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Peru: Sem Castillo, protestos seguem e forças de segurança ameaçam aprofundar repressão

"Se não houver uma trégua de nenhum dos lados, principalmente do governo, isso deixa de ser uma revolta e passa a ser um motim", afirma jornalista peruana
Aldo Anfossi
La Jornada
Lima

Tradução:

Nada muda no momento no Peru, a convulsão social continua, as estradas se mantêm fechadas e cidades que não figuravam no mapa dos distúrbios, dos protestos e dos bloqueios começam a aparecer, como a nortenha Chota, no departamento de Cajamarca, da qual é oriundo o ex-presidente Castillo, onde as rondas camponesas impedem o ingresso e a saída de veículos. 

Em um reconhecimento tácito da complexidade da situação, a presidenta Dina Boluarte disse na última segunda-feira (12) estar considerando impor o estado de exceção em todo o país. 

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Perto das 20h30, o ministro da Defesa, Alberto Otárola, comunicou que a rede nacional de estradas ficará sob regime de exceção para que sejam despejadas, o mesmo que os departamentos de Ica e de Arequipa – somando-se a Andahuaylas – e que as forças armadas assumirão o controle e o resguardo de tudo o que for considerado infraestrutura estratégica, como os aeroportos, centrais hidrelétricas e instalações vitais. 

“As forças armadas, em apoio à polícia nacional, poderão tomar o controle da ordem interna”, disse, acrescentando que “não são mais de 8 mil os que estão causando os distúrbios”.

Segundo o ministro, o que acontece no Peru é “uma assomada atiçada por profissionais”. 

Agora se verá quanta possibilidade tem o governo de fazer valer decisões como estas, que além de implicar a saída dos militares às ruas, pode ter sequelas imprevisíveis.


Marchas continuam

Em Abancay, por exemplo, onde se supõe que rege o estado de exceção, as marchas continuam. 

As coisas parecem estar fora de controle: nas regiões de Piura e Amazonas, a concessionária alertou que há cortes em quatro pontos das estradas sob seu controle. Na cidade de Huancavelica, a 400 quilômetros ao sudeste de Lima, incendiaram as dependências da Direção Regional de Transportes. E em Cusco, a 500 quilômetros ao leste da capital peruana, onde já se haviam apoderado do aeroporto, tomaram a planta de gás natural de Camisea, uma das maiores jazidas da América do Sul que produz 45 milhões de m³ diariamente. E assim continua. 

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Nesta terça-feira, a justiça peruana negou uma apelação a Castillo e ratificou que deveria seguir detido pelo menos até o meio-dia desta quarta-feira, quando venceria a ordem de detenção preventiva. 

“Jamais renunciarei e abandonarei esta causa popular que me trouxe aqui. Desde aqui quis exortar às forças armadas e à polícia nacional que deponham as armas e deixem de matar este povo sedento de justiça”, disse Castillo em sua primeira declaração desde sua destituição e detenção há uma semana. 

"Se não houver uma trégua de nenhum dos lados, principalmente do governo, isso deixa de ser uma revolta e passa a ser um motim", afirma jornalista peruana

RTP
Estima-se que Dina cometeu sucessivos erros desde que assumiu, na quarta-feira da semana passada




Tentando reagir

“Hoje vamos utilizar balas de borracha devido ao nível de violência”, declarou também na terça-feira o chefe policial da região de Lima, general Víctor Zanabria Angulo, enquanto seus efetivos ocupavam a Praça central San Martín.

A ameaça ou advertência, como se queira ler, tem a ver com que, conforme passam os dias, o centro histórico da capital vai sendo ocupado por manifestantes, cujo ponto de concentração é essa praça, onde se manifestam sem lideranças conhecidas e desde a qual se deslocam a diferentes pontos para protestar. 

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Anteontem, o grande monumento equestre no centro da praça, que homenageia o libertador argentino José de San Martin, foi vandalizado com escritos por seus quatro lados: “Dina assassina”, “Congresso assassino”, “Castillo liberdade”, “Assembleia Popular Constituinte” e “Fechem o Kongresso”, se podia ler. Na terça-feira pela manhã, toda a base da estátua havia sido coberta, impedindo de ler as consignas.

O general Zanabria, para justificar seu anúncio, explicou que na segunda-feira houve 32 agentes feridos na capital. 

“Nós temos a titularidade do uso de força, por delegação do Estado, temos todas as normas com padrões internacionais aprovados e hoje vamos elevar o nível de resposta ao utilizar balas de borracha, dado o nível de violência e afetação à integridade que há”, disse. 

Segundo ele, seriam 5 mil policiais para garantir a segurança de moradores, comerciantes e público em geral. 

Mas na tarde de terça-feira, várias centenas de cidadãos haviam regressado às imediações e marchavam sucessivamente ao redor da praça. 

Clara, uma mulher humilde, era uma dessas pessoas e explicava por que: “Sou de província mas resido em Lima. Votei por Pedro Castillo e estou a seu favor porque gosto da verdade e desta classe política, desde o primeiro dia – e mais desde que ele entrou no segundo turno – a única coisa que fizeram foi inventar coisas contra ele. Não creio em nenhum tipo de acusação, não mostram provas verdadeiras. Eu espero que saia esta traidora que é Dina Boluarte, que é uma tapadeira (encobridora) para esse saco de gatos que são os congressistas e toda a classe política, que se creem donos do país, porque ela não representa à presidência, o único presidente é Castillo, nós, o povo o elegemos”, explicou.


Um máximo de 48 horas

Patricia del Río, jornalista e analista da atualidade, crê firmemente que os prazos se esgotam para Boluarte.

“Em mais de 20 anos não havia visto nunca (algo assim, em) que não houvesse um só interlocutor válido, uma figura de autoridade ou referente para pôr um pouco de calma. Os politólogos e analistas com os quais converso quase mencionam a Igreja Católica como possível intermediária porque nem o executivo nem o Congresso estão vigentes. Talvez os governos regionais poderiam armar uma coalisão, são os que estão mais próximos às pessoas”, diz o jornal La Jornada.

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Ela estima que Dina cometeu sucessivos erros desde que assumiu, na quarta-feira da semana passada.

“Seu premier não é a pessoa apropriada para o cargo, seu discurso é equivocado, não tem pulso político; e se tem um país incendiado porque as pessoas querem que fechem o Congresso, e o primeiro ministro, os de Defesa e de Interior vão ao Congresso e ficam horas aí, isso é justamente o que a população não quer ver”, diz.

Del Río observa também que, no fundo da crise, jaz o histórico e irresoluto conflito entre a capital centralista e o Peru rural. 

“Conheço meu país e isto pode terminar muito mal, as pessoas estão muito cansadas, este é um enfrentamento que se vem agudizando há muito tempo entre regiões e Lima. Boluarte e seus ministros abraçaram o discurso de Lima, o olhar de Lima, com o que fizeram. As pessoas sabiam que Castillo era corrupto, mas era a pessoa que certo Peru pôs no poder, então estão furiosos não porque creiam que Castillo é inocente e não deu golpe, mas sim porque não querem perder esse espaço, com justa razão, que lhes foi negado por séculos e que quando o ganharam democraticamente também se pretendeu negar-lhes com uma invenção de fraude”.

Qual é seu prognóstico imediato?

“Se não houver uma trégua de nenhum dos lados, principalmente do governo, isso deixa de ser uma revolta e passa a ser um motim. Se houver mais mortes e não houver uma figura de convocação que está passando por uma mudança de primeiro-ministro, não vejo futuro para que isso seja resolvido nem remotamente”.

Aldo Anfossi | Especial para o La Jornada em Lima, Peru.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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