das maiorias populares e a quem, sem dúvida, a ultradireita estigmatizará e de quem os grupos de esquerda não tardarão em sentir ciúmes mortais, renunciando a aprender a lição da história. 

E o povo popular, “sofrido e aguentador” tem algo a dizer? Não estamos diante de “um pleito entre brancos” Não! Estamos diante de um ataque contra alguém desse povo que como quiseram muitos outros provincianos, chegou aonde está, por sua inteligência, para honra nossa. 

Jorge Rendón Vásquez | Colaborador da Diálogos do Sul em de Lima, Peru.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Jorge Rendón Vásquez Doutor em Direito pela Universidad Nacional Mayor de San Marcos e Docteur en Droit pela Université de Paris I (Sorbonne). É conhecido como autor de livros sobre Direito do Trabalho e Previdência Social. Desde 2003, retomou a antiga vocação literária, tendo publicado os livros “La calle nueva” (2004, 2007), “El cuello de la serpiente y otros relatos” (2005) e “La celebración y otros relatos” (2006).

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